Foi autor de tratado pioneiro na ginecologia

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O charme irresistível do ‘Doutor Amor’, o pioneiro em ginecologia que fascinou homens e mulheres

 

Samuel-Jean Pozzi chegou a estampar cartões postais que circularam na França no começo do século 20.

 

 

Samuel-Jean Pozzi, considerado o "pai da ginecologia francesa"

Mais do que médico: político, educador, patrono, colecionador de antiguidades, inventor. (Foto: BBC News Brasil)

 

 

“Sinto muito, caro amigo, por estragar sua noite dessa maneira, mas tenho pelo menos uma bala no estômago”, dizia a nota recebida pelo dr. Thierry de Martel em uma noite no verão parisiense de 1918.

Mas toda sua experiência — ou a de Martel — não foi suficiente para salvá-lo.

 

 

“Com clareza admirável, guiou os esforços de seus colegas cirurgiões. E parecia que o sucesso estava garantido, quando uma hemorragia súbita o levou em questão de minutos”, diria no dia seguinte a Sociedade de Cirurgiões de Paris.

 

Horas antes de sua morte, ele havia recebido um ex-paciente em seu consultório que o acusou injustamente de tê-lo deixado impotente durante um tratamento para varicocele.

Maurice Machu exigia então que Pozzi lhe desse sua “masculinidade” de volta. Isso ou morte.

‘Uma bela obra de arte’

 

 

Ao dar a notícia, o jornal francês Le Figaro descreveu médico como “um amante sincero tanto da Ciência quanto da Arte”.

“Para alguém tão dedicado ao prazer aristocrático de incomodar os outros, foi uma lição testemunhar o sorriso constante de um homem que sabia tirar proveito disso tão bem. Pozzi tinha uma arte de agradar que ninguém poderia igualar”, escreveu o poeta, mecenas e amigo Robert de Montesquiou.

“Minha dor é muito profunda”, disse Marcel Proust, autor de Em Busca do Tempo Perdido. “Penso em sua gentileza, inteligência, talento, beleza, em como eu sempre o reverenciei.”

O homem da túnica vermelha

 

Com o passar do tempo, a memória sobre o médico foi desvanecendo.

Até que, em 1990, a galeria do museu Armand Hammer, em Los Angeles, expôs a pintura de um homem vestido com uma longa túnica carmesim.

A obra do artista americano John Singer Sargent, considerado o pintor de retratos mais bem-sucedido de sua geração, havia ficado escondida por quase cem anos porque os críticos do final do século 19 a consideravam vulgar.

Em uma carta enviada ao grande romancista britânico-americano Henry James em 1885, Sargent descreveu seu modelo como “uma criatura muito brilhante”.

O público se apaixonou por Dr. Pozzi Chez Lui (“Doutor Pozzi em casa”, em tradução livre), trazendo de volta o interesse por aquela figura que já havia encantado tantas pessoas durante a Belle Époque.

Amigo e amante

 

Um dos grandes amores da vida de Pozzi foi Sarah Bernhardt, a voz de ouro do teatro francês e uma das melhores atrizes de todos os tempos.

Eles se conheceram em 1869, quando ele era estudante e ela já era uma artista famosa. Inicialmente amigos, eles acabaram se tornando namorados.

“Amo você com toda a força vital e intelectual do meu ser, e nada pode mudar esse sentimento, maior que a amizade, mais divino que o amor”, disse ele em uma das muitas cartas que escreveu para ela durante seu longo relacionamento.

Apesar de ser conhecido como “amigo das mulheres” e adorado em seu meio, o médico não era uma unanimidade.

Seus principais detratores, aliás, estariam dentro de sua própria casa, alguns anos mais adiante.

Nem sua esposa, Therese Loth-Cazalis, herdeira de um magnata do setor de ferrovias, nem sua sogra, que morava com eles, ou sua filha, a poeta e romancista Catherine, o tinham em alta estima.

Sua longa lista de romances e casos extraconjugais certamente não ajudava.

O que às vezes é esquecido

 

Profissionalmente, entretanto, a biografia de Pozzi era irretocável.

Sua prática clínica e pesquisa meticulosa foram um fator importante no estabelecimento da ginecologia como uma especialidade médica independente no final do século 19 e início do século 20.

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Com seu Tratado de Ginecologia Clínica e Operacional, publicado em 1890 e traduzido para seis idiomas, ele se tornou famoso no mundo da Medicina.

Samuel-Jean Pozzi foi autor de tratado pioneiro na ginecologia. (Foto: BBC News Brasil)

Nele, ao contrário de outros textos semelhantes, Pozzi estabeleceu diretrizes pela primeira vez para que as mulheres se sentissem confortáveis durante os exames ginecológicos.

Quem o conhecia, aliás, o admirava por sua cordialidade, generosidade e respeito pelas mulheres — das aristocratas que frequentavam seu consultório na elegante Place Vendôme àquelas das quais tratava nos hospitais públicos onde trabalhava.

Além disso, ele dedicou em sua obra dois capítulos ao câncer, uma doença que no século 19 era considerada exclusiva do sexo feminino, pois matava três vezes mais mulheres que homens, e que na maioria dos casos afetava o útero e os seios.

Sua abordagem ao tratamento influenciou os médicos por quase meio século.

Mas não foi a primeira vez que um de seus escritos chamou a atenção: em 1874, sua tradução para o francês, juntamente com seu colega René Benoit, de Expressões de Emoção no Homem e nos Animais, de Charles Darwin, foi aclamada pela crítica.

Samuel-Jean Pozzi, considerado o "pai da ginecologia francesa"

Atriz Gabrielle Réjane, que junto com Bernhardt serviu de modelo para o personagem da atriz Berma no romance de Marcel Proust ‘Em Busca do Tempo Perdido’, foi uma das amantes de Pozzi depois que ele se casou. (Foto: BBC News Brasil)

Inúmeros artigos científicos e livros mais curtos se seguiram.

Após sua morte, suas publicações médicas eram mais de 400, que tratavam não apenas de assuntos ginecológicos, mas também de estudos sobre cirurgia abdominal, na qual ele também se destacava, realizando a primeira gastroenterostomia bem-sucedida na França.

A propósito, ele inventou vários instrumentos que levam seu nome, incluindo pinças, hemostatos e seringas.

Como diretor cirúrgico de um hospital público da cidade, Pozzi salvou inúmeras vidas trazendo inovações em antissépticos e anestesia a Paris.

Extracurricular

 

Quando estudava Medicina, ele era um dos alunos do neurologista Paul Broca e, como seu assistente, trabalhou em neurologia, anatomia comparada e antropologia.

Esta última se tornaria uma paixão que o levaria a viajar pelo norte da África e pela América do Sul, colecionando antiguidades e a ser presidente da Sociedade Antropológica Francesa em 1888.

Além disso, chegou a enveredar-se na carreira política, tornando-se senador por sua cidade natal, Bergerac, no sudoeste da França, durante três anos a partir de 1898.

Pozzi também era um conhecedor e patrono das artes, movimentando-se tão facilmente no mundo dos pintores, atores e escritores quanto nos corredores do hospital.

E, como estava convencido de que a arte poderia ajudar a curar, convidou artistas para pintar essas paredes, entre elas Georges Clairin, cuja obra La Santé Rendue aux Malades (“A Saúde Devolvida aos Doentes“, em tradução livre) retrata, personificando a saúde, Sarah Bernhardt.

‘Divina Sarah’

 

A “Divina Sarah”, como ele a chamava, não foi seu único affair.

No início da década de 1870, o nome de Pozzi esteva ligado a algumas das mulheres mais conhecidas da sociedade parisiense, incluindo Geneviève Halévy, a viúva do compositor Georges Bizet, e a crítica literária e especialista em arte asiática Judith Gautier, a musa do compositor, poeta e dramaturgo alemão Richard Wagner.

A poeta de origem alemã Louise Ackermann, 32 anos mais velha que ele, se resignou a ter um relacionamento platônico — tendo-lhe dedicado o poema erótico Um homem.

Em 1879, o encantador amigo das mulheres se casou, aparentemente apaixonado. Mas, quase desde o início, o relacionamento do casal se tornou amargo, principalmente porque Therese insistia que sua mãe dominadora morasse com eles.

Embora tivessem três filhos, seu casamento nunca foi feliz.

Pozzi decidiu que não viveria sem amor — e teve vários casos até conhecer Emma Sedelmeyer Fischhof.

Filha de um negociante de arte e esposa de um criador de cavalos, Emma era uma mulher bonita e educada que se tornou sua amante em 1890.

Ele queria se casar com ela, mas sua esposa se recusou a assinar o divórcio.

No entanto, sua amada Emma permaneceu sua parceira pelo resto de sua vida.

Foi para ela que, dois anos antes daquela fatídica noite de verão de 1918, ele deixou seu último testamento escrito em verso:

“Querida, a meu leito de morte não convoques nenhum sacerdote

Não deixe nenhum cálice ou hóstia sagrada

Ele me diria sem dúvida, e eu acreditaria,

Que errei ao amar-te mais do que amei a Deus.”

(Fonte: https://www.terra.com.br/vida-e-estilo/saude – VIDA E ESTILO / SAÚDE / Por Dalia Ventura – Da BBC News Mundo – 26 JUL 2020)

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