Kim Ki-Duk, polêmico cineasta sul-coreano, conhecido por filmes como “Primavera, Verão, Outono, Inverno… e Primavera” (2003) e premiado em festivais como Berlim, Veneza e Cannes

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Kim Ki-Duk, diretor coreano premiado em Veneza e Cannes

 

O diretor Kim Ki-Duk em 2017, durante a exibição do filme “Moebius” no Festival de Veneza. (Imagem: AP Photo/Domenico Stinellis)

 

Um dos nomes mais relevantes do cinema do país asiático, ele dirigiu filmes como “Pieta” e “Casa vazia”

Kim Ki-Duk (Chunyang-myeon, Bonghwa-gun, Coreia do Sul, 20 de dezembro de 1960 – Riga, Letônia, 11 de dezembro de 2020), cineasta sul-coreano, conhecido por filmes como Primavera, Verão, Outono, Inverno… e Primavera (2003) e premiado em festivais como Berlim, Veneza e Cannes.

 

Kim Ki-duk foi considerado por muitos como um dos primeiros cineastas, no curso das últimas duas décadas, a apresentar o cinema sul-coreano aos espectadores ocidentais.

 

O polêmico cineasta sul-coreano nascido em 20 de dezembro de 1960, em Bonghwa, Coreia do Sul, se estabeleceu como autor de cinema de arte premiado, com filmes de temas sombrios e polêmicos, sempre em evidência no circuito dos festivais internacionais.

 

Ele sempre foi queridinho dos festivais europeus, fazendo premières no continente desde sua estreia cinematográfica de 1996. Seu debut de baixo orçamento, Crocodile, foi lançado no Festival Karlovy Vary, na Reública Tcheca, assim como os dois longas seguintes, Animais Selvagens (1997) e Paran Daemun (1998).

Da sua filmografia, destacam-se “O Bordel do Lago” (exibido, em 2000 no Festival de Veneza, com particular polémica pela violência gráfica do filme), “Primavera, Verão, Outono, Inverno… e Primavera” (multipremiado no Festival de Locarno em 2003), “Samaritana” (2004, prêmio de Melhor Realizador em Berlim), “Ferro 3” (2004), “O Arco” (premiado na edição do Fantasporto de 2006), o documentário autobiográfico “Arirang” (2011), ou “Pieta” (de 2012, vencedor do Leão de Ouro em Veneza).

Sua consagração veio com o quarto lançamento, A Ilha (2000), premiado nos festivais de Veneza, Bruxelas e Fantasporto.

A Ilha também ganhou notoriedade por suas cenas terríveis de violência, inclusive contra animais – supostamente reais – , e conteúdo abertamente indigesto, um padrão que se tornaria marca do diretor. Reza a lenda que, durante a exibição em Veneza, o público abandonou as sessões entre surtos de vômitos e desmaios. O longa nunca foi exibido no Reino Unido, onde teve a projeção proibida. Também recebeu críticas extremamente negativas da imprensa sul-coreana, que o considerou de péssimo gosto. Mas os elogios europeus acabaram prevalecendo e a controvérsia ajudou a projetar seu nome.

 

Endereço Desconhecido (2001) levou-o de volta a Veneza, Bad Guy” (2001) inaugurou sua relação com o Festival de Berlim e The Coast Guard (2002) lhe rendeu três troféus em Karlovy Vary.

 

Mas o filme que realmente o popularizou entre os cinéfilos acabou não tendo nada a ver com os caminhos que ele vinha trilhando. “Primavera, Verão, Outono, Inverno… e Primavera” (2003) abordava um mosteiro budista que flutuava num lago em meio a uma floresta intocada, e representava uma suavidade inédita em sua carreira. Venceu o Leopardo de Ouro e mais quatro troféus no Festival de Locarno, além do Prêmio do Público no Festival de San Sebástian, e graças à repercussão amplamente positiva – sem nenhum resquício de polêmica – conseguiu distribuição internacional da Sony.

 

Só que seu lançamento seguinte voltou a mergulhar no horror. “Samaritana” (2004) acompanhava um prostituta amadora numa história de amor, morte e desespero, apontando um guinada sexual para o sadismo do diretor. Foi o começo de uma radicalização, que, no entanto, não se deu de uma hora para outra.

Kim Ki-duk seguiu alimentando sua fama com a conquista do Leão de Prata de Melhor Diretor por “Casa Vazia” (2004), no Festival de Veneza. Ele ainda adentrou o Festival de Cannes com “O Arco” (2005), antes de retomar o cinema extremo com “Time – O Amor Contra a Passagem do Tempo” (2006), sobre uma mulher que decide sofrer cirurgia plástica extensa para salvar seu relacionamento. Este filme passou e foi premiado apenas em festivais de terror, como Fantasporto e Sitges.

 

Após um par de dramas românticos incomuns, ele realizou seu primeiro documentário, “Arirang” (2011), refletindo sobre sua própria carreira. A obra autocongratulatória venceu a mostra Um Certo Olhar no Festival de Cannes.

Só que o sangue voltou a rolar logo em seguida, no impressionante “Pieta” (2012). O filme venceu o Leão de Ouro, mas causou muita controvérsia devido a uma cena forte de estupro. Alguns espectadores abandonaram a première em Veneza, diante dos desdobramentos da relação entre um violento cobrador de dívidas, que fere devedores de forma brutal, e uma mulher que afirma ser sua mãe. Kim Ki-duk disse que as cenas polêmicas eram uma metáfora do capitalismo.

A premiação de “Pieta” serviu de incentivo para o diretor explorar ainda mais seu sadismo cinematográfico. O lançamento seguinte, “Moebius”, foi recusado nos cinemas sul-coreanos, pelo conteúdo com incesto, castração e outras formas de situações “impróprias”, segundo a Korea Media Rating Board (KMRB), responsável pela classificação etária dos filmes no país. A trama apresentava uma família destrutiva, questionando os seus desejos sexuais básicos.

“One On One” (2014) buscou mais violência, com o assassinato em série de suspeitos da morte de uma jovem estudante. Dividido entre o desejo dos fãs por filmes cada vez mais radicais e a falta de interesse dos festivais na brutalidade gratuita, a carreira de Ki-duk acabou à deriva, como o protagonista de seu filme “A Rede” (2016), encontrado perdido entre as Coreias do Norte e do Sul.

Uma reviravolta marcou o lançamento de “Humano, Espaço, Tempo e Humano” (2018) no Festival de Berlim, que foi marcado por protestos – não por imagens terríveis, mas pelo homem atrás das câmeras. Kim deixou de ser um cineasta de cenas sádicas para virar um cineasta sádico, ao ser condenado por agressão contra uma atriz durante as filmagens de “Moebius” (2013).

A vítima, cuja identidade foi mantida em sigilo, acusou Kim em 2017 de lhe dar três tapas e forçá-la a realizar cenas sexuais sem roupa, que não estavam no roteiro, nos bastidores da produção. A acusadora afirmou que Kim forçou-a a pegar o pênis de um ator, apesar de uma garantia anterior de que uma prótese seria usada. Devido a seus protestos, ela foi substituída por outra atriz no filme. O que a levou a entrar na justiça.

Um tribunal sul-coreano multou Kim em US$ 4,6 mil por agressão, mas os promotores não consideraram as acusações de abuso sexual citando a falta de provas. Foi uma quantia irrisória. Mas custou sua carreira.

Kim tentou aproveitar o palco oferecido pelo Festival de Berlim para se defender, afirmando que os tapas foram dados como instruções para atuação. Mas, logo em seguida, mais duas atrizes denunciaram abusos ainda piores cometidos pelo diretor. Uma delas disse que Kim exigiu vê-la nua durante um processo “humilhante” de seleção, enquanto a outra contou que Kim e seu ator favorito, Cho Jae-hyeon, a estupraram após convocá-la para um encontro num hotel para “discutir detalhes de um roteiro”.

O diretor ainda conseguiu exibir seu último filme, “Din” (2019), no Festival de Cannes, mas não houve interessados para lançá-lo comercialmente. Inconformado, ele tentou processar as atrizes denunciantes. Fracassou. As últimas notícias afirmavam que ele tinha entrado em depressão profunda e não tinha nenhum trabalho em desenvolvimento.

Filmes e prêmios

 

Na ativa desde 1996, Ki-Duk se tornou, durante as últimas décadas, um dos diretores mais reconhecidos e controversos da Coreia do Sul. O seu “A Ilha” (2000), que incluía cenas de violência reais contra animais, provocou frisson em Veneza quando espectadores desmaiaram e vomitaram durante sessões.

 

Em 2004, venceu tanto o Urso de Prata em Berlim (por “Samaritana”) quanto o Leão de Prata em Veneza (por “Casa Vazia”). Já em Cannes, ganhou prêmio na mostra Un Certain Regard com o documentário “Arirang” (2011).

 

O último trabalho de Ki-Duk foi “Din”, lançado em 2019, produzido parcialmente no Cazaquistão, após as acusações de assédio o transformarem em “persona non-grata” no circuito mainstream.

 

Acusações de abuso

 

No final de 2017, o diretor foi acusado de agressão e abuso sexual por uma atriz de um de seus filmes, que se manteve em anonimato durante o processo. Ela disse que Ki-Duk a atacou fisicamente no set e a obrigou a fazer cenas de nudez e sexo que não estavam no roteiro.

 

Após a primeira acusação, várias outras atrizes se apresentaram à imprensa contando histórias semelhantes. Por sua parte, o cineasta admitiu que dava tapas nos atores como “parte do processo” de preparação para seus filmes, mas negou as acusações de abuso sexual.

 

Kim Ki-Duk faleceu aos 59 anos por complicações da covid-19.

Ki-Duk estava internado em um hospital na Letônia após contrair o coronavírus. De acordo com autoridades locais, o cineasta coreano viajou até o país europeu com a intenção de estabelecer residência por lá.

Ele teria viajado para o país báltico com a intenção de comprar uma casa e obter uma autorização de residência. A notícia foi confirmada por Vitaly Mansky, o documentarista russo que mora na Letônia e dirige o ArtDocFest local, e o Ministério de Relações Exteriores da Coreia do Sul foi citado como tendo confirmado a morte do diretor em reportagens da mídia coreana.

(Fonte: https://www.uol.com.br/splash/noticias/2020/12/11 – SPLASH / NOTÍCIAS / FILMES / De Splash, em São Paulo – 11/12/2020)

(Fonte: https://www.terra.com.br/diversao/cinema – DIVERSÃO / CINEMA / por Pipoca Moderna – 11 DEZ 2020)

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