Se tornou a primeira mulher negra a dirigir um filme baseado numa história em quadrinhos

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Gina Prince-Bythewood é a primeira mulher negra a dirigir um filme de quadrinhos

Filme ‘The Old Guard’, sobre um grupo de mercenários imortais liderados por Charlize Theron, está disponível na Netflix

Segundo a sabedoria convencional, um thriller de ação violento e fantástico sobre um grupo de mercenários sobrenaturais não se presta a um filme dirigido com foco em pessoas. Mas quando o diretor é Gina Prince-Bythewood esse senso comum pode estar errado.
Gina lembra o que repercutiu mais profundamente nela no caso de The Old Guard, adaptado por Greg Rucka de um romance em quadrinhos que ele criou com Leandro Fernandez, sobre um grupo de mercenários imortais. (O filme está agora na Netflix). Gina foi imediatamente atraída para a relação entre a líder do grupo, Andy, apelido de Andrômaca, interpretada por Charlize Theron – e sua protegida, uma formidável fuzileira naval chamada Nile, interpretada por Kiki.
“Amo a normalidade do filme”, disse Gina durante uma recente entrevista pelo Zoom, observando que Andy e seu vínculo com Nile, baseado na rivalidade, respeito e amizade entre ambas, é muito real. “Reflete muito a maneira como cresci, me tornei uma atleta ao lado das mulheres no meu círculo. Como nós éramos. Mulheres atléticas e ambiciosas, não apenas agressivas, em busca do que desejávamos, e não havia nenhuma vergonha disso – exceto no mundo exterior que entendia haver alguma coisa errada com você por gostar disto”.
Grande parte dessa dinâmica inspirou o filme de estreia de Gina, em 2000, Além dos Limites. O filme, sobre jogadores adolescentes de basquete cuja amizade se transforma em romance, foi estrelado por Sanaa Lathan e Omar Epps, marcou a chegada de um novo talento promissor na figura de Gina Prince-Bythewood e se tornou um clássico da comédia romântica. Em 2008, ela fez a adaptação de A Vida Secreta das Abelhas. Mais recentemente dirigiu o delicioso drama romântico Nos Bastidores da Fama e com seu marido Reggie Rock Bythewood produziu a série da Fox Shots Fired.
Com The Old Guard, Gina se tornou a primeira mulher negra a dirigir um filme baseado numa história em quadrinhos, uma distinção que traz orgulho e uma descrença cansada de que isso possivelmente levaria muito tempo. (Ela faz parte de um grupo de mulheres na direção de espetáculos para o cinema este ano, grupo que inclui Cathy Yan, Chloe Zhao, Patty Jenkins, Cate Shortland e Nicki Caro).
Ter personagens coadjuvantes interpretados por um grupo diverso de atores (Matthias Schoenaerts, Marwan Kenzari, Luca Marinelli e Chiwetel Ejiofor) foi tão atraente para ela quanto a história de Andy e Nile. “Adoro o fato de que este é um grupo de combatentes de diversas culturas, origens, orientações sexuais e gêneros que se juntam organicamente para salvar a humanidade”, ela observou, acrescentando que quando leu pela primeira vez o roteiro de Rucka e começou a visualizar o filme, “estava vendo o mundo como eu vejo, um mundo que é diverso e diferente e não tem nada da mesmice que às vezes prepondera no que é lançado por Hollywood”.

Quando ele começou a trabalhar com o material, sua identidade como uma mulher afro-americana influiu em praticamente cada decisão que tomou. “As coisas que me influenciaram, que observei, corrigi, amplifiquei, decorreram de uma lente feminina negra”, disse ela.

Embora empolgada com o roteiro original de Rucka, Gina pediu a ele para detalhar mais a história pregressa de Nile, acrescentando elementos que tivessem a ver com sua família e experiência no Exército (onde, não por acaso, suas colegas são mulheres não brancas, muito similar à própria instituição). Mesmo as muitas cenas de luta no filme trazem a marca de uma pessoa com um ângulo diferente do usual olhar masculino branco. Uma cena em particular, com Andy e Nile num avião cargueiro, foi particularmente sensível para Gina.
“Não queria que alguém visse essa cena e dissesse: ‘É uma cena sexy de duas mulheres brigando”, sublinhou. “Eu queria ver duas mulheres duronas no corpo a corpo, mas também ver sua vulnerabilidade. Porque, para mim, atitude radical é isso, essa arrogância, essa força, mas também empatia e vulnerabilidade”.
Em muitos aspectos, The Old Guard se insere singularmente neste momento de ajuste de contas racial. Não só oferece uma distração escapista, arcaica, na era do coronavírus, mas parece o futuro do que a indústria cinematográfica percebe que tem de aceitar em decorrência das demandas revividas de inclusão e representação – na tela e por trás das câmeras.
Momentos como este já ocorreram antes, ela observa, mas desta vez é diferente. Por exemplo, ela já se lançou em dois projetos focados em mulheres negras “que não foram uma luta pela primeira vez em toda a minha carreira”.
Mas mesmo quando seu telefone começou a tocar depois dos protestos contra a brutalidade policial e a morte de George Floyd, os executivos brancos do outro lado da linha falavam de outra maneira. “As pessoas no poder que me ligaram se mostravam mais abertas, conversando, ouvindo, sem ficar na defensiva pela primeira vez. Meu marido e eu, com frequência, tentávamos falar com pessoas com as quais trabalhamos e elas ficavam na defensiva: ‘Bem, você sabe, estamos trabalhando no assunto’, ou ‘Eu sei, é um problema, mas não conseguimos encontrar alguém'”.
Desta vez, disse ela, “Nada disso ocorreu. Há uma espécie de cumplicidade e um real desejo de fazer melhor. Estou otimista quanto a isto. Minha única ressalva é que é preciso uma equidade de fato em todos os campos, mas com certeza em Hollywood, parte da sua acomodação tem de ser removida”. E quando as pessoas entenderem isto, elas de repente retornarão ao que é cômodo?”
Com frequência, o preconceito implícito se insere no próprio processo de desenvolvimento. No início deste ano, Gina escreveu um artigo para a revista Variety no qual relatou um episódio em que um revisor de roteiros, considerado um dos mais respeitados do setor, deu uma “polida” num filme em que ela estava trabalhando sobre uma poderosa heroína negra. Ele sistematicamente fragilizava a protagonista inserindo deixas como “ela treme” ou “ela se acovarda”, escreveu ela. “Foi chocante. Há um setor inteiro dentro da nossa indústria que tem a ver somente com revisão e automação. Temos de resolver isso, que dilui uma voz excepcional e original”.
Nos últimos anos uma nova geração de cineastas negros se lançou por conta própria, um grupo que inclui Ava DuVernay, Barry Jenkins, Steve McQueen, Dee ReesJustin Simien e Ryan Coogler. Embora Gina faça parte desse grupo, ela não é novata. Seu primeiro filme, Além dos Limites, foi um dos primeiros filmes da idade do ouro das comédias românticas negras que incluíram No Embalo do AmorUma Loucura chamada Amor e O Melhor Homem.

Em ambas as eras, o que pareceu um sólido avanço foi desmentido por números desencorajadores: ela aponta para as estatísticas de 2019 divulgadas pelo Writers Guild of America em que 80% de todos os roteiros de filmes foram escritos por roteiristas brancos.

“Os números são deprimentes. Mas um raio de esperança existe na diversidade das histórias que vêm sendo contadas. Existem muitos cineastas interessantes que estão tendo a oportunidade de fazer filmes distintos e diferentes. Não temos de nos fixar apenas em comédias românticas ou filmes de gângster. É nisso que venho insistindo o tempo inteiro. Vamos mostrar o alcance da nossa humanidade de modo que você veja através do nosso prisma e não a partir de uma ótica que não é autêntica e nem fidedigna”.
(Fonte: https://www.terra.com.br/diversao/cinema – DIVERSÃO / CINEMA / Estadão conteúdo / Por Ann Hornaday – Tradução de Terezinha Martino – 14 JUL 2020)
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