Eduardo de Almeida, foi arquiteto e urbanista, destacado professor da USP e autor de mais de 240 projetos, tornou-se um dos primeiros arquitetos brasileiros a empregar, com beleza e rigor, a estrutura metálica em residências

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Arquiteto e urbanista Eduardo de Almeida

Referência da arquitetura brasileira, Eduardo de Almeida construiu uma trajetória marcada pelo rigor, pela docência e pela inovação construtiva

O arquiteto e urbanista Eduardo de Almeida (1933-2026). Crédito: Lalo de Almeida

 

 

Eduardo Luiz Paulo Riesencampf de Almeida (nasceu em 24 de outubro de 1933 em São Paulo – faleceu em 12 de junho de 2026, em São Paulo), arquiteto e urbanista, destacado professor da USP e autor de mais de 240 projetos, a exemplo da Biblioteca Brasiliana na capital paulista.

Referência incontornável para gerações de profissionais e estudantes, construiu uma trajetória de mais de seis décadas entre o exercício do projeto e a formação acadêmica na FAU-USP.

Trilhando caminho próprio, livre dos ditames do movimento moderno e da Escola Paulista, o arquiteto se consagrou ao projetar escolas públicas, indústrias, hospitais e edifícios, em mais de 50 anos de atuação profissional.

Grande parte de sua obra, porém, concentra-se nas residências, algumas delas notáveis, pioneiras pelo uso de estrutura metálica.

Almeida graduou-se pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP em 1960 e fez Doutorado pela mesma instituição, exercendo o magistério na FAUUSP entre 1967 e 1998.

Foi influenciado por Frank Lloyd Wright (1867-1959) e Ludwig Mies van der Rohe (1886-1969), além da “Escola Paulista de Arquitetura”, de Vilanova Artigas (1915-1985). Em 1987, abriu o escritório Eduardo de Almeida Arquitetos Associados, em São Paulo, tendo como sócio o arquiteto e urbanista Arnaldo Martino.

A extensa produção projetual de Almeida abrange residências, sedes de fazendas, edifícios residenciais, escolas e ginásios, hospitais, edifícios comerciais e de escritórios, obras institucionais e instalações industriais.

Entre seus projetos de maior projeção, figuram, para citar somente alguns, o Conjunto Residencial Gemini (1966), na capital paulista; a Fazenda Água Comprida (1988), em Uberaba (MG); e a Sede SAP Labs Brazil (2007), em São Leopoldo (RS).

Foi premiado diversas vezes. Em 1999 e 2003, nas Bienais de Arquitetura de São Paulo, e pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), que reconheceu seu trabalho na categoria “Melhor Obra” em 2013, pela Biblioteca Brasiliana, em parceria com Rodrigo Loeb, e novamente em 2022, pelo conjunto de sua obra.

Vários críticos se debruçaram sobre os mais de 50 anos de trajetória profissional, a exemplo das obras “Eduardo de Almeida” (Romano Guerra Editora, 2006), por Abílio Guerra (org.), e “Eduardo de Almeida: Arquiteto”, de Alessandra Figueiredo, Cesar Shundi Iwamizu e Helena Ayoub Silva (Editora BEI, 2023).

 

Nascido em outubro de 1933 na cidade de São Paulo e formado pela FAU-USP em 1960, Eduardo Luiz Paulo Riesenkampf de Almeida manifestou muito cedo o gosto pelas as artes e o pendor para a arquitetura. Se, na faculdade, identificou-se com a influência de Frank Lloyd Wright – em oposição à orientação corbusiana, abraçada por outros colegas –, já havia percebido a força do legado familiar no percurso que estava prestes a trilhar (seu tio era o poeta Guilherme de Almeida, um dos organizadores da Semana de Arte Moderna de 1922 e fundador da revista Klaxon). Da herança paterna também levou os relatos feitos por Tácito de Almeida sobre a convivência com Oswald de Andrade, Mário de Andrade e outros integrantes do grupo vanguardista.

Ainda no antigo palacete que sediava a FAU-USP, Eduardo de Almeida conheceu Ludovico Martino, com quem abriu em 1958 o escritório Horizonte Arquitetura, integrado ainda por Arthur Fajardo Netto, Dácio Ottoni e Henrique Pait.

Pouco depois de se graduar, em 1962, obteve uma bolsa de estudos e partiu para cursar design e história da arte em Florença, na Itália. Embora esse não fosse o mote inicial, a experiência lhe proporcionou contato com outra visão de mundo e de cidade (as discussões eram acaloradas na época, animadas pela inauguração de Brasília e pelo projeto de Kenzo Tange para a baía de Tóquio), o que o ajudou a compreender o projeto do ponto de vista urbano.

Na volta, em 1967, Almeida recebeu o convite para dar aulas na mesma instituição pela qual se formou, tornando-se professor da disciplina de desenho industrial. Em 1972, voltou-se ao ensino de projeto de edificações. Posteriormente, fez seu próprio mestrado, doutorado, passando os 25 anos seguintes na pós-graduação, chegando a orientar dezenas de dissertações e teses. Desde 2000, estava aposentado na carreira acadêmica, restringindo-se a palestras ocasionais proferidas em universidades brasileiras.

Tempos depois de regressar da Itália, foi chamado para organizar e acompanhar os projetos de Sergio Bernardes – muito atarefado na ocasião – a partir de seu escritório em São Paulo. Aprendeu com o carioca a respeito de construção, do detalhamento do projeto e do emprego de materiais pouco utilizados no período, sobretudo a madeira e o metal (predominava o concreto). Ato contínuo, tornou-se um dos primeiros arquitetos brasileiros a empregar, com beleza e rigor, a estrutura metálica em residências – traço definidor de sua obra, claramente perceptível em seu legado.

Nos anos 1980, as rampas do novo edifício da FAU viram surgir o contato com Vilanova Artigas – a quem admirava, assim como à Escola Paulista de arquitetura, apesar de preferir um posicionamento mais moderado ideologicamente. Credita-se à troca de ideias com o artífice do brutalismo, por exemplo, o fato de Eduardo de Almeida seguir empregando o concreto, a despeito do sucesso com o aço. Outra referência importante foi Carlos Millan (1927 – 1964), cujas casas descritas como “exemplares” por Almeida. Entre estrangeiros e conterrâneos, despontavam ainda Paulo Mendes da Rocha, Oscar Niemeyer e Mies Mies van der Rohe – os dois últimos apreciados pela relação estreita entre arquitetura e construção e o foco no detalhamento.

A sociedade no escritório com Arnaldo Martino durou de 1977 a 1986 e desenhou na capital paulista uma série de projetos ousados, feitos com estruturas metálicas. Com o fim da parceria, Eduardo de Almeida prosseguiu individualmente, juntando-se ocasionalmente a arquitetos proeminentes de gerações mais jovens para trabalhos pontuais. Dessa lavra, saíram nomes como César Shundi Iwamizu e Rodrigo Mindlin Loeb.

Ainda que as residências tenham sido o segmento mais relevante na produção de Eduardo de Almeida, edificações de outros tipos também apresentam importância. É o caso dos edifícios Gemini, de 1970, pensados como um modelo racional e modular, fácil de ser replicado. Entre as indústrias, figura a sede da SAP Labs Brazil, em São Leopoldo, RS. Seguiram-se a esses feitos a vitória do concurso para o novo campus da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e o conjunto de bibliotecas da Brasiliana USP, que compreende a Biblioteca Mindlin e o IEB, também no campus da Universidade de São Paulo.

Estimado pelos seus pares e dono de uma produção prolífica, Eduardo de Almeida recebeu prêmios e homenagens pelo conjunto de sua obra – destaque para as residências –, conferidas pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) e pela Bienal Internacional de arquitetura (BIA), além de outros oferecidos por empresas e marcas do setor construtivo.

Principais projetos

Residência Jose L. Niemeyer dos Santos (1970)

Eduardo de Almeida

Residência Jose L. Niemeyer dos Santos (1970)

 

A proposta para a casa em São Paula previa organizá-la em blocos para as diferentes funções – justapostos de modo a assegurar a continuidade entre os espaços. Feita com estrutura de concreto, blocos do mesmo material e lajes pré-fabricadas, sempre aparentes, remete à austeridade encontrada nos trabalhos de Carlos Millan, de quem Almeida era um admirador.

Edifício Gemini (1970)

Edifício Gemini (1970) — Foto: Andre Scarpa

 

A construtora propôs ao arquiteto, na época também professor de desenho industrial, o projeto de uma habitação multifamiliar de baixo custo e rápida construção – e que pudesse ser replicado em outros lotes. Surgia então o Gemini, um edifício modular com estrutura de concreto moldada in loco e elementos industrializados.

 

 

Casa Oppenheim (1983)

Eduardo de Almeida
Casa Oppenheim (1983) — Foto: Divulgação

Seguindo a investigação do uso de estrutura metálica associada a planos de alvenaria de tijolo à vista, a casa projetada junto com Arnaldo Martino dispôs de pátio central e pé-direito elevado no living. Pouco usual na época, a área de serviços fica sobre a garagem, no andar superior, o mesmo dos quartos. Outras boas inovações são os perfis metálicos delicados e painéis wall na fachada e nos demais fechamentos.

Casa de Dois Blocos (1993)

Eduardo de Almeida

Dois volumes interligados no centro pela escada metálica definem a residência, dotada de piscina em forma de raia. Vale notar o tratamento diferente das coberturas, uma plana e a outra com duas águas.

Restaurante Madelleine (2004)

 

Eduardo de Almeida

Restaurante Madelleine (2004) — Foto: Divulgação

 

 

O terreno estreito abriga o edifício com garagem, restaurante com mezanino e escritório para locação, dispostos em quatro pavimentos. Incomum na obra de Eduardo de Almeida, o volume curvo avermelhado – que organiza os acessos e acomoda ambientes de apoio – marca presença na fachada de concreto armado e quebra o rigor dominante. O aço comparece na estrutura do corpo principal, com pilares redondos e vigas I.

 

Casa no Butantã (2002)

Eduardo de Almeida

Casa no Butantã (2002) — Foto: Divulgação

 

 

A fachada dos fundos revela a implantação elevada e as grandes aberturas que marcam a residência, quase um pavilhão, feita para um dos filhos do arquiteto. A fim de contemplar o programa de necessidades no terreno, adotou-se a solução em um único bloco, no qual ressalta a simetria, erguido com aço e fechado com alvenaria de tijolo aparente, vidro em caixilhos e venezianas móveis.

Sede da fazenda em Água Comprida (1997)

Eduardo de Almeida
Sede da fazenda em Água Comprida (1997) — Foto: Divulgação

Localizada em Minas Gerais, a propriedade de mil hectares ganhou sede, casa do administrador, habitações dos funcionários, escritório e galpões. O maior desafio foi criar uma escala intermediária entre os amplos espaços da fazenda e as construções. Daí os pátios internos da sede, as grandes varandas e as vastas áreas ajardinadas em contraponto ao entorno distante. ‎

 

 

SAP Labs Brazil (2011)

Eduardo de Almeida
SAP Labs Brazil (2011) — Foto: Divulgação

 

 

Localizada no Parque Tecnológico Tecnosinos, em São Leopoldo (RS), o centro de pesquisas em tecnologia de informação (voltado para o desenvolvimento de softwares empresariais) ganhou este edifício cujo projeto foi escolhido em concorrência fechada, assinado por Eduardo de Almeida e César Shundi Iwamizu. A dupla teve de viabilizar os cerca de 10 mil m² de área (concebido originalmente com armação metálica) com concreto armado, mas manteve a premissa: dois blocos paralelos mediados por um pátio ajardinado. As lajes da edificação antiga, à qual esta se somou, conectam-se às novas por passarelas de aço, evidenciando as fases distintas da construção (certificada com o selo Leed Gold).

 

Biblioteca Brasiliana (2006-2013)

 

 

Eduardo de Almeida

Biblioteca Brasiliana (2006-2013) — Foto: Nelson Kon

 

Eduardo de Almeida e Rodrigo Mindlin Loeb assinam o projeto da Biblioteca Brasiliana, edifício, com mais de 20 mil m² que abrig o acervo de 17 mil títulos e 40 mil volumes doado pelo bibliófilo José Mindlin à Universidade de São Paulo. O complexo (que também abriga o acervo do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) e inclui com livrariacafeteria, sala de exposições e auditório para 300 pessoas) apresenta vários recursos sustentáveis, compatíveis com a preservação dos livros. A luz natural entra pela cobertura com lanternim, a chapa perfurada nas fachadas protege o papel dos raios UV. Foi prevista a geração de energia fotovoltaica a partir do topo do edifício.

Eduardo de Almeida morreu no domingo (12), aos 92 anos, em São Paulo.

(Direitos autorais reservados: https://casavogue.globo.com/arquitetura/gente/noticia/2026/04 — Casa Vogue/ ARQUITETURA/ GENTE/ NOTÍCIA/ Por Joana Baracuhy* — 13/04/2026)

(Direitos autorais reservados: https://causp.gov.br — Conselho de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo – CAU/SP/ NOTÍCIAS/ Escrito por: Redação CAU/SP — 13.04.2026)

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