Juliette Gréco, grande estrela da música francesa, célebre intérprete de obras de Léo Ferré e Jacques Prévert

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Juliette Gréco, estrela da música francesa

 

Juliette Gréco (1927 – 2020), musa do existencialismo. (Foto: Divulgação/The Intense Music / Pipoca Moderna)

 

A musa existencialista francesa

 

Juliette Gréco (Montpellier, no sul da França, 7 de fevereiro de 1927 – Ramatuelle (sudeste de França), 23 de setembro de 2020), grande estrela da música francesa, célebre intérprete de obras de Léo Ferré e Jacques Prévert.

A cantora e atriz francesa, musa do existencialismo, foi símbolo de resistência, mas também ícone da moda, uma artista que simbolizou o “radical chique” da boemia parisiense. Foi grande amiga do casal formado pelo filósofo Jean-Paul Sartre e a escritora feminista Simone de Beauvoir, e também amante da lenda do jazz Miles Davis e do poderoso produtor de Hollywood Darryl F. Zanuck.

Sua rebelião começou na adolescência e lhe rendeu prisão, com apenas 16 anos, pela Gestapo, a polícia nazista, durante a ocupação alemã da França. Ela tomou o lugar da mãe e da irmã mais velha na Resistência Francesa, após as duas serem enviadas a um campo de concentração, e lutou pela libertação de seu país. Presa, só foi poupada dos campos de concentração e da deportação para a Alemanha por causa de sua idade. Mas suas experiências de guerra selaram uma aliança vitalícia com as causas da esquerda política.

Após a guerra, ela virou cantora e passou a se apresentar nos chamados cafés existencialistas da época. Seus shows e presença marcante na noite parisiense foram imortalizados por alguns dos fotógrafos mais famosos de todos os tempos, como Robert Doisneau e Henri Cartier-Bresson, que transformaram seu look entristecido, sempre de roupas pretas, em modelo para a juventude beatnik. Ela também foi uma das primeiras mulheres a usar camisetas no dia-a-dia, numa época em que o visual era identificado como masculino.

Juntava-se a isso um voz sombria, que a tornava a intérprete perfeita das canções de “fossa” compostas por Jacques Prévert (“Je Suis Comme Je Suis”, “Les Feuiles Mortes”), Jacques Brel (“Ça va la Diable”), Leo Ferré (“La Rue”) e, nos anos 1960, Serge Gainsbourg (“La Javanaise”). Mas até Jean-Paul Sartre e o escritor Albert Camus escreveram letras para ela cantar.

Ícone francês, amiga de poetas e músicos, encarnou como poucos artistas o espírito do bairro artístico parisiense de Saint-Germain-des-Prés.”Ela personificava a elegância e a liberdade (…) Seu rosto e sua voz continuarão a acompanhar nossas vidas”, escreveu o presidente francês, Emmnauel Macron.

Juliette Gréco nasceu em 7 de fevereiro de 1927 em Montpellier, no sul da França. Após a separação dos seus pais, cresceu com sua irmã Charlotte próximo a Burdeos (sudoeste do país) na casa dos seus avós.

Sua infância foi melancólica e ela encontrou na dança o seu refúgio. A guerra obrigou a família a fugir para uma propriedade no Périgord, que serviu de lugar passagem para a resistência aos invasores alemães.

Em 1943, sua mãe e sua irmã foram deportadas e ela própria foi presa na França por uma dezena de dias. Gréco contou essa parte da sua vida na autobiografia publicada em 1983, “Jujuba”.

“Escrever ‘Jujuba’ foi muito cruel para mim, muito violento. Eu gostava de escrever, mas não gostava de voltar o filme. Não queria que outra pessoa fizesse isso, eu escrevi, não tinha dúvidas.” – Juliette Gréco

No final da guerra, com menos de 20 anos, seu ar rebelde, sua beleza e seus looks seduziram intelectuais e artistas de Saint-Germain-des-Prés em Paris, frequentado com Marguerite Duras, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir e com noites animadas no mítico “Le Tabou”.

Raymond Queneau e Sartre assinam seus primeiros sucessos como cantora, “Si tu t’imagines …” e “La Rue des Blancs-Manteaux”. Com o tempo, ampliou seu repertório com Jacques Prévert, Boris Vian e Charles Aznavour.

Em 1952, ela veio pela primeira vez ao Brasil, apresentando-se no Rio de Janeiro, numa turnê que deveria durar 15 dias. Mas ela se apaixonou pelo país e não queria mais ir embora. Ficou meses e chegou a considerar o casamento com um amante brasileiro.

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Sua carreira, porém, só decolou para valer dois depois, quando foi convidada a se apresentar na sala de concertos Olympia de Paris – então o templo da música popular francesa.

A “menina bonita” se apresentou no Olympia, templo da música francesa, pela primeira vez em 1954, e se consagrou. Na década de 1960 a francesa interpreta os maiores nomes da época como Serge Gainsbourg, Léo Ferré, Jacques Brel e Georges Brassens.

Paralelamente, Gréco também se lançou como atriz, convidada pelos amigos cineastas e intelectuais para pequenos papéis, como em “Orfeu” (1950), de Jean Cocteau, e “Estranhas Coisas de Paris” (1956), de Jean Renoir, entre muitos outros filmes. Até que a indústria cinematográfica francesa passou a vê-la como protagonista, escalando-a como estrela de filmes como “Quando Leres Esta Carta” (1953) e “Rapto de Mulheres” (1956).

Também atuou em “Bonjour tristesse” (1958), dirigido por Otto Preminger. Atuou na novela “Belphégor”, que a fez ter sucesso na telinha, em 1965.

Logo, ela começou a ser cortejada por Hollywood. Ou, mais especificamente, cortejada por Darryl F. Zanuck, o chefão da 20th Century Fox, que a importou para o filme “E Agora Brilha o Sol” (1957), de Henry King, superprodução com um dos elencos mais grandiosos da época – Tyrone Power, Ava Gardner, Errol Flynn, Mel Ferrer, etc.

Juliette Gréco acabou promovida a protagonista de Hollywood em seu filme seguinte, “Raízes do Céu” (1958). Ela aparecia seminua no pôster, envolta numa toalha e com Errol Flynn, o grande machão do cinema americano, prostrado a seus pés. Zanuck apostava em consagrá-la, mas o filme enfrentou um grande problema de bastidores. Rodado na África equatorial, ficou mais conhecido pelas bebedeiras de Errol Flynn, pelo surto de malária que afligiu o elenco e pela ausências do diretor John Huston, que preferia caçar a seguir cronograma de filmagens.

Foi um desastre e a produção teve que ser finalizada num estúdio em Paris, com a maioria dos atores febris. Para completar, Zanuck ainda decidiu realizar sua montagem em Londres, para ficar próximo de Gréco, enquanto ela fazia sua estreia no cinema britânico, no thriller “Redemoinho de Paixões” (1959).

O próprio Zanuck escreveu o filme seguinte de sua musa, a adaptação de “Tragédia num Espelho” (1960), em que ela foi dirigida por Richard Fleischer e contracenou com Orson Welles. Fleischer também a comandou em “A Grande Cartada” (1961), mas sua carreira hollywoodiana não foi o sucesso esperado.

Contratada como atriz, ninguém esperava que ela cantasse em seus filmes, e isso pode ter lhe frustrado. Não por acaso, o maior clássico de cinema de sua carreira foi uma produção em que interpretou a si mesma, cantando em inglês a música-título de “Bom Dia, Tristeza”, numa pequena cena do famoso filme estrelado por Jean Seberg em 1958.

Ela acabou voltando para a França, onde estrelou mais alguns filmes. Mas foi uma minissérie francesa que lhe deu seu maior reconhecimento como atriz: “Belphegor – O Fantasma do Louvre”, um mistério sobrenatural de 1965 sobre um fantasma que assombrava o museu do Louvre.

Gréco ainda atuou na superprodução “A Noite dos Generais” (1968), um suspense passado durante a 2ª Guerra Mundial e estrelado por Peter O’Toole e Omar Sharif, e na comédia “Le Far-West” (1973), escrita, dirigida e protagonizada por seu colega cantor Jacques Brel, antes de se afastar do cinema por um quarto de século.

Sua carreira nas telas só foi retomada em 2001 por conta de uma homenagem, ao ser convidada a figurar rapidamente numa nova versão de sua célebre minissérie, lançada no cinema com o título de “O Fantasma do Louvre” e com Sophie Marceau em seu papel original. Depois disso, ela ainda estrelou um último filme, o alemão “Jedermanns Fest”, ao lado de Klaus Maria Brandauer no ano seguinte.

No período em que se afastou das telas, a artista priorizou a música. Em 1981 foi praticamente expulsa do Chile, então sob a ditadura de Augusto Pinochet, por cantar canções censuradas pelo regime militar.

Apesar de muitos amantes conhecidos, entre homens e até mulheres famosas, ela também foi uma esposa dedicada. Casou-se três vezes: brevemente em 1953 com o ator Philippe Lemaire, com quem teve uma filha (Laurence-Marie, falecida em 2016), depois, com o famoso ator Michel Piccoli entre 1966 e 1977 e, por fim, vivia desde 1988 com o pianista e compositor Gérard Jouannest, que co-escreveu algumas das melhores canções de Jacques Brel, incluindo “Ne Me Quitte Pas”.

Juliette Gréco sobreviveu ao tempo e à moda. Em 2015 fez uma grande turnê de despedida, na qual comemorou seus 89 anos no palco do Théâtre de la Ville, onde teve grande sucesso em 1968, com “Deshabillez-moi”.

Juliette Gréco faleceu em 23 de setembro de 2020 aos 93 anos, em sua casa em Ramatuelle (sudeste de França).

(Fonte: https://www.terra.com.br/diversao/cinema – DIVERSÃO / CINEMA / por Pipoca Moderna – 23 SET 2020)

(Fonte: https://www.uol.com.br/splash/noticias/2020/09/23 – MÚSICA / Colaboração para o Splash, em São Paulo – 23/09/2020)

*Com informações da AFP 

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