Criadora da primeira delegacia de investigação de feminicídios do Brasil

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A criadora da primeira delegacia do Brasil especializada em investigar feminicídios

 

Eugênia Villa, que atua no Piauí, foi também a primeira mulher a ocupar o cargo de corregedora no estado. Ela criou um aplicativo pelo qual mulheres pedem socorro à polícia acionando um ‘botão de pânico’

 

 

— O confisco da fala era algo presente no dia a dia das delegacias, pois o ambiente policial quer se reduzir à catalogação jurídica. Mas a violência extravasa esse cardápio de leis. Se a mulher diz que sofre de depressão, isso pode ser violência psíquica, mas não está tipificada no código penal. Então, não era ouvida. Uma mulher dizer que tem problemas de saúde ginecológica porque o parceiro a obriga a fazer sexo, é estupro marital. Quando falamos de violência, ela é ampla e complexa. Quando falamos de crime, o crime reduz a violência. Quando eu encaixoto ou emolduro, estou silenciando o discurso da mulher — explica Eugênia.

 

 

A partir do diagnóstico, Eugênia resolveu criar o aplicativo “Salve Maria” e ampliou o atendimento do plantão policial de gênero, que passou a funcionar 24 horas por dia, inclusive nos finais de semana e feriados. Assim, as mulheres podem pedir socorro a qualquer momento.

 

 

app já foi baixado 26 mil vezes e através dele foram feitas perto de 1 mil denúncias, a maior parte diz respeito à violência física. Todas elas são encaminhadas à polícia civil para investigação. O botão “pânico” foi acionado 264 vezes. Nesses casos, a polícia militar envia imediatamente uma viatura até o local, identificado por meio do dispositivo de geolocalização.

Junto com a delegacia especial foi criado o Núcleo de Estudo e Pesquisa de Violência de Gênero, que elaborou metodologias e protocolos específicos de investigação de feminicídio. O agressor, por exemplo, deve ser ouvido sempre por um homem, para que se sinta à vontade ao falar sobre a vítima.

 

 

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— Esse tipo de crime tem uma linguagem própria, que tem a ver com a personalidade da vítima e do autor. É preciso entender o vocabulário do feminicídio para identificá-lo. Objetos ganham outro significado na cena do crime, pois geralmente o assassino demonstra cabalmente porque ele matou aquela mulher, dá sinais de controle e que a menosprezava. Já no depoimento, é comum o autor desqualificar a vítima para justificar seu crime. Ele só vai fazer isso se for ouvido por um homem — conta.

Ela recebeu pedaço de orelha de vítima

Eugênia entrou para a polícia em 2002, quatro anos antes da Lei Maria da Penha ser criada. À época, a delegacia da mulher não investigava se a causa da morte das mulheres vítimas de homicídio tinha relação com o gênero. Pelas mãos de Eugênia passavam todos os inquéritos de assassinatos cometidos no Estado.

Um dia, ela recebeu de um escrivão um vidro transparente com um pedaço de orelha humana em seu interior. Foi seu interesse pelo caso que a levou a questionar a competência da delegacia da mulher e a se familiarizar com as questões de gênero.

— Eu descobri que aquele pedaço de orelha era de uma mulher que se sentia merecedora daquele “castigo”, por ter se relacionado com outro homem estando casada. O seu marido, ao descobrir, a levou até o banheiro e, com uma faca, fez o corte. A vizinha viu ela sangrando e chamou a polícia. No depoimento, a vítima contou que se achava merecedora daquilo por ter cometido a traição. Eu pensei: Como assim ela se sentir culpada? Aquilo serviu como um disparo para mim — diz Eugênia.

 

 

O aplicativo já foi adotado por outros dois estados: Maranhão e Acre. Eugênia diz que, iniciativas como a dela, só se tornam eficazes se houver parceria entre as administrações municipais e estaduais e, a exemplo do Piauí, virarem política de estado, para que perdurem independentemente de quem está no poder.

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