A primeira mulher que ousou pintar nos anos do Barroco

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Agonia e êxtase de uma pintora

A primeira mulher que ousou pintar nos anos do Barroco

No quadro A Penitente Madalena, de 1625, a pintora exibe o sofrimento da mulher marginalizada. (Foto: Pinterest/Reprodução)

No quadro A Penitente Madalena, de 1625, a pintora exibe o sofrimento da mulher marginalizada. (Foto: Pinterest/Reprodução)

 

VIOLADA E PROIBIDA DE ENTRAR NA ACADEMIA DE ARTES, ARTEMISIA VINGOU-SE DOS HOMENS NAS TELAS

Artemisia Gentileschi (Roma, 8 de julho de 1593 – Nápoles, 1656), virou símbolo do sofrimento da mulher no século XVII, manteve o destino cruel de ter seu nome artístico eternamente ligado ao do pai e ao de seu violador.

Depois de estuprada por seu professor, vingou-se numa obra violenta contra os homens

Filha de pintor Orazio Gentileschi (1563-1639), a pintora nasceu em Roma, no  ano de 1593, e morreu em data tão ignorada quanto suas obras. Ficou marcada como mulher quando, após ter sido violentada por seu professor de arte Agostino Tassi (1578-1644), aos 17 anos, o estupro foi levado aos tribunais por seu pai, amigo do estuprador.

Proibida de ingressar no mundo masculino da Academia de Artes nos primeiros anos de 1600, Artemisia dedicou-se aos estudos de anatomia. Impedida de pintar nus, logo se cansou das naturezas mortas e dos retratos. Ao observar um casal fazendo sexo numa praia, aproveitou a cena e pintou um grupo de Velhos Mestres numa orgia com suas voluptuosas modelos. Uma de suas telas é Judite Assassinando Holofernes, na qual se vê a figura mitológica de Judite enterrando uma espada na garganta de Holofernes.

 

A.Gentileschi

Judite Assassinando Holofernes, na qual se vê a figura mitológica de Judite enterrando uma espada na garganta de Holofernes (Foto: A.Gentileschi/Reprodução)

 

Para que a filha pudesse desenvolver os dotes artísticos, Orazio pediu a um de seus amigos, Agostino Tassi, que lhe desse aulas. O professor a iniciou não apenas nas artes da pintura, mas também do sexo. Um ano depois, Tassi era levado aos tribunais por Orazio, com quem costumava pintar afrescos angélicos. Humilhada e torturada durante o processo, Artemisia preferiu a postura de rebelde à de vítima.

Vivendo numa época em que, para se dedicar à arte, a mulher tinha de enfrentar inúmeros obstáculos, Artemisia não por acaso se inspirou em Caravaggio, considerado a ovelha negra do Barroco. Ele reinventou o estilo, retratando figuras inflamadas, de um naturalismo quase grotesco, a ponto de seus santos terem pés sujos e seus anjos olhar de bandidos.

Herdou do ilustre pintor a arte de retratar figuras bíblicas e mitológicas como se fossem seres vivos. As heroínas de seus quadros aparecem quase sempre em luta, brandindo uma espada ou serrando tranquilamente a cabeça de um inimigo homem. Se para os críticos denunciam a falta de treino acadêmico, a musculatura e a presença de mulheres dão um acentuado aspecto moderno.

A julgar pelas cartas que deixou, Artemisia surge como uma personalidade cheia de calor humano, obcecada por sua arte. Em 1612, um mês depois do processo de estupro, casou-se com um homem rico de Florença, do qual teve uma filha. O casamento durou pouco e ela terminou a vida em Nápoles, mantendo conexões de negócios com príncipes da Europa para continuar trabalhando.

Na biografia do pai, ocupou apenas uma frase no final do livro. O mesmo pai que levou seu estupro aos tribunais, embora só depois de um ano. Para alguns, seria uma indicação de que a artista continuou mantendo laços de amor com seu violador. Para outros, Orazio só processou Tassi por se sentir traído pelo amigo, não para salvar a honra de sua infeliz filha.

Acredita-se que tenha morrido com 59 ou 60 anos, em data tão ignorada quanto suas obras.

 

Em filme teve o mérito de reviver o drama

Artemisia (1997) - (Foto: PrettyFamous)

Artemisia (1997) – (Foto: PrettyFamous)

 

O pai Orazio Gentileschi foi interpretado no filme pelo grande ator Michel Serrault, a pintora Artemisia foi representada por Valentina Cervi, ela enfrenta Agostino Tassi, na pele do ator Miki Manojlovic, levado aos tribunais sob acusação de estupro. Artemisia, que, como artista continuou estigmatizada, mantendo o destino cruel de ter seu nome artístico eternamente ligado ao do pai e ao de seu violador. Embora no filme ele se mostre apaixonado, não cedeu aos apelos da jovem para que se casassem.

(Fonte: Revista Manchete, 6 de junho de 1998 – Nº 2.409 – ARTE/ Por Vera Gertel – Pág: 74/76)

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