Leôncio Martins Rodrigues, foi referência no estudo do trabalho e do sindicalismo brasileiro, um dos primeiros estudiosos da sociologia industrial

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Leôncio Martins Rodrigues, era referência na sociologia do trabalho

 

Professor da USP e da Unicamp, sociólogo deixou obra sobre relações de trabalho na indústria, movimento sindical e partidos

 

Leôncio foi professor titular do Departamento de Ciência Política da Unicamp e publicou diversas obras sobre política e sindicalismo

 

 

Leôncio Martins Rodrigues Netto (São Paulo em 1934 – 3 de maio de 2021), sociólogo e cientista político, foi referência no estudo do trabalho e do sindicalismo brasileiro.

 

Um dos pioneiros da sociologia do trabalho no país, o sociólogo e cientista político Leôncio foi professor titular do Departamento de Ciência Política da Unicamp e publicou diversas obras sobre política e sindicalismo.

 

Leôncio fez parte de uma geração de pioneiros no estudo da sociologia do trabalho no Brasil. Numa segunda etapa de sua carreira acadêmica, dedicou-se à ciência política. Nas duas áreas, trabalhou com apoio no conhecimento empírico adquirido na militância em que se iniciou ainda na juventude. Considerava a experiência prática “valiosa para a atividade do sociólogo e do cientista político. (…) Partidos de esquerda são uma espécie de escola onde se aprende determinadas matérias, onde se adquire uma experiência de vida e se forma uma rede de relacionamento que pode ser útil profissionalmente.” [1]

 

Em 1950, então com 16 anos, aproximou-se do diretório municipal do Partido Socialista Brasileiro (PSB), em São Paulo, por influência de um tio, que pertencia aos quadros do partido. Foi atraído por um grupo de tendência trotskista, que vivia na clandestinidade, atuando dentro do PSB, o autodenominado Partido Socialista Revolucionário (PSR), ao qual se filiou no ano seguinte.

 

Deixou a militância no segundo semestre de 1956, desencantado com o trotskismo, “que não era muito diferente do stalinismo”. Queria voltar a estudar. Tinha “descoberto” as ciências sociais por influência de Ruth Cardoso, que havia sido sua professora de história no Colégio Fernando Dias Paes, no bairro de Pinheiros, em São Paulo. Reencontrou-a como técnica num serviço de pesquisas sobre mão de obra da Secretaria do Trabalho do Estado, onde era funcionário. “Ela me falou sobre o curso de ciências sociais. Era exatamente o que eu queria estudar.” [2]

 

Como tinha abandonado os estudos para se dedicar à militância política, teve que fazer mais dois anos de colegial antes de prestar vestibular. Por isso, atrasou-se em quase seis anos em relação à idade de entrada habitual na universidade. Matriculou-se em 1958 na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (USP) e concluiu o bacharelado e a licenciatura em 1962, aos 29 anos.

 

Ele foi professor de sociologia e ciência política na Universidade de São Paulo (USP) e na Universidade de Campinas (Unicamp), e deixou uma extensa obra acadêmica sobre relações de trabalho na indústria, o papel do movimento sindical na política e a formação de partidos.

 

Martins Rodrigues nasceu em São Paulo em 1934, e se formou em ciências sociais aos 28 anos Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. Foi um dos primeiros estudiosos da sociologia industrial, já em sua dissertação de mestrado, em 1964.

 

Para o mestrado, que concluiu em 1964, apresentou tese em que analisava a ocorrência de greves na indústria de São Paulo, usando dados de estudo sobre a estrutura da empresa industrial em São Paulo, ilustrada por uma amostra de 300 empresas. Havia feito esse trabalho com outros quatro pesquisadores recém-contratados pelo Centro de Sociologia Industrial e do Trabalho, ligado à cadeira de sociologia da faculdade (o Cesit foi criado por Fernando Henrique Cardoso, que se tornou seu diretor).

 

Com a orientação do sociólogo Florestan Fernandes, defendeu em 1967 o doutorado “Atitudes Operárias na Indústria Automobilística”. Dois anos depois, participou da fundação do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

 

Quando era aluno de colegial, ele conheceu Ruth e Fernando Henrique Cardoso, que à época eram professores do Colégio Estadual Fernão Dias Paes enquanto faziam a graduação na USP. Tornariam-se colegas na vida acadêmica. Com FHC, Martins Rodrigues traduziria o livro O Espírito das Leis, de Montesquieu, anos mais tarde.

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“Eu me lembro que a Ruth me falava para eu ler o Gilberto Freyre, autores que eu gostava. Eu gostava muito daquilo, mas logo larguei tudo e fui fazer militância”, disse o professor em outubro de 2008, em entrevista ao Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Cpdoc). Quando decidiu abandonar a militância política e construir uma carreira na academia, a opção pelas ciências sociais também passou por uma conversa com Ruth, sua ex-professora.

Na USP desde a década de 1960, ele migrou lentamente da sociologia do trabalho para a ciência política. Martins Rodrigues foi contratado pela Unicamp em 1985, no programa de pós-graduação em ciência política. Do sindicalismo, migrou para a pesquisa sobre os partidos políticos, seus métodos de recrutamento e as origens sociais de seus dirigentes.

 

É de 2008 um de seus mais importantes livros, Mudanças na Classe Política Brasileira, na qual investiga como o Congresso Nacional se tornou mais popular e menos elitista, em sua composição, entre 1998 e 2002. Antes disso, ele registrava o declínio dos sindicatos em Destinos do Sindicalismo, de 1999, que mostrou o efeito das transformações nas relações de trabalho e das cadeias produtivas brasileiras no poder político das instituições que representam os trabalhadores.

 

Membro da Academia Brasileira de Ciências, foi homenageado em 2001 com a Ordem Nacional do Mérito Científico. Em 2009, recebeu o prêmio que leva o nome de seu orientador nos tempos de doutorado, concedido pela Sociedade Brasileira de Sociologia. Martins Rodrigues se aposentou em 2003 como professor da Unicamp, mas não interrompeu suas atividades de pesquisador no campo das ciências políticas. Nos últimos anos ainda participava de um estudo sobre a mudança no perfil dos parlamentares brasileiros.

 

Assim como Rodrigues, os demais participantes da pesquisa — Lourdes Sola, Celso Beisiguel, Gabriel Bolaffi e José Carlos Pereira — tomaram os resultados para base de suas dissertações de mestrado. O texto de Rodrigues, intitulado “Greves operárias em São Paulo”, foi publicado como a segunda parte de seu primeiro livro, “Conflito Industrial e Sindicalismo no Brasil”, de 1966. [3]

 

No ano seguinte, defendeu tese de doutorado, publicada com o título “Industrialização e atitudes operárias (cada um dos novos pesquisadores do Cesit escolheria uma empresa para estudo). Nesse trabalho, seu objeto foi o caso da Willys Overland, então a maior empresa automobilística brasileira. “Estávamos dando os primeiros passos na área da sociologia sociologia do trabalho (…) Como tinha muitas leituras anteriores sobre sindicalismo e trabalhadores, resolvi estudar os trabalhadores manuais, os “horistas”, a maioria deles localizados na linha de montagem. Essa escolha tinha uma ponte com minhas preocupações marxistas da época da militância”. [4]

 

Essa mesma ligação doutrinária contribuiu para que ele optasse pela adjunção e titulação em ciência política, departamento de que foi professor titular na USP a partir de 1981. Passou a estudar partidos políticos, eleições e classe política. Interessava-se especialmente pela observação das fontes sociais de recrutamento partidário. Vivia essa segunda fase de sua carreira acadêmica quando se aposentou na USP em 1987. Contratado para lecionar ciência política na Unicamp, primeiro na pós-graduação e depois também na graduação, lá se aposentou em 2003.

 

A inclinação de Rodrigues para o estudo das interações de agentes políticos e suas origens sociais foi reforçada quando Sérgio Buarque de Holanda pediu-lhe que escrevesse um texto sobre o Partido Comunista Brasileiro (PCB), para publicação em um dos volumes da “História Geral da Civilização Brasileira”. “Escrevi um sobre sindicalismo e outro sobre o Partido Comunista. Me interessava saber quem era essa gente, onde se recrutavam os militantes do Partido. Era um trabalho um pouco sociológico e, ao mesmo tempo, político. Eu já estava cansado de estudar sindicalismo.”[5]

 

“Eu vinha um pouco do marxismo e sempre tive uma certa preocupação com ver a política como uma atividade que envolve pessoas, a ideia de que as instituições têm gente atrás, grupos de interesses e pessoas interessadas. (…) A política é um campo de força que envolve atores concretos.” [6]

 

Em seu primeiro período no governo, Fernando Henrique o indicou para ser representante brasileiro na OIT. “Fiquei muito contente, porque eu achava que era uma questão de sindicalismo e me dava uma viagem para a Europa umas três vezes por ano, eu podia passar por Paris e eles ainda me pagavam por aquilo. Só que eu fui uma única vez e pedi demissão. Era chatíssimo, uma coisa burocrática, não se discutia sindicalismo nem nada, burocratas de tudo quanto é lado, burocratas do lado do sindicato e burocratas do lado governamental.” [7] Demitiu-se. Foi eleito para o conselho deliberativo do CNPq e lá ficou por dois anos. Voltou para o que mais gostava de fazer: pesquisar e escrever, longe dos círculos de poder, distanciamento que cultivava como princípio essencial na vida de um intelectual público.

 

Foi sócio-fundador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e membro do conselho deliberativo do Centro de Estudos de Cultura Contemporânea (Cedec). No exterior, foi professor visitante na Universidade de Louvain, na Bélgica, e diretor de estudos na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, em Paris.

 

Entre outros livros, além de “Industrialização e Atitudes Operárias”, publicou “Destino do Sindicalismo”, “Sindicalismo e Sociedade”, “Conflito Industrial e Sindicalismo no Brasil”, “Trabalhadores, Sindicatos e Industrialização”, “CUT: Os Militantes e a Ideologia”, “Destino do Sindicalismo”, “Partidos, Ideologia e Composição Social”, “Partidos e Sindicatos – Escritos de Sociologia Política“, “Mudanças na Classe Política Brasileira”, “Pobres e Ricos na Luta pelo Poder – Novas Elites na Política Brasileira”.

 

Martins Rodrigues faleceu em 3 de maio de 2021, aos 87 anos.

“Liberal por convicção, tinha um compromisso ético que o transformava, por vezes, em crítico incômodo de verdades estabelecidas, como se esperava de um intelectual genuíno”, destacou o Cebrap, em nota. “Na época mais dura do regime autoritário, exercitou sua solidariedade generosa e incondicional escondendo colegas perseguidos, ajudando outros de diversas formas.”

A generosidade foi um dos traços mais destacados por colegas de profissão em manifestações de pesar. “Léo era bom de papo, curioso e generoso. Vai fazer falta nesse tempos anestesiados”, escreveu a historiadora Lilia Schwarcz, no Twitter.

“Grande estudioso dos partidos e sindicatos no Brasil, de uma geração notável de cientistas sociais”, escreveu o cientista político Cláudio Couto. “Lendo-o ou conversando com ele, aprendi muito.”
(Fonte: GAÚCHAZH – ANO 57 – N° 20.014 – 6 DE MAIO DE 2021 – MEMÓRIA/TRIBUTO – Pág: 29)
(Fonte: https://www.msn.com/pt-br/noticias/educacao – NOTÍCIAS / EDUCAÇÃO / por Estadão Conteúdo / fornecido por Microsoft News – 03/05/2021)
(Fonte: https://www.terra.com.br/noticias – NOTÍCIAS / por Estadão Conteúdo – 3 mai 2021)
(Fonte: https://valor.globo.com/eu-e/noticia/2021/05/03 – Eu &  / NOTÍCIA / Por Valor, com Folhapress — São Paulo – 03/05/2021)
Referências: [1,2,3,4] Depoimento a José Ricardo Ramalho e Iram Jácome Rodrigues, na “Revista Brasileira de Ciências Sociais”, vol. 25, n.o 72.[5,6,7] Depoimento para o projeto “Cientistas Sociais de Países de Língua Portuguesa – Histórias de Vida” (FGV/Cpdoc, 2008)
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