Iván Izquierdo, era uma das principais referências nos estudos sobre memória em todo o mundo e um dos cientistas do País mais citados no exterior

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Neurocientista foi um dos maiores especialistas em memória do mundo

 

 

Iván Antonio Izquierdo (Buenos Aires, 16 de setembro de 1937 – Porto Alegre, 9 de fevereiro de 2021), pesquisador, foi um dos mais renomados neurocientistas do Brasil e do mundo, atuou por 30 anos na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

 

Formado em medicina pela Universidade de Buenos Aires, na Argentina, Izquierdo veio para o Brasil em 1973. Logo no começo foi professor de Fisiologia na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), mas depois se instalou na UFRGS, onde ficou até se aposentar, em 2003, como professor de Bioquímica. Na instituição ele foi elevado a professor emérito em 2014. Em 2004, se mudou para a PUC-RS, onde atuou como professor de Neurologia e mentor do InsCer até falecer.

 

Argentino naturalizado brasileiro, o pesquisador era uma das principais referências nos estudos sobre memória em todo o mundo e um dos cientistas do País mais citados no exterior. Trabalhando com ciência básica, ele desvendou os mecanismos bioquímicos e fisiológicos envolvidos na formação das memórias, em como elas são evocadas, como persistem e também como são esquecidas, no que é considerado um dos seus trabalhos seminais.

 

Essas pesquisas formaram a base de estudos sobre a doença de Alzheimer que são atualmente o foco principal do Instituto do Cérebro (InsCer) da PUC do Rio Grande do Sul, que ele ajudou a fundar em 2012.

 

“Ele mostrou como os organismos precisam esquecer para dar lugar a novas memórias. Essa identificação de que para a memória existir é preciso esquecer e que o esquecimento não é algo ruim, mas sim muito importante, foi fundamental”, disse ao Estadão o também neurocientista Roberto Lent, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e amigo de longa data de Izquierdo.

 

Nos estudos que levaram à descoberta do mecanismo do esquecimento, Izquierdo e equipe conseguiram apagar a memória de ratos por meio do bloqueio da ação da proteína BDNF (sigla em inglês fator neurotrófico derivado do cérebro), que atua justamente na persistência de uma memória.

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“Esse sistema decide se a memória vai persistir por mais dois ou três dias, ou por mais uma semana, um mês ou a vida toda. Mas a verdade é que ainda não sabemos por que algumas memórias se mantêm mais que as outras nem como influenciar isso”, afirmou Izquierdo ao Estadão em 2007, alguns meses após a publicação do artigo científico.

 

O trabalho na época se tornou famoso ao ser aventada a possibilidade de se criar uma droga do esquecimento. A descoberta evocava ao filme Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças, em que os personagens tomam um remédio para esquecer de momentos sofridos, mas o pesquisador rejeitou a ideia.

 

“Seria impossível colocar uma cânula diretamente no cérebro, injetar uma droga por meio dela e apagar uma memória específica sem prejudicar outras funções vitais”, afirmou em 2007 em uma entrevista à revista Piauí.

 

Seus trabalhos, porém, foram fundamentais para aumentar o entendimento sobre Alzheimer“Não seria possível estudarmos hoje essa doença de se não tivéssemos as bases, fornecidas por Izquierdo, de como funciona a memória e como esquecemos”, complementa Jaderson Costa da Costa, atual diretor do InsCer.

 

Autor de capítulos e livros sobre o assunto, Izquierdo dedicou um especialmente a esse tema. A Arte de Esquecer revela por que o esquecimento é tão fundamental para o funcionamento das nossas memórias. O livro destaca que “a arte de não saturar os mecanismos da memória é algo inato, algo que nos beneficia de maneira anônima, pois nos impede de naufragar em meio às nossas próprias recordações”.

 

Ao longo dos mais de 60 anos de carreira, ele também se dedicou às memórias emotivas, especialmente às relacionadas ao medo, que, se por um lado são fundamentais à nossa sobrevivência, também são um dos mecanismos principais por trás do estresse pós-traumático. Izquierdo entendia que era possível lidar com elas, mas não apagá-las.

 

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