Cyprien Ntaryamira, chefe de Estado, foi presidente da República do Burundi.

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Tragédia africana

Cyprien Ntaryamira (Mageyo, na Província de Bujumbura Rural, Burundi, 6 de março de 1955 – Kigali, 6 de abril de 1994), chefe de Estado, foi presidente da República do Burundi, de 5 de fevereiro de 1994 até sua morte, quando seu avião foi abatido em 6 de abril de 1994.

Em agosto de 1986, ele se tornou um membro fundador e diretor de políticas econômicas do partido dominado por hutus, a Frente para a Democracia no Burundi (FRODEBU).

Seu partido ganhou poder após as primeiras eleições democráticas do Burundi em 1993, pondo fim a uma longa história de domínio da minoria tutsi e da União para o Progresso Nacional (UPRONA). O novo presidente, Melchior Ndadaye (1953-1993), nomeou Ntaryamira como Ministro da Agricultura.

Em outubro de 1993, no entanto, Ndadaye e seus dois altos oficiais foram assassinados provocando impasse parlamentar e a guerra civil. Nteryamira foi escolhido como presidente em 5 de fevereiro de 1994, como uma solução de compromisso: ele era hutu, porém considerado um moderado, enquanto que Anatole Kanyenkiko, uma figura do UPRONA, foi nomeado primeiro-ministro.

A trégua foi breve, já que o avião levando Ntaryamira e o presidente ruandês Juvenal Habyarimana, seu companheiro hutu, foi abatido por desconhecidos durante o pouso na capital de Ruanda, Kigali, matando ambos.

Dois dias depois, em 8 de abril, o poder foi passado para um associado de longa data de Ntaryamira: Sylvestre Ntiybantunganya, o presidente da Assembleia Nacional.

Na noite de 6 de abril de 1994, o avião que levava os presidentes Juvenal Habyarimana (1937-1994), de Ruanda e Cyprien Ntaryamira, do Burundi, foi derrubado, por foguetes, quando aterrissava em Kigali, capital de Ruanda.

Os dois voltavam de uma conferência de paz na Tanzânia, onde haviam discutido soluções para o conflito étnico que há séculos dizima as populações dos dois países.

Tanto em Ruanda como no Burundi, vizinhos de fronteiras indistintas no coração da África, as etnias tutsi e hutu engalfinham-se numa luta pelo poder que repete, em escala assustadora, os descaminhos de tantas nações africanas – guerra tribal, anarquia, miséria e morte.

Os dois presidentes mortos pertenciam à etnia hutu, majoritária nos dois países, ambos igualmente paupérrimos. Em Ruanda, nem bem recuperada de uma guerra civil que durou três anos, a morte do ditador que ocupava o poder há mais de duas décadas detonou um novo banho de sangue.

Soldados da guarda presidencial, leais ao líder assassinado, vingaram-se matando a primeira-ministra, Agathe Uwilingiyimana, que era da etnia tutsi.

Em Burundi, havia paz relativa, porque as marcas do último conflito armado ainda estava fresca na memória. Os hutus, 85% da população local, passaram séculos oprimidos pela minoria tutsi, um povo de distante origem etíope, que manda no Exército.

Em junho de 1993 o país realizou suas primeiras eleições democráticas. Ganhou um hutu, Melchior Ndadaye (1953-1993), que logo tratou de podar os privilégios de seus rivais tutsis. Foi deposto e morto por um golpe em outubro de 1993.

Desde então, calcula-se que 100 000 pessoas, em um daqueles estarrecedores espasmos de violência aos quais só se atêm quando a tragédia já está consumida, tenham morrido na luta tribal que varreu o país. O golpe não obteve êxito e, semanas depois, o presidente Cyprien Ntaryamira, morto em 6 de abril, foi empossado.

Depois da queda do avião, e a morte de Cyprien Ntaryamira, Ruanda se cobria de sangue, começava na África do Sul um encontro destinado a aparar as arestas entre os zulus de Mangosuthu Buthelezi e o Congresso Nacional Africano, de Nelson Mandela.

Buthelezi reivindicava soberania para sua província, KwaZulu, e se recusava a participar das eleições marcadas para 26 de abril, primeiras em que cada negro sul-africano teve direito a um voto.

Do resultado deste encontro dependerá o futuro da África do Sul, castigada pelos violentos conflitos entre zulus e partidários de Mandela. Se houver acordo, a África do Sul pode-se transformar na esperança do continente – um país com o governo negro no qual várias etnias convivem civilizadamente e deslancham uma economia já incomparavelmente evoluída. A alternativa é Ruanda.

As mortes desencadearam o genocídio de Ruanda.

(Fonte: Veja, 13 de abril de 1994 – ANO 27 – N° 15 – Edição 1335 – INTERNACIONAL – RUANDA – Pág: 43)

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