Antonio Berni, foi um grande pintor argentino que conquistou, em 1962, o Grande Prêmio Internacional da Bienal de Veneza

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Um Berni multifacetado; artista argentino demonstra a influência de diversos estilos, “uma figura lendária na América do Sul”

 

 

Antonio Berni (nasceu em Rosario, em 14 de maio de 1915 — faleceu em Buenos Aires, em 13 de outubro de 1981), pintor argentino que conquistou, em 1962, o Grande Prêmio Internacional da Bienal de Veneza.

O Sr. Berni foi um grande pintor argentino, embora tenha trabalhado prolificamente desde a década de 1920 e tenha ganhado o prêmio internacional de gravuras e desenhos na Bienal de Veneza de 1962, sua obra é pouco conhecida no Brasil, embora ela seja considerada a mais expressiva do século XX e a de maior cotação internacional entre os modernistas de seu país.

Seja como for, o Sr. Berni não é de forma alguma um inovador, mas sim um homem habilidoso em seguir influências. Uma temporada na Europa durante a juventude o expôs ao surrealismo, e sua obra do início da década de 1930, como “O Sonho do Argelino”, mostra uma forte influência de De Chirico.

Ele transitou por diversos estilos previsíveis — a pintura de protesto mexicana no final dos anos 30 e início dos 40, um realismo social mais leve, à la Ben Shahn, no início dos anos 50, e um breve interlúdio de expressionismo abstrato.

Desde 1959, aproximadamente, temas da arte popular latino-americana têm invadido cada vez mais sua obra, e com eles ele parece muito mais à vontade. Um artesão excepcionalmente talentoso que faz uso inventivo dos materiais, ele transita com desenvoltura entre óleo, colagem e xilogravura.

Uma série de encantadoras pinturas em colagem, que incorporam habilmente pedaços de madeira e metal encontrados, narra as aventuras de um menino da favela, Juanito Laguna. Um conjunto de elegantes e ornamentados relevos em xilogravura e colagem, estampados a partir de sofisticados moldes de metal, mas diretamente ligados à tradição gráfica mexicana em preto e branco, aborda com humor a personagem de uma mulher vulgar chamada Ramona.

O Sr. Berni também reuniu, a partir de objetos encontrados, uma série de criaturas carnavalescas, como “O Verme Triunfante”, um monstro de boca rosa feito de madeira, papel e palha que puxa um catafalco repleto de chapéus e máscaras velhas. Mas o impacto dessas figuras é atenuado pelo fato de que grande parte dessa técnica de assemblage artística e artesanal já tenha se difundido na decoração de vitrines de lojas de departamento.

Nasceu em Rosário (Província de Santa Fé) em 14 de maio de 1905, Berni integra o grupo ligado à arte político-social na América Latina, com suas representações caricaturais e irreverentes de um universo popular de classes desprivilegiadas, como a criação dos personagens “Juanito Laguna”, um menino pobre que relata o cotidiano da favela.

“Juanito representa as crianças pobres das grandes cidades latinoamericanas que moram em casas humildes de lata e papelão. Seus pais trabalham em fábricas e oficinas, fazen changas para manter sua família. Suas mães trabalham de costureiras ou faxineiras. Esta situação de exlusão se acentuou desde os anos 60 quando nasceu o personagem, até nossos dias”. Berni dedicou várias obras a explorar este arquétipo latinoamericano.

“Yo a Juanito Laguna lo veo y lo siento como el arquetipo que es; arquetipo de una realidad argentina y latinoamericana, lo siento como expresión de todos los Juanitos Laguna que existen. Para mí no es un individuo, una persona: es un personaje” En él están fundidos muchos chicos y adolescentes que yo he conocido, que han sido mis amigos, con los que he jugado en la calle” (Antonio Berni, Escritos y papeles privados).

“Ramona Montiel” é outra personagem de Berni. A mulher que sai do interior para conquistar uma vida melhor na cidade, tornando-se prostituta e, consequentemente, lutando contra os preconceitos. Ambos transformam-se em visão concreta de uma lacerante condição humana.

“Yo a Juanito y a Ramona los hice precisamente en collage, con materiales de rezago, porque era el entorno en que ellos vivían; y así no apelaban justamente a lo sentimentalista. Yo les puse nombre y apellido a una multitud de anónimos, desplazados, marginados niños y humilladas mujeres; y los convertí en símbolo, por una cuestión exactamente de sentimiento. Los rodeé de la materia en que desenvolvían sus desventuras, para que, de lo sentido, brotara el testimonio” (Antonio Berni, Escritos y papeles privados).

Mesmo antes de ganhar o Grande Prêmio de Gravura da Bienal de Veneza de 1962, Berni teve reconhecimento internacional. Entre 1955 e 60, ele expôs em Paris, Bucareste, Varsóvia, Praga e Moscou.

A partir do prêmio, expôs no Museu de Arte Moderna de Paris, em 1965, e também em 1971, e foi laureado na Bienal Internacional de Gravura de Liubliana, Iugoslávia, e de Cracóvia, Polônia. Ainda nos anos 60, ganhou mais um prêmio na Exposição Intergráfica de Berlim.

A técnica exclusiva de mesclar a xilogravura com elementos da colagem e o volume que conseguiu imprimir às gravuras, deram-lhe um lugar ímpar na vanguarda modernista, junto com a temática social que permite compreender o cotidiano das cidades latinas, seus costumes e mitos regionais. Esses trabalhos têm componentes do surrealismo com preocupações do período realista.

Utilizando uma técnica própria de collage na qual incorpora materiais de dejetos e objetos encontrados, Berni cria, assim, um universo onde dois mundos aparentemente antagônicos, se confrontam o da arte culta e da cultura popular, utiliza os resíduos de forma emblemática para aludir a uma realidade descarnada, extrema e irritante, que enturva a atmosfera dos seus quadros. Essa tangibilidade dos detritos é uma franca crítica ao sistema que os produz.

A série A obsessão da beleza, de 1975, corresponde a um tempo nefasto da história argentina, de golpes militares e de crise sócio-econômica. A série de serigrafias é uma alegoria que vai do seu impiedoso sarcasmo ao descrever os sacrifícios a que as mulheres se submetem para atingir a beleza até as torturas vividas nesse período histórico.
Antonio Berni faleceu dia 13 de outubro de 1981, aos 76 anos, de colapso cardíaco, em Buenos Aires.

(Fonte: Revista Veja, 21 de outubro de 1981 — Edição 685 — DATAS — Pág; 115)
(Fonte: www.mostraolixo.wordpress.com/artes — Antonio Berni e suas personagens do lixo: Juanito e Ramona)

(Direitos autorais reservados: https://www.nytimes.com/1966/11/19/archives — New York Times/ Arquivos/ Arquivos do The New York Times/ Por Grace Glueck — 19 de novembro de 1966)

Sobre o Arquivo
Esta é uma versão digitalizada de um artigo do arquivo impresso do The Times, anterior ao início da publicação online em 1996. Para preservar esses artigos como foram originalmente publicados, o The Times não os altera, edita ou atualiza.
Ocasionalmente, o processo de digitalização introduz erros de transcrição ou outros problemas; continuamos a trabalhar para melhorar estas versões arquivadas.
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