Anita Malfatti, a pioneira do modernismo, uma grande artista brasileira

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Anita: mais que uma pioneira, uma grande artista brasileira

Anita Catarina Malfatti (São Paulo, 2 de dezembro de 1889 – São Paulo, 6 de novembro de 1964), pintora, desenhista, gravadora e professora, a pioneira do modernismo.

A arte inovadora de Anita, de vasta obra da artista, inclui óleos e dezenas de seus trabalhos sobre papel (desenhos, pastéis, aquarelas e gravuras), onde revelou um ângulo surpreendente das telas da pintora que cobriu o auge, no período de 1915 até os anos 50.

Ao expor 53 pinturas numa galeria de São Paulo, em fins de 1917, uma jovem tímida de 28 anos acendeu o estopim da bomba que explodiria na Semana de Arte Moderna de 1922. A moça era Anita Malfatti, que acabara de chegar dos Estados Unidos trazendo em sua bagagem obras expressionistas: quadros em que o rosto de um homem era pintado de um amarelo vivo ou, então, figuras deformadas, que logo causaram irritação e escândalo.

Um dos intrigados visitantes da exposição de 1917 foi o escritor e pintor bissexto Monteiro Lobato, que escreveu no Estado de S. Paulo um devastador artigo, conhecido como “Paranoia ou mistificação?”, deblaterando contra as ousadias de  Anita Malfatti.

Outro visitante, o jovem professor de Música Mário de Andrade, ao contrário, ficou extasiado. “Parece absurdo, mas aqueles quadros foram a revelação”, escreveu. As ousadias da jovem pintora foram um dos elementos decisivos que levaram os escritores Mário e Oswald de Andrade e o pintor Di Cavalcanti a organizar a célebre Semana de Arte Moderna de 1922.

 

FASE INTIMISTA – Há peças curiosas, como o Nu Cubista, de 1916, que apesar do título não é cubista, mas de fatura expressionista. Em 1910, a artista brasileira foi à Alemanha, onde estudou com o pintor Lovis Corinth (1858-1925) e sofreu a decisiva influência do expressionismo alemão.

Só cinco anos depois, em Nova York, como aluna do professor e pintor americano Homer Boss (1882-1956), Anita desenvolveu o seu próprio estilo, juntando as influências externas com algo das cores brasileiras para realizar obras-primas como A Boba, de 1915. Dessa fase de sua produção artística surgiu Rochedo, uma vigorosa paisagem cujo desenho forte traça as rochas da Ilha de Monhegan, nos Estados Unidos.

A melhor surpresa de sua obra, porém, é Interior de Mônaco, de 1925, obra que traduz a reviravolta que a pintora imprimiu a seus pincéis expressionistas a partir do momento em que se fixou em paris, no início da década de 20. Nesse quadro, já não há as figuras dramáticas e contorcidas que chocaram o meio artístico acadêmico de São Paulo.

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Influenciada pela Escola de Paris, Anita Malfatti esmerou-se em fazer uma composição dotada de equilíbrio, em que os tons vermelhos e os arabescos decorativos sugerem a influência do pintor francês Henri Matisse (1869-1954). Interior de Mônaco contribui para atenuar a lenda de que, a partir da diatribe de Monteiro Lobato contra a artista, Anita Malfatti nunca mais teria voltado a pintar com audácia.

Somente no início dos anos 30, a pintura da artista perdeu o vigor revolucionário. No clima da época, procurou fazer uma obra nacionalista e, no final da vida, adepta da Ciência Cristã, intercala em sua pintura tranquilos vasos de flores com cenas religiosas. O intimismo de sua última fase estava próximo de sua personalidade tímida, aliada a um defeito físico de nascença no braço direito, que a obrigou a escrever e depois a pintar com a mão esquerda. Esse defeito físico explica por que, em seus quadros, Anita Malfatti raramente pintou as mãos de seus modelos.

 

NATUREZAS-MORTAS – De fato, sua pintura inicial foi audaciosa num país provinciano como era o Brasil daquele tempo. Com isso, a pintora foi sempre considerada “a pioneira”, uma artista cujo único mérito teria sido o de desbravar, o de abrir caminhos. Mesmo não tendo a fama de uma Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, no entanto, realizou uma obra que ultrapassou as barreiras do pioneirismo puro e simples.

Destaca-se o capítulo sobre o período que a artista viveu na França nos anos 20, considerado pelos seus companheiros de modernismo como o início do comodismo de Anita Malfatti. Naquele período Anita realizou pinturas até mais requintadas do que as da sua fase inicial.

Como tinha de pintar para viver, a artista, principalmente a partir dos anos 30, realmente tornou-se mais contida, dedicando-se preferencialmente aos retratos e às naturezas-mortas, que vendia com mais facilidade. Sua obra foi então sufocada pela de Cândido Portinari.

Com a diferença de que Portinari, além de enaltecido pelo Partido Comunista Brasileiro, foi apoiado pelo Estado e pôde fazer seus murais monumentais. Com seus altos e baixos, a obra de Anita Malfatti é sem dúvida um marco na pintura brasileira, de obra consagradora.

Não apenas às obras mais belas e conhecidas da artista, entre as quais se destacam A Boba, O Homem Amarelo e O Japonês, como revela facetas menos notórias da pintora – entre elas, duas curiosas caricaturas feitas por Anita quando estudava nos Estados Unidos. Malfatti chegou a desenhar para as revistas Vogue e Vanity Fair.

Anita Malfatti faleceu em novembro de 1964, aos 74 anos, em São Paulo.

(Fonte: Veja, 30 de abril de 1986 – Edição 921 – ARTE/ Por Wilson Coutinho – Pág: 118/119)

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