Donato Bramante, grande artista da região de Urbino, célebre sobretudo pela sua obra arquitetônica

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Donato di Angelo del Pasciuccio (Urbino, 1444 – Roma, 11 de abril de 1514), conhecido como o Bramante, foi um arquiteto renascentista de valor histórico da participação na cultura de seu tempo, de força inovadora que atuou na passagem do humanismo arquitetônico do século XV para a fase madura e posteriormente maneirista do Renascimento.

 

Bramante produziu pinturas, edifícios e projetos que ele elaborou em várias cidades da Itália, além de projetos do Belvedere no Vaticano e das cúpulas em Montorio, que descrevem a trajetória do artista, o desenvolvimento da sua problemática arquitetônica e o resultado de suas experiências entre o Humanismo e o Maneirismo.

 

Nos domínios da arte, os períodos clássicos ocupam territórios fugazes, porém de uma influência duradoura. Na Grécia, o apogeu não durou cinquenta anos, entre 450 e 400 a.C. No Renascimento, cobriu pouco mais de meio século, entre 1450 e 1520. Mas foi nesse período que surgiu uma linguagem capaz de servir de base a todos os movimentos artísticos que se sucederam até o século XIX.

 

Os elementos dessa linguagem eram a perspectiva linear, os contrastes de claro e escuro e o vago princípio da arte como imitação da natureza. E seus principais protagonistas foram dois florentinos, Leonardo da Vinci e Michelangelo Buonarroti, além de dois artistas da região de Urbino: Rafael Sanzio e Donato Bramante.

 

 

Forma da cruz – Donato di Angelo di Antonio, dito Donato Bramante, nasceu em Monte Asdrualdo (Itália central), em 1444, localizado perto de Urbino, um estimulante centro artístico de brilho comparável a Florença.

 

Ao curso de um duplo aprendizado de pintor e arquiteto, assimilou o estilo calmo e puro dos geômetras que o rodeavam (Luciano di Laurana e Francesco di Giorgio Martini).

 

E também o refinamento acadêmico do erudito arquiteto Leon Battista Alberti (1404-1472), figura destacada no processo do renascimento da arte antiga. De seu sucessor, Andrea Mantegna, um arqueólogo e artífice da composição, Bramante adquiriu as técnicas de um acurado esboço.

 

De Piero della Francesca, que conheceria através de Leon Battista Alberti, herdou a impassível solidez e a meticulosa organização espacial. E a partir das preocupações estéticas comuns a todos os artistas da época enraizou-se a obsessão pelas construções com a planta centralizada, geralmente obedecendo à forma da cruz, que tanto fascínio causou a Leonardo da Vinci.

 

Visão nacional – De Urbino, Bramante partiria para Milão, em 1477, num momento em que os artistas de Roma, mais seguidores que incentivos, a relegavam a uma posição secundária. As obras então executadas – afrescos pintados na decoração do palácio da família Panagarola, de nobres figuras rememorando heróis famosos – seriam o comprovante de um promissor talento equivalente aos mais expressivos pintores que surgiam.

 

Contudo as atividades de arquiteto acabaram interrompendo as de decorador. O contato com Leonardo modificara sua severa visão racional da arquitetura assimilada anteriormente. Às buscas do florentino menos específicas e mais inquietantes, Bramante opunha sua prática metódica, adaptada ao meio e circunscrita a seus interesses arquitetônicos.

 

E a interação entre os dois tornou-se a base do projeto para a Capela de Santa Maria da Consolação (1508). Uma mistura do sentido clássico adquirido em Urbino com o entusiasmo dos novos métodos de construção da Lombardia.

 

 

Força inovadora – Bramante só se transferiu para Roma no princípio do século XVI, quando as supremas hierarquias eclesiásticas se debatiam num esforço para readquirir a hegemonia política, utilizando os artistas como instrumentos ideológicos para sua rearticulação. O papa Júlio II, eleito em 1503, transformara Roma num centro de grande atividade. E entregou a Bramante o projeto da nova basílica de São Pedro, ambicionando concorrer com as outras igrejas da cristandade.

 

 

Mas a arte a serviço de um despotismo papal tinha de sofrer suas consequências. A concepção original da basílica foi de tal modo desvirtuada, que, quando Michelangelo passou à direção das obras, viu-se obrigado a demolir algumas partes, para ao menos conservar alguma coisa do espirito inicial. Por isso, não é em São Pedro que se encontra o melhor exemplo do sereno equilíbrio e da monumentalidade plástica bramanesca.

 

 

Mas na Igreja de Santa Maria da Paz (1504) e, principalmente, no Pequeno Templo de São Pedro, em Montorio (começado a partir de 1506). Neles, Bramante justapõe elementos antigos – como colunas dóricas e arquitraves – a uma avançada geometria. E a fusão das partes, dispostas harmoniosamente em círculo, fornece a unidade do corpo arquitetônico.

 

Depois disso, a idade avançada e o ritmo ininterrupto de sua vida não dariam espaço para muita coisa.

 

E morreu em abril de 1514, exatamente na Roma que o acolhera com suas instigantes criações e foi enterrado sob a Basílica de São Pedro.

(Fonte: Veja, 17 de outubro de 1973 – Edição 267 – REVENDO BRAMANTE / Por Renato de Moraes – Pág: 135/137)

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