Uma das primeiras mulheres inglesas a cumprir um curso universitário

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Arnold Joseph Toynbee (Londres, 14 de abril de 1889 – York, 22 de outubro de 1975), filósofo, diplomata e historiador britânico, considerado como um dos filósofos mais importantes da história, alcançou fama graças aos seus 12 volumes de Um Estudo da História (Estudo da História, 1934 – 1961). Foi um momento de afortunadíssima inspiração. Cidadão do mundo, infatigável viajante nos seus tempos de juventude, professor de história decidido a assimilá-la nas suas próprias origens, ele imediatamente se emocionou com a visão daqueles gorros de pele de raposa vestidos por uma dezena de camponeses búlgaros. No desenho e no material, pareciam idênticos aos utilizados, cinco séculos antes de Cristo, pelas tropas persas que combateram os gregos na batalha das Termópilas. Não se tratava, ele sabia, de uma prova cabal e definitiva. Sobre a inesperada descoberta, porém, Arnold Joseph Toynbee resolveu erigir a sólida estrutura se seu raciocínio a respeito da continuidade da história.

Corria o ano de 1922. E outros doze se passaram antes que Toynbee efetivamente se propusesse a corporificar suas ideias. Precisava pesquisar, estudar, definir. E em 1934, finalmente, com sua delicada e sóbria caligrafia, ele pôs no papel a primeira palavra de uma vasta e percuciente obra apenas completada em 1961: os doze volumes de seu ambicioso “Estudo da História”. Num resumo simplista, o “Estudo” assegura que as diversas civilizações conhecidas pela humanidade, devem ser entendidas como uma unidade, dentro da qual as épocas não passam de partes articuladas com o presente e o futuro. Segundo Toynbee, as sociedades, inevitavelmente, brotam, se desenvolvem e logo entram em decadência, habitualmente porque respondem de modo equivocado aos desafios que cada uma precisa enfrentar. Às quedas seguem-se verdadeiros cataclismos. Depois o ciclo novamente se inicia.

De enorme impacto e importância nos últimos quarenta anos, o “Estudo”, obviamente, atraiu tanto elogios quanto críticas. Por sua defesa do valor da religião e do misticismo, seus adversários de opinião chegaram a acusá-lo de pretender tornar-se um novo Messias. Por seu ataque virulento aos nacionalismos, foi chamado de reacionário. Mesmo os mais renitentes analistas, contudo, viram-se obrigados a admitir a amplitude e a profundidade de seu trabalho. Para John Kenyon, respeitado “doctor” da Hull University, Grã-Bretanha, Toynbee se transformou, com o “Estudo”, no único historiador do século 20 capaz de merecer o título de “um homem universal”. E os seus fervorosos admiradores, por sua vez, garantem ter sido ele “um profeta do futuro”. No dia 22 de outubro, respeitosamente, a polêmica se interrompeu. Aos 86 anos, ainda padecendo das consequências de um derrame cerebral sofrido catorze meses antes, Arnold J. Toynbee faleceu numa casa de saúde em York, Inglaterra.

Língua bizantina – O próprio Toynbee sempre insistiu em creditar à sua mãe, Sarah Marshall, uma das primeiras mulheres inglesas a cumprir um curso universitário, o seu apego pela história. Filho de Harry Toynbee, um assistente social, Arnold Joseph nasceu em Londres no dia 14 de abril de 1889 – e sua família, típica da classe média britânica daquela época, não poupou dinheiro para educá-lo no fechadíssimo Winchester College. Entusiasmado pelo apoio materno, antes dos 20 anos Toynbee já havia completado seus doutorados em literatura e direito. Lia freneticamente, em particular velhíssimos compêndios de história antiga que a mãe garimpava nos sebos londrinos. E a sua eclética cultura lhe propiciou um emprego na Inteligência do Ministério das Relações Exteriores de seu país durante a I Guerra Mundial.

Toynbee chegou a participar, como integrante da delegação britânica, de duas conferências de paz, em Paris, em 1919 e em 1946. Entre as duas guerras, trabalhou como professor de língua bizantina, grego, literatura e história na Universidade de Londres. E ainda encontrou tempo para produzir uma poderosa enxurrada de livros e ensaios sobre a Europa, a Grécia, o Oriente Médio – além dos seis alentados volumes iniciais do “Estudo da História”. Ao terminar o último dos doze tomos, Toynbee havia escrito cerca de 3,5 milhões de palavras.

Casou-se duas vezes. Em 1913, com Rosalind Murray, que lhe deu três filhos, Philip, Anthony e Laurence. O matrimônio se desfez em 1946. Poucos meses depois, entretanto, Toynbee passou a viver com Veronica Boulter, sua secretária, que se tornaria uma inestimável colaboradora de sua obra, participante ativa até mesmo das reuniões de intelectuais coordenadas pelo marido em meados dos anos 50 – um grupo que ficou famoso pelo nome de “o staff de Chathan House”.

Manteiga de amendoim – Toynbee era um homem tímido, essencialmente bem-educado, com a aparência e os modos de um velho médico de família. Entre seus hábitos, nada havia de especialmente notável. Andava sempre de ônibus. Bebia vinhos e licores comedidamente. Alimentava-se pouco, basicamente de verduras, frutas, e várias vezes ao dia. Quando visitava Nova York, apreciava caminhar pelo bairro grego da cidade, fazendo pequenas compras e conversando com os imigrantes na sua língua natal. E uma vez chegou a dizer, candidamente, que os melhores produtos dos Estados Unidos eram o cantor Bing Crosby e a manteiga de amendoim.

Humilde, consciencioso, admitiu muitas das críticas que se fizeram ao “Estudo da História”. Tanto que o 12.° elemento da vasta coletânea se chamaria “Reconsiderações”. Mais recentemente, escreveu dois fundamentais ensaios, igualmente explosivos: “Experiences”, (1969), um conjunto de recordações autobiográficas somadas a lúcidos comentários sobre os oitenta anos de história que vivera: e “A Sociedade do Futuro”, onde traçou um poderoso retrato dos problemas do mundo por volta de 2001.

Seu legado maior, além de sua obra, está na sua própria forma de analisar a civilização do homem. Toynbee praticamente obrigou os historiadores a se voltarem, com um largo gesto, às mais remotas origens das sociedades organizadas do planeta. Para ele, cada momento da história tem o seu significado – e todos os momentos da história carregam idênticas doses de importância. “A cultura com que nos acostumamos a conviver”, dizia, “não deve ser examinada como uma preciosidade sacrossanta. Ela não é necessariamente eterna. Afinal, a história jamais foi, apenas, uma progressão na direção da luz.”

Ideias, da religião aos hippies

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Uma coletânea dos pensamentos de Arnold Joseph Toynbee:

SOBRE OS ESTADOS UNIDOS: Durante anos os americanos acreditaram veemente que seu país era o paraíso terrestre. Como historiador, porém, estou certo de que todos os períodos de bem-estar que porventura as sociedades venham a saborear são definitivamente limitados. Mergulhar em dificuldades faz parte da natureza humana. Assim, não posso me permitir o pensamento de que alguma nação, qualquer que seja, se transforme num éden terreno. A desilusão acaba por chegar, cedo ou tarde. E nos Estados Unidos esse processo começou a eclodir depois da guerra do Vietnam. Com o desenrolar da guerra, ficou suficientemente claro que a imensa sensação de segurança tão acalentada pelos americanos era uma sensação falsa. Uma sensação que o Vietnam destroçou. Em todo caso, confio muito na capacidade de recuperação da juventude dos Estados Unidos.

SOBRE OS NEGROS: Não há saída. Parece-me fundamental que as raças do mundo se fundam através de casamentos mistos. Se isso não ocorrer, que alternativa existirá além de uma fatal e dramática separação?

SOBRE OS HIPPIES: Evidentemente, o conhecimento que tenho deles é bastante superficial. Os hippies, contudo, chamam minha atenção por dois aspectos muito interessantes. Primeiro, são filhos de família, digamos, remediadas, ou até mesmo ricas. Jovens que degustaram tantas guloseimas que acabaram enfastiados. Segundo, porque sua reação imediata ao sistema de vida capitalista, especialmente nos Estados Unidos, é absolutamente radical: param de trabalhar, abandonam os estudos. Depois dessa atitude inicial, porém, inúmeros deles decidem dedicar-se a atividades que podem desempenhar sem comprometimentos com sistemas ou regimes. Empregam-se em granjas, fazendas, fazem artesanato. Com esse espírito, movidos por um ideal que não seja o de simplesmente ganhar dinheiro, podem chegar a criar uma nova forma de vida.

SOBRE A CRISE DO PETRÓLEO: Não se deve dizer que os árabes estão fazendo uma espécie de chantagem contra o mundo. Chamo sua atitude, simplesmente, de pressão, pressão política e econômica. Acontece, todavia, que muitas vezes essa pressão é exercida de maneira ilegítima e anti-social. Como estamos vendo acontecer ultimamente.

SOBRE OS TÓXICOS: Condeno definitivamente o uso de drogas. Jovens de todo o mundo as vêm empregando de forma execrável. A culpa, em todo caso, não está só com eles. Pois os tóxicos não passam de um subproduto da ciência, da tecnologia e da corrupção.

SOBRE A SOCIEDADE OCIDENTAL: Enfrentamos uma situação de fato alarmante. E isso não começou há cinco ou dez anos. Começou na Inglaterra de fins do século XVIII. Quando se promoveu a mecanização da indústria, o mundo ocidental passou a aceitar a filosofia de Adam Smith, que sustentava que a busca egoística dos interesses privados redundaria num máximo de benefícios para toda a sociedade. Ora, isso é uma inverdade óbvia. Quanto mais a sociedade se torna mecanizada, mais vulnerável ela fica à pressão egoística. A especialização de que tanto se orgulham muitos economistas de nosso tempo é completamente imoral.

SOBRE A RELIGIÃO: Oferecer ao ser humano a ciência como substituto para a religião é tão insatisfatório como dar uma pedra a uma criança que quer pão. A competição do individualismo, a organização tipo formigueiro do comunismo e o espírito tribal do nacionalismo parecem-se com a tecnologia por serem impessoais. Mas só a religião e não esses seus sucedâneos preenche a necessidade mais básica do homem, numa era em que o triunfo da tecnologia desumaniza as personalidades, identificando-as não mais por seus nomes próprios mas por um número picotado que percorre as entranhas de um computador.

SOBRE AS CIDADES: Os aglomerados urbanos estão se coagulando em cruéis megalópolis, uma forma de vida, de habitação, sem precedentes em toda a história da humanidade. E eu confesso desconhecer se o homem conseguirá promover uma revolução de costumes tão rápida e radical que consiga salvá-lo do fim. De qualquer modo, é conveniente recordar que há cerca de 8 000 ou 10 000 anos nossos ancestrais se transformaram de nômades em sedentários. E sobreviveram a mudança tão radical. Isso me dá algumas esperanças.

SOBRE O HOMEM: O ser humano poderá facilmente desaparecer da face da Terra. A maior parte das espécies já se extinguiu. O número das que sobrevivem já é muito menor que o número das desaparecidas. Dos hominídeos, só o homem resiste. Mas ele também poderá ser exterminado, ou se auto-exterminar sem problemas. Por que não?

(Fonte: Veja, 29 de outubro de 1975 – Edição n° 373 – LITERATURA – Pág; 84/85)

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