Robert M. Levine, dividiu com o compatriota Thomas Skidmore o posto de mais atuante brasilianista dos Estados Unidos

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Historiador tinha mais de 15 livros sobre o Brasil publicados nos EUA, sobre temas como Getúlio Vargas e Canudos

 

 

Robert M. Levine (nasceu em 26 de março de 1941 – faleceu em Miami, em 1º de abril de 2003), historiador americano, professor na Universidade do Estado de Nova York, foi um dos principais representantes no cenário acadêmico norte-americano do Brasil.

Autor de cerca de 30 livros, a maior parte deles sobre o Brasil, Levine dirigia desde 1989 o departamento de estudos latino-americanos da Universidade de Miami.

Da mesma geração do compatriota Thomas Skidmore, o historiador dividia com ele o posto de mais atuante brasilianista dos Estados Unidos, ainda que refutasse o termo brasilianismo. “Poucas vezes vi um norte-americano usar essa palavra”, disse em entrevista em 1999.

Getúlio Vargas, sobretudo em seus primeiros anos de presidência, foi um dos objetos centrais das pesquisas de Levine, que publicou ainda sobre assuntos tão diversos quanto o judaismo em Cuba ou os diários de Carolina Maria de Jesus (autora que fez na favela, nos anos 60, o best-seller “Quarto de Despejo”), pesquisa feita em parceria com José Carlos Sebe Bom Meihy.

“O Regime Vargas”, resultado de seu doutorado na universidade de Princenton, publicado no Brasil pela Nova Fronteira, é seu livro de mais repercussão. O mais recente lançado no país é sobre o mesmo personagem: “O Pai dos Pobres”.

Num trabalho de pesquisas sobre Pernambuco, o historiador publicou no Brasil em 1980 “A Velha Usina”.

Professor visitante de universidades brasileiras como a de São Paulo e a de Goiás, e também em instituições como a Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, Levine desenvolveu ainda um trabalho de grande repercussão sobre a guerra de Canudos, cristalizados no volume “O Sertão Prometido”, de 1992.

Robert M. Levine faleceu em Miami, em 1º de abril de 2003, aos 62 anos, vítima de câncer.

Historiador e cientista político, professor aposentado da USP, Boris Fausto diz que lembra de Levine como “um historiador muito sólido”.

“Ele tem um projeto de história regional muito interessante. Defendia que era preciso entender o Brasil não apenas em termos mais gerais. Estudando o país no nível estadual, encontrou um caminho entre o micro e o grande ensaio geral”, afirma Fausto.

Sobre pesquisas sobre Pernambuco, lembra Fausto, Levine gostava de contar uma anedota. “Ele dizia que em Pernambuco sempre que conversava com alguém falavam: “Apareça lá em casa”. E ele aparecia.”

(Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada – FOLHA DE S.PAULO/ ILUSTRADA/ MEMÓRIA / Por CASSIANO ELEK MACHADO/ DA REPORTAGEM LOCAL  – 3 de abril de 2003)

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Autor de best-sellers –No Brasil e em outros países

Raro é o autor que figura na lista dos mais vendidos. Mais raro ainda é o autor que figura na lista dos mais vendidos em um país que não o seu. E quase inédito é o autor cujo livro entra para a lista dos mais vendidos uma década após seu lançamento. Mas esse é o caso de Robert M. Levine, um professor de história de 39 anos da Universidade Estadual de Stony Brook, especializado em estudos brasileiros.

No início do outono, o Dr. Levine se viu como um ícone literário no Brasil, onde um governo militar relativamente flexível havia proporcionado um clima favorável à publicação de seu estudo de 1970, que despertara curiosidade e controvérsia naquele país e tornara seu autor alvo de ressentimento e suspeita.

Em 1964, cursando seu doutorado em Princeton, o Dr. Levine foi ao Brasil planejando uma dissertação sobre o Partido Comunista Brasileiro de 1945 a 1947, o único período em que era legal. Mas ele chegou logo após a queda do governo civil de esquerda. “Descobri, é claro, que a atmosfera era muito, muito tensa e que o novo governo militar estava começando a impor um aparato de censura e repressão”, disse ele. “Comecei a perceber que as pessoas relutavam em falar sobre o Partido Comunista.

Decidi então mudar o tema da minha tese para a década de 1930 e realizar um estudo mais amplo sobre o impacto do autoritarismo na sociedade.” Aparentemente por ser estrangeiro, aparentemente por ser jovem e ingênuo, falar um português rudimentar e dar a impressão de não saber muito bem o que estava fazendo, o Dr. Levine teve acesso, concedido pelas autoridades brasileiras, a materiais que haviam sido negados ao próprio povo brasileiro.

Ele teve permissão para usar os arquivos da polícia de segurança brasileira da década de 1930 e também obteve acesso às famílias de importantes figuras políticas da época, incluindo a de Getúlio Vargas, que se tornou presidente pela primeira vez em 1930. “Portanto, tornei-me o único pesquisador a ter usado os arquivos policiais em três estados brasileiros e também os documentos do governo Vargas”, disse o Dr. Levine.

O Dr. Levine, que cresceu em Merrick, retornou a Princeton no final de 1965 e ingressou no corpo docente de Stony Brook em 1966. Ele é professor titular desde 1977. Em 1970, sua dissertação, “O Regime Vargas e a Política do Extremismo no Brasil”, foi publicada pela Columbia University Press. O Dr. Levine disse: “Foi recebido como qualquer outro livro acadêmico dentro do restrito mundo dos especialistas brasileiros e latino-americanos.

No Brasil, porém, começaram a circular boatos de que a pesquisa envolvia material extremamente sensível, e certa animosidade começou a surgir nas resenhas do livro, não focando no conteúdo, mas no fato de que eu, como estrangeiro, tive acesso a materiais aos quais os próprios brasileiros não tinham acesso.” Na década de 1970, disse ele, “o Brasil sofreu com severa repressão.”Embora alguns brasileiros vissem “brasilianistas” como o Dr. Levine com suspeita, questionando por que haviam recebido tratamento privilegiado de um regime repressivo, ele se empenhou em chamar a atenção do público brasileiro para a situação dos acadêmicos e jornalistas brasileiros.

Este ano, em decorrência da mudança no clima político, seu livro foi publicado no Brasil, coincidindo com o 50º aniversário do golpe militar que levou Vargas ao poder. “Nas últimas seis semanas”, disse o Dr. Levine, “estive no topo das listas de mais vendidos no Rio e em São Paulo”. O Dr. Levine, que mora em Port Jefferson com a esposa e a filha, voltou ao Brasil e encontrou seu livro com críticas favoráveis, as suspeitas sobre suas motivações dissipadas e ele próprio requisitado como palestrante. “É sempre bom”, disse ele, “saber que você é lido”.

(Créditos autorais reservados: https://www.nytimes.com/1980/11/23/archives – Arquivos do The New York Times/ Arquivos/ Arquivos do The New York Times/ Por Lawrence Van Gelder – 23 de novembro de 1980)

Sobre o Arquivo
Esta é uma versão digitalizada de um artigo do arquivo impresso do The Times, anterior ao início da publicação online em 1996. Para preservar esses artigos como foram originalmente publicados, o The Times não os altera, edita ou atualiza.
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