Pela primeira vez, bebês são operados ainda no útero com células-tronco

0
Powered by Rock Convert

Pela primeira vez, bebês são operados ainda no útero com células-tronco para tratar má-formação na coluna

Estudo inédito buscou avaliar a segurança de uma terapia que utiliza células-tronco para a reparação da espinha bífida.

 

 

Durante o início da gravidez, cada ultrassom revela algo novo do bebê — seja uma mãozinha, uma perninha ou até fiozinhos de cabelo. No entanto, esse exame também é essencial para alertar sobre malformações congênitas. Entre a 14ª e 16ª semana de gestação, um dos temores dos pais é a espinha bífida, falha no desenvolvimento da coluna vertebral do bebê.

E por que isso é tão perigoso? O quadro pode acarretar muitas sequelas para os pequenos, como perda da mobilidade, problemas urinários e até mesmo hidrocefalia. No entanto, recentemente, pesquisadores da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, trouxeram boas notícias para as famílias.

Os especialistas conduziram um estudo pioneiro, publicado na revista acadêmica The Lancet, para avaliar a segurança de uma terapia que utiliza células-tronco para a reparação da espinha bífida. E os resultados foram promissores: o procedimento se mostrou seguro para o bebê.

“Isso abre caminho para novas opções de tratamento para crianças com defeitos congênitos. O futuro é empolgante para a terapia celular e gênica antes do nascimento”, disse Diana Farmer, pesquisadora principal do estudo

 

O que é a espinha bífida?

Antes de compreender os resultados do estudo, é preciso definir o que de fato é a espinha bífida. De forma geral, ela é caracterizada como um conjunto de malformações na coluna vertebral do bebê.

Na gestação, seu filho ainda está em processo de formação. Para entender melhor esse processo, o médico Gregório Lorenzo Acácio, coordenador do programa de terapia fetal e neonatal do Sabará Hospital Infantil (SP), compara a coluna do bebê com um “zíper não fechado”.

Com o passar dos dias, esse zíper vai se fechando gradualmente para proteger a medula espinhal —responsável pela comunicação entre o cérebro e o corpo, com a função de transmitir impulsos nervosos.

O que é esperado? Que esse “zíper” se feche completamente. Mas, na espinha bífida, isso não ocorre. Assim, a medula pode ficar mal protegida e exposta, especialmente ao líquido amniótico.

Espinha bífida pode ser classificada em dois tipos:

Espinha bífida oculta: mais comum e que não costuma causar grandes problemas, pois não há envolvimento da medula espinhal — tanto que, muitas vezes, passa despercebida. Assim, existe uma falha na formação da vértebra, mas a região está recoberta pela pele, o que não deixa a medula exposta.

Cística (dividida entre mielomelingocele e meningocele): é quando o bebê tem uma saliência nas costas, levando a problemas como incontinência urinária, fecal e até paralisia dos membros inferiores.

  1. Meningocele: a saliência nas costas envolve apenas estruturas que protegem a medula espinhal. Em outras palavras, a medula continua protegida dentro das vértebras, o que não traz comprometimentos neurológicos.
  2. Mielomelingocele: essa é a forma mais grave. Nesse caso, a medula fica exposta e pode entrar em contato com o líquido amniótico, o que leva à lesão nos nervos responsáveis pelo controle motor.

Quais são as complicações?

  • Dificuldade para andar ou mover as pernas.
  • Perda ou diminuição da sensibilidade em partes do corpo.
  • Alterações no funcionamento da bexiga e do intestino.
  • Acúmulo de líquido no cérebro (hidrocefalia), que às vezes exige cirurgia.

O que o estudo traz de novo?

O trabalho tem como alvo a mielomelingocele — tipo mais grave de espinha bífida. A princípio, o intuito era analisar a segurança de uma terapia que utiliza células-tronco da placenta humana. Durante uma cirurgia fetal, essas células-tronco (que funcionam como “curativos”) foram colocadas diretamente sobre a área aberta da coluna, em contato com a medula. Depois, os médicos fecharam a musculatura do bebê.

O objetivo do procedimento é permitir a regeneração do tecido e proteger a medula espinhal em desenvolvimento de danos adicionais antes do parto. Os pesquisadores destacaram que essa é a primeira terapia intrauterina com células-tronco do mundo para espinha bífida.

Para o médico Gregório Lorenzo Acácio, o estudo traz uma inovação importante. Ele explica que, até o momento, o principal objetivo da cirurgia fetal para espinha bífida era evitar que o problema piorasse durante a gestação, principalmente nas últimas semanas da gravidez, quando a medula ainda exposta pode sofrer mais danos.

“O que esse estudo propõe é algo novo: uma abordagem chamada terapia regenerativa. Ou seja, além de proteger, a ideia é tentar melhorar as condições da medula já afetada”, destaca o especialista. “Para isso, os pesquisadores utilizaram células-tronco obtidas da placenta de doadoras. Essas células foram cultivadas e multiplicadas em laboratório e depois aplicadas em um tipo de “curativo especial”.

Segundo o especialista, a expectativa é que essas células:

  • Reduzam a inflamação
  • Estimulem a formação de novos vasos sanguíneos
  • Diminuam os danos neurológicos

Martha Calvente, ginecologista e obstetra da CDPI e núcleo de Medicina Fetal do Alta Diagnósticos no Rio de Janeiro, também chama a atenção para os desfechos clínicos animadores. “Alguns bebês apresentaram evolução melhor do que a esperada em termos de função motora, o que sugere um possível benefício adicional em relação à cirurgia fetal isolada”, disse ela.

O procedimento corrige a má-formação?

Essa é uma das principais perguntas dos pais ao se depararem com uma terapia nova. Mas a resposta não é tão simples. Segundo a especialista, o procedimento não corrige o problema completamente. “Ele não ‘faz a coluna voltar ao normal’, mas pode melhorar muito o desfecho. O objetivo é proteger a medula, evitar progressão da lesão e, possivelmente, recuperar parte da função neurológica.”

A ginecologista ressalta que, nos casos estudados, houve achados importantes, como a boa cicatrização da lesão e melhora de alterações cerebrais associadas. Contudo, é preciso ter cautela ao usar o termo “corrigir”. “Seria mais correto dizer que é uma terapia que pode modificar a evolução da doença, e não uma cura definitiva”.

O coordenador do programa de terapia fetal e neonatal do Sabará Hospital Infantil (SP) ainda acrescenta que os resultados são iniciais. “O estudo incluiu um número muito pequeno para conclusões definitivas. Os achados são animadores, mas precisam ser confirmados em mais pacientes e com acompanhamento a longo prazo”.

Quais foram os resultados?

Ao longo do estudo de fase 1, os pesquisadores monitoraram seis bebês desde a cirurgia até o nascimento. Os principais achados foram:

  • Não houve preocupações de segurança relacionadas às células-tronco.
  • Não ocorreram infecções, vazamentos de líquido espinhal, crescimento anormal de tecido ou formação de tumores no local da reparação.
  • Todas as cirurgias foram bem-sucedidas, e o enxerto de célula-tronco foi colocado conforme o planejado, com cicatrização completa das feridas.
  • As imagens de ressonância magnética mostraram uma reversão da herniação (deslocamento anormal dos tecidos) do tronco encefálico em todos os bebês.
  • Nenhum bebê precisou drenar o líquido cefalorraquidiano devido à hidrocefalia.

Como o estudo apresentou bons resultados de segurança, a Food and Drug Administration — agência reguladora federal dos Estados Unidos — autorizou que o trabalho avance para as próximas fases.

“Esse é um passo importante rumo a um novo tipo de terapia fetal — uma que não apenas repara, mas que potencialmente ajuda a curar e proteger a medula espinhal em desenvolvimento”, afirmou Aijun Wang, co-inventor da tecnologia de tratamento com células-tronco derivadas da placenta e co-investigador principal do estudo.

Agora, o estudo avança para a fase 2 com a participação de 35 pacientes. Segundo os pesquisadores, as crianças serão acompanhadas até os 6 anos para avaliar a segurança a longo prazo e os primeiros sinais de melhora no movimento, função da bexiga e do intestino.

Quais são as limitações do estudo?

Embora os resultados tenham sido animadores, a obstetra Martha Calvente elenca algumas limitações que devem ser melhor avaliadas:

  • Número pequeno de casos: o estudo inicial foi feito com poucos pacientes.
  • Fase inicial (fase 1): o foco principal ainda é segurança, não eficácia definitiva.
  • Falta de seguimento longo: ainda é preciso ver como essas crianças evoluem ao longo dos anos. Mesmo com cirurgia fetal tradicional, ainda há limitações importantes — por exemplo, muitas crianças ainda apresentam dificuldades motoras ao longo da vida, Ou seja, ainda estamos em uma fase promissora, mas inicial.
  • Procedimento complexo: envolve cirurgia fetal, que já tem riscos maternos e fetais.
  • Disponibilidade restrita: requer centros altamente especializados.

A terapia pode fazer parte da rotina dos hospitais?

Como está em fase 1, o procedimento com células-troncos ainda não faz parte da rotina dos hospitais. Conforme os estudos avancem, é possível que ele seja realizado nos centros de saúde. No entanto, o especialista do Sabará Hospital Infantil acredita que a terapia seja indicada apenas para casos específicos.

“Isso porque nem todas as gestantes com espinha bífida são candidatas à cirurgia fetal — existem critérios bem definidos relacionados à idade gestacional, ao tipo e localização da lesão e às condições de saúde da mãe e do bebê”, o médico explica.

É preciso considerar também que a técnica é complexa e exige equipe multidisciplinar experiente, além de acompanhamento rigoroso antes e depois do nascimento.

“No futuro, se os estudos confirmarem benefícios reais, esse método pode se tornar mais disponível. Ainda assim, deverá continuar sendo realizado principalmente em centros de referência, para casos bem indicados”, destaca o especialista.

https://revistacrescer.globo.com/saude/noticia/2026/05 – CRESCER/ SAÚDE/ NOTÍCIA/ Por Amanda Oliveira – 

Powered by Rock Convert
Share.