John Dos Passos, escritor norte-americano, um autor de causas a vencer, fiel a si próprio.

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Um autor de causas a vencer

Fiel a si próprio, o maduro John Dos Passos de “O Brasil em Movimento”, é o mesmo escritor em ascensão que se aliou aos republicanos durante a Guerra Civil Espanhola

Segundo a história literária, um livro nasce de outros. É o que ocorre em grande parte com os de John Dos Passos (Chicago, 14 de janeiro de 1896 – Baltimore, 28 de setembro de 1970), escritor norte-americano que, ao longo de toda a sua obra confirmou ainda que um escritor escreve, insistente, obsessivamente, sempre o mesmo livro. Por outro lado, um livro é a correspondência que mantém com outro(s) livro(s).

E sem forçar demasiado as coisas, é isso que ocorre com alguns livros de John Dos Passos, como O Brasil em Movimento (originalmente aparecido em 1963), e uma obra incontornável, O Ponto de Ruptura/Hemingway, John Dos Passos e o Assassinato de José Robles (2005), de Stephen Koch.

Vamos explicar: a paisagem física e metafísica de O Ponto de Ruptura é a Espanha em 1936-1937, a Espanha do legítimo governo republicano, da revolução militar franquista e da Guerra Civil, e tendo como pano de fundo a indiferença das grandes democracias (Inglaterra, França, Estados Unidos) para com esse conflito. Numa sequência de intensidade dramática crescente, seus intérpretes principais são Ernest Hemingway e o próprio John Dos Passos, na época estrelas literárias em ascensão e amigos íntimos.

O desaparecimento de José Robles – um espanhol de esquerda, de origem burguesa e funcionário da República preso em sua casa numa noite na primavera de 1936 e mais tarde executado – acabaria primeiro distanciando e depois separando os dois autores de maneira irremediável. “Você pensa durante muito tempo que tem um amigo, mas ocorre que não é bem assim”, resumiria mais tarde um desiludido John Dos Passos sobre essa ruptura.

Mas nesse ponto precisamos avançar um pouco mais. Já faz parte da história cultural o fato de a Espanha – naqueles seus transes suicidas e diante dos simbolismos envolvidos na conflagração, além das estratégias de propaganda de republicanos e nacionales, todos em busca de legitimidade e apoio econômico das democracias neutras – atrair um número sem precedentes de artistas, intelectuais e jornalistas.

Segundo o historiador Antony Beevor, em sua obra A Batalha Pela Espanha (1982), “sentimentos burgueses e uma necessidade de sublimar uma identidade privilegiada no âmbito da luta de classes tornaram esses intelectuais recrutas potenciais para as autoridades comunistas”.

Quase todos os recém-chegados obedeciam a uma motivação comum, ou seja, “a fascinação por um conflito de alcance épico comprometido com as forças básicas da humanidade (…). A Espanha era vista como o campo de batalha onde o futuro seria decidido”, como disse o próprio Beevor. E quase todos foram arrebatados por uma comoção espiritual, provocada pelo choque entre ideologia e moral, arte e propaganda, democracia e autoritarismo, objetividade e parcialidade. E no final quase todos comprovariam que a consciência e a honestidade individuais são as primeiras vítimas em situações de convulsão.

Ironias

Na Madri retratada no livro de Koch, o Hotel Florida é o centro das idas e vindas de quase todos os estrangeiros importantes que chegam à cidade. Hemingway, que mantém vínculos com o governo republicano e o alto comando das tropas soviéticas, recebe um tratamento privilegiado, que se estende à jornalista Josephine Herbst e à sua amante Martha Gellhorn. E ele conspira e escreve sem cessar na capital cercada pelos inimigos. Algumas de suas notas como correspondente de guerra serão um modelo do gênero.

John Dos Passos, por seu lado, já famoso com The Big Money (1936), a terceira parte da sua trilogia USA, muito jovem tinha viajado para a Espanha, ficara amigo de Robles (que traduziria para o espanhol seu livro Manhattan Transfer, 1925) e se deixara conquistar pelo país (a cuja voz picaresca dedicou o seu Rocinante Vuelve ao Camino, 1952). Voltava agora para colaborar na produção de um documentário de propaganda republicana dirigido por Joris Ivens, cujo título seria The Spanish Earth. E vinha também para observar o confronto entre uma democracia emergente e um fascismo em ascensão.

Doze anos depois, em 1948, sem renunciar a esses rasgos que lhe eram característicos e que o transformavam num homem de causas a vencer e entusiasmos coletivos, John Dos Passos faria sua primeira visita a um Brasil efervescente e iniciaria as anotações para o que se transformaria no Brazil On the Move (de 1963, como dissemos), publicado pela Record em 1964, cuja tradução levou o título O Brasil Desperta, e que agora sai pela Benvirá como O Brasil em Movimento. Ironias da vida: esse Brasil em ebulição descrito por Dos Passos é o Brasil (ainda) emergente de hoje. E mais uma ironia: vários dos personagens principais de Moveable Feast (1964), ou Paris É Uma Festa – páginas autobiográficas póstumas de Hemingway e da chamada “Geração Perdida” norte-americana – coexistiram na Madri de 1936, testemunhas de um dos divisores de águas ideológico e político do século passado e uma de suas maiores tragédias. Exilados contumazes, esses indivíduos desejavam presenciar o desenvolvimento político, social e cultural de um século 20 que se manifestava com um dinamismo que repercutia em quase todos os lugares.

E também queriam algo mais: inventar uma estética literária renovadora que ficaria conhecida como “modernismo” e que propunha um estilo nervoso e de justaposições significativas envolto numa prosa poética para expor de modo cabal uma época em que parecia que a vida realmente acelerava. A verdade, para eles, era uma recriação íntima da realidade que deixasse um impacto profundo no mundo da escritura.

Assim, Hemingway, Dos Passos, Francis Scott Fitzgerald e Gertrude Stein, entre outros, contemplavam o que ocorria e procuravam imprimir isso em suas páginas. Eram quase todos duplamente radicais: política e esteticamente. Talvez para provar a fidelidade do autor a si próprio e para com seus ideais e convicções, é preciso reconhecer que esses são exatamente os traços estéticos e éticos que persistem, enfraquecidos pelo caminhar do tempo, mas ainda identificáveis e latentes, em O Brasil em Movimento.

Stephen Koch compreendeu que o relacionamento entre Hemingway e Dos Passos na Espanha ilustra uma das questões fundamentais do século passado: questões de raiz ética com integridade. Hemingway é um individualista que confia apenas no esforço pessoal, que procura, a partir de uma patologia agressiva, cumprir o seu destino como artista, que detesta o fascismo e que, talvez por isso, não hesita em aceitar e apoiar as estratégias sectárias armadas pelos membros do Komitern soviético e seus seguidores espanhóis. Para ele, e de maneira militante, a ousadia intelectual se identificava com a aventura física: caçar na selva e escrever romances eram partes orgânicas de um único impulso vital. Hemingway acreditava que uma obra corresponde não só ao que nela está escrito, ao que sabe o autor, mas também ao que o autor é.

Dos Passos, por seu lado, é um homem de estrutura psicológica duvidosa: sua proximidade com as posições anarquistas defendidas pelos catalães da época se acentua com o tempo, e o desaparecimento de José Robles fará com que ele desconfie cada vez mais da retidão da corrente ideológica que orienta os comunistas em particular e aqueles que apoiam a causa republicana em geral. Pois bem: chegará um momento nessa história em que Hemingway, numa reação que envolve vaidade pessoal e ciúmes literários, dará conhecimento ao seu amigo que Robles foi executado pelos comunistas porque descobriram que ele era um “espião fascista”. E ele vai além: acusa Dos Passos de hesitar em apoiar os republicanos. E o afeto que ambos compartilhavam desmorona. Algo íntimo parece se romper para sempre. Daí em diante as preferências ideológicas de John Dos Passos se direcionam para a direita. Hemingway escreverá ainda Por Quem os Sinos Dobram (1940) e O Velho e o Mar (1952) e acabará se suicidando em 1961.

Lembremos que na vida de um artista em geral convivem duas pessoas: uma que vive e outra que crê. A servidão voluntária – que esta história demonstra no caso de Hemingway -, a calúnia e o oportunismo, que são os seus ingredientes mais fortes, constituem, segundo Koch, uma metáfora e uma réplica do que sucedeu no âmago da revolução espanhola. Além disso, para Koch, que se concentra tenazmente na imensa sombra projetada pela União Soviética sobre essa revolução, a Frente Popular que conduzia a Espanha, e dentro dela os comunistas que a comandavam obedecendo a ordens stalinistas e como meio para alcançar o poder total, foram, em grande parte, os maiores responsáveis pelo fracasso da República.

Elo

A versão, apregoada durante anos, segundo a qual a URSS – pátria mãe do proletariado – ajudou a República legal é, para a Frente Popular, algo mais do que uma imprecisão: é uma superstição. Koch não aceita também uma outra observação ortodoxa, que culpa as grandes democracias por terem precipitado a derrota dos republicanos; para a Frente o embargo de armas para a República foi uma resposta – não sem uma dedução hipócrita – ao medo que inspiravam Stalin. Hitler e Mussolini.

Vale a pena sublinhar que as experiências que Hemingway e John dos Passos personificam em O Ponto de Ruptura têm uma mesma origem intelectual e espiritual. Elas obedecem a um fenômeno típico das épocas em que não existe uma segurança ideológica, que conhecemos como conversão – religiosa antes, ideológica no período da revolução espanhola e em épocas posteriores. Um fenômeno de conotações psicológicas e morais que, num transe que interrompe as faculdades anímicas equivalente à hipnose e à amnésia, revela aos envolvidos uma nova dimensão do seu destino e das suas crenças e os coloca, magicamente, no coração palpitante do mundo, numa verdadeira “casa-mundo”. A partir desse hiato, que pode provocar uma mudança positiva ou negativa no tocante às convicções ou às causas anteriores daquele que se converte, o fanatismo e a tarefa missionária se tornam partes constitutivas de um processo perturbador. George Orwell – que em suas experiências após a Primeira Guerra e com a própria Guerra Civil Espanhola passou por uma espécie de travessia do deserto nesses assuntos – expressou com exatidão os extremos entre os que se movem: “between priest and comissar” (entre o padre e comissário).

A história – a marcha da história – constitui a própria vida do homem coletivo e é a expressão complexa da sua existência. Desde seu apoio inicial a Sacco e Vanzetti em 1927, quando foram eletrocutados em Chicago, até suas simpatias pelo picaresco que faz parte da identidade espanhola e para com as propostas dos anarquistas catalães que foram vilipendiados na Guerra Civil, passando por sua adesão ao credo recalcitrante dos políticos republicanos da década de 1940 que chegaram a promover o macarthismo, John dos Passos ziguezagueou, mas manteve incólume sua fé na influência transformadora de uma força humana coletiva e dignificante, e buscou incessantemente exemplos que confirmassem e pudessem se converter numa causa a ser explicada e defendida, quis encontrar o lugar que o indivíduo, só e uno, ocupa nesses transes de repercussões tão amplas.

O Brasil em Movimento representa um elo (um elo mais débil que outros, mas um elo) nessa cadeia que durou toda uma vida. Embora use e abuse dos clichês, incorra em erros bárbaros, o livro traça um retrato interessante e sensível do Brasil de meados do século 20 manifestando uma simpatia para com o país que, com muita frequência, se traduz numa autêntica empatia. Ele narra, reflete e faz um balanço, aprova e discrimina.

Do Brasil que exibe uma “orgia de latrinas”, ele se volta para o Brasil que abre estradas e constrói pontes – com a ajuda pontual, esclarece, do governo norte-americano porque, a partir do capítulo sétimo, intitulado O Homem Mais Perigoso do Brasil, o livro se aprofunda na questão das ideologias dominantes na época e defende a partir daí a mescla de messianismo benfeitor e redenção humanitária que é a marca do autor, claramente reconhecida nessa fase da sua vida. O livro, definitivamente, é um clássico de menor importância. Ao relê-lo não há dúvida que Dos Passos encontrou neste país de seus amores quase provectos mais uma das suas inúmeras (e missionárias) causas a defender. Também fica comprovado, folheando estas páginas cinquentenárias, que as estruturas sociais e a maneira de pensar mudam, mas ao seu capricho – e pouco a pouco.

(Fonte: http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer – Notícias > Cultura/ Por Daubio Torres Fierro – 01 de março de 2013)

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