Aligi Sassu, mestre italiano da pintura figurativa

0
Powered by Rock Convert

 

 

Aligi Sassu

Aligi Sassu

 

Um veterano da pintura contemporânea europeia

Aligi Sassu (17 de julho de 1912 – Pollenza, 17 de julho de 2000), mestre italiano da pintura figurativa. O pintor italiano tinha tudo para ser uma fraude. Depois de estrear na Bienal de Veneza de 1928 aos 16 anos como um adepto do futurismo, ele se deixou influenciar por nada menos que cinco diferentes escolas artísticas dos últimos dois séculos. Além de pintor, Aligi Sassu foi também desenhista, gravador, ceramista e escultor. A pintura foi a porção mais importante de sua obra.

 

Do romântico francês Eugène Delacroix (1798-1863), de quem se declarou um discípulo na juventude, Sassu herdou a obsessão pela cor e pela dramaticidade. Não satisfeito, foi buscar nos impressionistas franceses as pinceladas rápidas e o gosto pelas paiasagens. Ainda não foi o bastante.

 

Dos expressionistas alemães, o pintor, que foi militante antifascista na juventude, adquiriu a predileção pelo naturalismo e pela denúncia social. Do Pablo Picasso da fase rosa, Sassu absorveu a sensualidade e os tons cálidos. Finalmente, do fovista Henri Matisse, outro admirador confesso de Delacroix, o italiano aproveitou as formas simples para amenizar o excesso da cor.

 

Artista precoce, já na adolescência ele começaria a pintar. Depois da Bienal de Veneza de 1928, na época o evento mais importante do calendário europeu, Sassu se distanciaria dos ideais futuristas de louvor à máquina e à velocidade, aproximando-se da crítica social. No começo dos anos 30, o artista inicia sua militância contra o fascismo, opondo-se frontalmente ao grupo artístico Novecento, apoiado por Mussolini em sua estética ufanista.

 

Capitaneado pelo pintor Mario Siruso, o Novecento, abordava temas como a terra farta, o trabalho viril e a família. Em 1934, durante sua primeira viagem a Paris, Sassu conhece e se apaixona pela obra de Delacroix presente no Museu do Louvre. No ano seguinte, quando volta à Itália, é preso e condenado por integrar a resistência europeia. Solto, em 1938, Sassu incorpora definitivamente a metáfora política em seu trabalho. Naquele momento, ao resolver a difícil equação entre cor, denúncia e sonho, a pintura de Aligi Sassu se torna original.

 

Nem fraudulenta nem esquizofrênica, a arte de Aligi Sassu ocupou um lugar de honra na pintura italiana do pós-guerra. O poder narrativo de sua paleta pôde ser apreciado numa mostra retrospectiva com 83 quadros, em cartaz no Museu de Arte de São Paulo, o Masp, de 25 de abril ao dia 3 de maio de 1992.

 

Sempre carregando nas tintas, as telas desse mestre do realismo fantástico não discriminam os personagens segundo temas, sexo, posição social ou época. Sejam eles Jesus Cristo, os cardeais do Concílio de Trento, prostitutas, moços tristes ou cavalos em disparada. Embora não faça parte do pelotão de frente dos figurativos italianos modernos, como Morandi, Vespignani, Guttuso, De Chirico e Fabrizio Clerici (1920-1993), Aligi Sassu foi um dos vinte maiores pintores realistas do século XX.

 

oexploradorPowered by Rock Convert

SEM MÚSCULOS – O melhor do pintor são as telas pintadas entre as décadas de 30 e 40, como os Homens Vermelhos, que fizeram parte de uma série de mais de 500 trabalhos sobre cartão e desenhos, realizados entre os anos de 1929 e 1934. São quadros em que o pintor enfoca situações cotidianas de um grupo de rapazes nus. Não há nenhum vestígio de heroísmo ou erotismo nos moços. Eles jogam cartas, dividem a cena com cavalos igualmente mansos, ou simplesmente permanecem sentados e quietos. Na época, numa Itália já dominada pelo fascismo, enquanto o país vivia o culto da virilidade militar, Sassu ousou criar jovens sem músculos.

 

Ao contrário do que o uso sistemático de cores fortes possa sugerir, a arte de Aligi Sassu não esteve a serviço do otimimo. Pintando cafés, outro de seus temas mais frequentes, ele faz com que as pessoas pareçam sonâmbulas e alienadas, conforme atesta o óleo sobre tela Café San Babila, de 1951.  Quando troca a melancolia pela fúria, o pintor geralmente comprime centenas de figuras na mesma tela. É o caso da Batalha dos Cavaleiros, pintada em óleo sobre tela em 1941. À moda de Delacroix, Sassu mistur cavalos e cavaleiros em movimento, de tal forma que, juntos, eles se assemelhem a uma fogueira.

 

SOMBRA PESADA – Um efeito semelhante é sugerido em O Concílio de Trento, mais um quadro sobre tela de 1942. Reunidos para se pronunciar sobre a Contra-Reforma, os cardeais e suas vestes resultam numa engrenagem cheia de brilho e arestas contra um fundo púrpura. Sassu não teve medo de dar um substrato literário à pintura. Ele soube, como ninguém no século XX, agarrar o sentido da tensão romântica. Exceto em seu começo futurista, quando flertou com a abstração e a distorção das figuras, produzindo pinturas como Nu Plástico, que exibiu na Bienal de Veneza de 1928, o artista sempre se manteve figurativo. 

 

Assim como o Picasso do cubismo,  Aligi Sassu desprezou a noção de sombreado quando tingiu algumas de suas figuras. O sombreado foi um recurso convencional da pintura usado para criar a ilusão de perspectiva. A opção do pintor milanês pelo efeito contrário fica evidenciado no quadro Bianca di San Carpoforo, em têmpera sobre cartão, de 1947. Nele, seminua, a prostituta Bianca é envolta por uma nuvem de traços verticais, que, em vez de destacá-la do fundo, em que se vêem uma escada e o balcão do bordel, achatam ainda mais sua silhueta pesada.

 

Casado desde 1972 com a soprano colombiana Helenita Olivares, o artista fazia esporadicamente incursões pela cenografia, com trabalhos para o teatro lírico Scala, de Milão. Desde 1963, dividia seu tempo entre a Itália e uma casa que mantinha na ilha espanhola de Maiorca. Um de seus últimos trabalhos foi um mural encomendado pela sede da Comunidade Econômica Europeia em Bruxelas.

Aligi Sassu morreu em 17 de julho de 2000, aos 88 anos em sua casa em Pollenza, a 60 quilômetros ao sul de Palma de Mallorca (Espanha), vítima de um ataque cardíaco.

 

 

(Fonte: Veja, 22 de abril de 1992 – ANO 25 – Nº 17 – Edição 1231 – ARTE/ Por ÂNGELA PIMENTA – Pág: 92/93)

 

 

 

 

 

Powered by Rock Convert
Share.