Jürgen Habermas, filósofo e intelectual alemão, teórico da ‘esfera pública’
Intelectual foi voz central na defesa da democracia e na crítica dos crimes do nazismo.
Do diagnóstico sobre os meios de massa ao debate com os pós-modernistas, o filósofo alemão construiu ao longo de décadas um dos sistemas de pensamento mais influentes do século 20
Jürgen Habermas (nasceu em 18 de junho de 1929, em Düsseldorf — faleceu em 14 de março de 2026, em Starnberg, nos arredores de Munique), filósofo e sociólogo alemão, um dos principais pensadores sobre democracia e “esfera pública” que escreveu por mais de seis décadas sem que sua produção perdesse coerência ou relevância. Cada obra avança sobre as anteriores, aprofundando conceitos, respondendo a críticas e atualizando o diálogo com o presente.
De 1949 a 1954, estudou filosofia, história, psicologia, literatura alemã e economia em Göttingen, Zurique e Bonn.
Lecionou, entre outras instituições, nas Universidades de Heidelberg e Frankfurt am Main, bem como na Universidade da Califórnia, Berkeley, e foi diretor do Instituto Max Planck para o Estudo das Condições de Vida do Mundo Científico-Técnico, em Starnberg.
Habermas recebeu inúmeros doutorados honoris causa e prêmios, incluindo o Prêmio da Paz da Indústria Livreira Alemã (2001) e o Prêmio Kyoto (2004).
A ‘esfera pública’
Habermas dedicou sua vida ao estudo da democracia, especialmente por meio de suas teorias sobre a racionalidade comunicativa e a esfera pública, sendo considerado um dos mais importantes intelectuais contemporâneos.
Herdeiro da Escola de Frankfurt – onde foi assistente de Theodor Adorno -, ele não se contentou em herdar o pessimismo de seus antecessores diante da modernidade. Preferiu apostar que a razão, longe de estar perdida, poderia ser recuperada pelo caminho do diálogo.
Essa aposta tomou forma em sua obra Teoria do Agir Comunicativo (1981). Ali, Habermas distingue a ação estratégica, orientada por objetivos individuais, sem abertura para os argumentos alheios, da ação comunicativa, em que há um espaço de diálogo genuíno, no qual se pensa coletivamente sobre quais objetivos uma sociedade deve perseguir.
Dessa distinção nasceu o núcleo de sua filosofia política: a ideia de que a legitimidade democrática não vem da força nem do mercado, mas do entendimento alcançado entre pessoas livres e iguais.
A partir da ação comunicativa, Habermas elaborou o conceito de política deliberativa, realizando uma síntese entre o liberalismo e o republicanismo: uma conciliação entre a autonomia privada e a pública, entre os direitos humanos e a soberania popular. Para ele, não havia contradição entre ser livre individualmente e participar ativamente da vida coletiva; ao contrário, uma dependia da outra.
Essa visão ganhou contornos institucionais em Direito e Democracia: Entre Facticidade e Validade (1992), obra em que Habermas buscou dar consequências práticas às pretensões de sua teoria da ação comunicativa como resposta ao problema da integração social no contexto das sociedades pós-tradicionais.
A esfera pública, um espaço informal de debate que vai das conversas cotidianas às manifestações políticas, era, para ele, a categoria normativa central do processo político deliberativo: uma estrutura intermediária que faz a mediação entre o Estado e os setores privados do mundo da vida.
O resultado é uma das obras filosóficas mais consistentes e abrangentes da segunda metade do século 20. A seguir, as obras que definiram esse percurso.
7 livros essenciais para entender a obra de Jürgen Habermas
‘Mudança Estrutural da Esfera Pública’ (1962)
O livro de estreia de Habermas já anuncia seu programa intelectual. Nele, o filósofo reconstrói historicamente o surgimento da esfera pública burguesa na Europa do século 18 — os salões, os cafés, a imprensa — e diagnostica sua deterioração no século 20, quando os meios de massa passaram a substituir o debate racional pelo consumo cultural. A tese central é de que a democracia depende de um espaço público em que cidadãos se encontrem como iguais para deliberar. A obra permanece referência obrigatória nos estudos de comunicação, sociologia e ciência política.
‘Conhecimento e Interesse’ (1968)
Publicado no auge das convulsões de 1968, o livro enfrenta uma pergunta central: o conhecimento é neutro? A resposta de Habermas é não. Todo saber, ele argumenta, é guiado por interesses — técnicos, práticos ou emancipatórios. A ciência positivista, ao fingir-se neutra, oculta sua submissão ao interesse de controle e domínio da natureza. Habermas reivindica o lugar de uma ciência social crítica, comprometida com a emancipação humana. O livro marcou sua ruptura definitiva com o positivismo e firmou seu lugar como herdeiro crítico da Escola de Frankfurt.
‘Teoria da Ação Comunicativa’ (1981)
A obra mais ambiciosa de Habermas, em dois volumes, é também seu monumento teórico. Nela, ele distingue dois tipos fundamentais de racionalidade: a instrumental, voltada para fins e eficiência, e a comunicativa, orientada para o entendimento mútuo entre sujeitos. Com essa distinção, Habermas constrói uma teoria crítica da modernidade que não abre mão das promessas iluministas de razão e emancipação, mas as refunda sobre bases comunicativas. A obra transformou profundamente a filosofia, a sociologia e a teoria da comunicação.
‘O Discurso Filosófico da Modernidade’ (1985)
Neste livro, Habermas travou sua batalha mais conhecida com os pós-modernistas. Em uma série de conferências sobre Nietzsche, Heidegger, Foucault, Derrida e outros, ele argumentou que o pós-modernismo, ao renunciar à razão, cai em um paradoxo: usa a razão para negar a razão. Para Habermas, a saída não era abandonar o projeto iluminista, mas corrigir o que estava errado. O livro definiu os termos de um debate que marcou a filosofia ocidental nas décadas seguintes e ainda ecoa nos debates contemporâneos sobre relativismo e verdade.
‘Direito e Democracia: Entre Facticidade e Validade’ (1992)
Considerado por muitos o complemento indispensável da Teoria da Ação Comunicativa, o livro aplica os conceitos habermasianos ao campo do direito e da teoria democrática. Habermas argumenta que a legitimidade das normas jurídicas depende de sua origem em processos deliberativos públicos, não da força ou da tradição. Com isso, ele propõe uma conciliação entre o liberalismo e o republicanismo: os direitos individuais e a soberania popular não são antagônicos, mas mutuamente dependentes. A obra tornou-se referência central na filosofia do direito e na teoria constitucional.
‘A Inclusão do Outro’ (1996)
Reunindo ensaios sobre pluralismo, multiculturalismo e cosmopolitismo, o livro enfrenta a pergunta de como democracias liberais devem lidar com a diversidade cultural e com a diferença. Habermas defende que a inclusão do outro não exige assimilação nem relativismo cultural, mas o reconhecimento de uma base normativa comum fundada na razão comunicativa. O livro ganhou importância renovada diante do avanço dos nacionalismos e dos debates sobre imigração que marcariam as décadas seguintes.
‘Uma Nova Mudança Estrutural da Esfera Pública’ (2022)
Aos 92 anos, Habermas retornou ao tema de sua obra de estreia para analisar o impacto das redes sociais e das plataformas digitais sobre a democracia. O diagnóstico é preocupante: os algoritmos fragmentam o espaço público em bolhas, enfraquecem as instituições mediadoras e favorecem a comunicação emocional e reativa em detrimento do debate racional. Mas Habermas não abandona o otimismo normativo: a esfera pública democrática continua sendo um ideal a perseguir, mesmo em condições adversas. O livro demonstrou que, mesmo no final da vida, ele permanecia um interlocutor do presente.
Trajetória
Nascido em Düsseldorf, na Alemanha, em 1929, Habermas se tornou um crítico da política europeia, era considerado um dos pensadores mais influentes do mundo contemporâneo.
Nos anos 80, protagonizou a chamada “Disputa dos Historiadores”, onde combateu tentativas de pensadores conservadores de relativizar os crimes nazistas ao compará-los com outros regimes autoritários.
Escola de Frankfurt
Principal expoente da segunda geração da Escola de Frankfurt, Habermas dedicou sua obra a temas como linguagem, racionalidade e a construção da esfera pública.
Sua trajetória foi profundamente marcada pela derrota da Alemanha nazista em 1945, quando tinha 15 anos. O impacto de descobrir a realidade dos crimes do regime foi o que o impulsionou para a filosofia.
Influência política
Ao longo de décadas, ele manteve uma relação ativa com o poder. Em alguns momentos apoiando líderes de centro-esquerda, em outros criticando o que chamava de abordagens “tecnocráticas” da política alemã.
Foi também um ferrenho defensor da União Europeia, elogiando vozes que buscavam uma integração política mais eficaz do bloco.
O filósofo era viúvo de Ute Habermas-Wesselhoeft, falecida em 2025. Ele deixa dois filhos, Tilmann e Judith.
A informação foi confirmada pela sua editora, Suhrkamp.
(Direitos autorais reservados: https://www.terra.com.br/diversao – ESTADÃO conteúdo/ DIVERSÃO/ Por: Matheus Mans – 14 mar 2026)
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