Yordan Raditchkov, mestre da narrativa búlgara, também chamado de “o Kafka de Sófia”

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O Kafka dos camponeses

Prêmio Cavour, na Itália, e Prêmio Estrela do Norte, do Estado sueco.

Yordan Dimitrov Raditchkov (Montana, Bulgária, 24 de outubro de 1929 – Sófia, Bulgária, 21 de janeiro de 2004), mestre da narrativa búlgara, um dos autores mais importantes de seu país, também chamado de “o Kafka de Sófia”

Yordan Raditchkov escreveu mais de 60 obras, entre novelas, roteiros de filmes, romances, notas de viagens e peças teatrais. Começou a publicar em 1949. Em 1959, sai o primeiro livro de contos.

Autoditada e jornalista, Raditchkov escreveu também livros de viagens, entre os quais: Currais sem Luzes, sobre a Sibéria e Pequena Saga sobre a Suécia. A narrativa e a dramaturgia de Raditchkov são culminações búlgaras daquilo que Bakhtin chamou de carnavalização da literatura.

Raditchkov nasceu em outubro de 1929, e que nunca se opôs à comparação com García Márquez, deixou uma obra extensa repartida entre narrativas de viagem, roteiros para cinema, novelas e contos publicados em mais de 30 idiomas, além de cerca de uma dezena de peças de teatro apresentadas em diversos países da Europa e nos EUA. 

Em “Contos de Tenetz” traz a ficção onírica do búlgaro, que numa pequena aldeia búlgara, a cada movimento dos personagens o tempo retrocede ao dia anterior. Somente a imobilidade assegura a permanência do presente e o espectro do futuro. Toda vez que um gato salta sobre o corpo de um defunto, a alma do morto, em vez de migrar para o mundo do além, transforma-se num Tenetz, versão mais doce do tradicional vampiro, desejoso de ser útil aos vivos.

 

A condição humana vista por um mestre da narrativa

A condição humana vista por um mestre da narrativa

 

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Peixes que moram em árvores, um hieróglifo que se eleva no céu com a aurora, moscas que falam ao telefone, criaturas imaginárias devastadoras para o homem e para a natureza, mortos que retornam invisíveis para assombrar camponeses crédulos: a coleção de contos de Yordan Raditchkov (“Contos de Tenetz”) parece ter sido tecida por um Borges eslavo, mágico, inspirado em telas oníricas de Chagall.

O folclore, as superstições e a sabedoria da gente simples do campo compõem um cenário em que volta e meia irrompe inesperada a crítica áspera à realidade contemporânea. Nesses momentos, a linguagem poética é subvertida pela aparição da imagem de Mao Tse-tung, pela evocação das duas grandes guerras ou pela menção às cooperativas fomentadas pelo comunismo.

 

Yordan Raditchkov (Foto: Babelio/Divulgação)

Yordan Raditchkov (Foto: Babelio/Divulgação)

 

Paradoxo
Para fugir do olhar controlador do realismo socialista -uma vez que escreveu grande parte de sua obra antes da queda do Muro-, Raditchkov contrapôs ao “heroísmo revolucionário” o paradoxal e o absurdo. O refúgio na sabedoria camponesa foi a sua resposta a uma sofisticação tecnológica que não parece resgatar o homem de um provincianismo crescente.

Um dos contos, “A Palavra”, celebra a força da linguagem. “Eis o que pode fazer a palavra -este grande milagre- desde que saibamos botá-la a trabalhar. […] Quando tudo o mais cai de joelhos, a palavra é que nos socorre.” Raditchkov nos socorre da mediocridade cotidiana por meio dessas narrativas alegóricas que lemos com um sorriso nos lábios, antecipando o enigma que nos espreita a cada parágrafo.

Yordan Raditchkov morreu em janeiro de 2004, aos 74 anos de idade. Com a sua morte, a Bulgária perdeu o autor mais lembrado como candidato ao que seria o primeiro Prêmio Nobel de Literatura concedido a esse país.

Rumen Stoyanov, por mais de uma vez adido cultural da Bulgária no Brasil, e Anderson Braga Horta, poeta, contista e crítico literário mineiro, assinam a tradução, que alcança momentos de grande inspiração. Stoyanov verteu para o búlgaro os principais autores latino-americanos e inúmeros romancistas e poetas brasileiros. A publicação de “Contos de Tenetz” evidencia uma vez mais a importância das traduções que nos aproximam da literatura de países culturalmente mais distantes de nós, carentes das máquinas de propaganda dos poderosos.

(Fonte: http://www1.folha.uol.com.br – + livros/ Por PAULO SCHILLER ESPECIAL PARA A FOLHA – 29 de maio de 2005)

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