O primeiro fotógrafo brasileiro a ter uma visão jornalística dos acontecimentos

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Augusto César Malta (Mata Grande, 14 de maio de 1864 – Rio de Janeiro, 30 de junho de 1957), pioneiro da fotografia jornalística que a partir de 1914, contratado pelo prefeito Pereira Passos, registrou cenas do Rio de Janeiro.

Esse acervo histórico foi doado ao Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, com aproximadamente 400 000 fotos que compunham esse esplêndido material fotográfico, a importância da preservação da memória nacional, e valorizam o trabalho dos pesquisadores da história do século XXI.

Augusto Malta, dono da memória fotográfica do Rio de Janeiro

No início do século XX, um fotógrafo se destaca em meio às reformas urbanísticas orquestradas pelo prefeito Francisco Pereira Passos (1902-1906): Augusto César Malta de Campos, um fotógrafo que assumiu o projeto das elites e cujas imagens da cidade ajudaram a construir, para o Rio de Janeiro, o Rio da Belle Époque, a imagem de —vitrine do Brasil“.

Augusto Malta nasceu em Mata Grande (AL), então Paulo Afonso, a 14 de maio de 1864. Sobre sua família, mesmo em casa, com os filhos, Malta foi sempre muito reservado, não falando sobre o passado. Sabe-se apenas que um tio seu, Euclides Vieira Malta, foi presidente do estado de Alagoas entre 1900 e 1912.

Seu pai, escrivão da cidade, cedo decidiu mandá-lo para a casa do padre Castilhos, padrinho de Malta, para que pudesse completar sua alfabetização. Com ele, Augusto Malta aprendeu também rudimentos do latim, e, já adolescente, optou pela carreira militar. Fixou-se então em Recife, onde sentou praça. Em maio de 1888, ainda na capital pernambucana, participou de comícios e passeatas em apoio à abolição da escravatura.

Em fins de 1888, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde se empregou na firma de Leandro Martins como auxiliar de escrita. Já no ano seguinte era promovido a guarda-livros. Republicano, participou dos acontecimentos de 15 de novembro de 1889, tendo empunhado o porta-estandarte do Centro Republicano Lopes Trovão, à frente dos populares que se dirigiam ao Paço Municipal e então localizado na atual Praça da República.

A partir de 1894, aproximadamente, Augusto Malta estabeleceu seu próprio escritório de guarda-livros, a ”Casa Ouvidor” – situada na Rua do Ouvidor, esquina com Uruguaiana. Esta, no entanto, teve curta existência: segundo o próprio Malta —em oito meses [perdera]20 contos […], [ficando]que nem caburé no oco do pau em dia de chuva“. Decidiu então visitar a família em Alagoas. Ao retornar ao Rio trazia, além de algum dinheiro, vários irmãos, para quem arranjaria colocação. Por seu lado, Malta passou a dedicar-se ao comércio de secos e molhados, instalando sua loja onde hoje é a Avenida Marechal Floriano, então Rua Larga de São Joaquim.

Novo insucesso levou-o a comerciar tecidos finos por amostra, atividade em que passou a empregar, no lugar do cavalo, uma bicicleta, com a qual percorria diariamente, e com maior rapidez, a freguesia. Além de permitir conhecer as famílias mais importantes da cidade, esta nova atividade também possibilitou a malta adquirir um amplo conhecimento da cidade que pouco mais tarde se tornaria o alvo predileto de suas lentes.

Trocando a bicicleta por uma câmara fotográfica

Foi em 1900 que Augusto Malta teve seu primeiro contato com a fotografia, embora ainda como amador. Tudo começou com a oferta feita por um de seus fregueses, para trocar a bicicleta por uma câmara fotográfica: Segundo sua filha, —[tudo]começou com uma pequena máquina, que ele trocou pela bicicleta. […] Era o instrumento de trabalho dele, mas ele trocou por essa pequena máquina. Daí, ele começou a tirar [fotos], e tomou gosto.“ A partir desse momento, Malta passou a registrar não apenas amigos e familiares, mas também o Rio de Janeiro, cidade que, pelo menos até 1936, foi o alvo principal de sua lente. Sua experiência acabou por transformá-lo no primeiro fotógrafo brasileiro a ter uma visão jornalística dos acontecimentos.

Em 1903, no início da gestão de Francisco Pereira Passos, Augusto Malta foi levado pelo amigo Antônio Alves da Silva Júnior, fornecedor da Prefeitura, para fotografar algumas das primeiras obras do novo prefeito. Entusiasmado com o resultado obtido pelas fotografias, Pereira Passos ofereceu a Malta o cargo de fotógrafo documentalista da Prefeitura, até então inexistente e que foi criado especialmente para ele. Como tal, sua função seria —fotografar a execução e a inauguração de obras públicas […]; documentar logradouros públicos que teriam seus traços alterados; fotografar estabelecimentos ligados ao Município (escolas, hospitais, asilos), prédios históricos que seriam demolidos, festas organizadas pela Prefeitura (escolares, religiosas, inaugurações e comemorações cívicas), e ao mesmo tempo flagrantes do momento, como ressacas, enchentes, desabamentos etc.“ (Berger, [1979?]:3).

Em suma, algo que correspondesse ao esforço conjunto da Prefeitura e do governo federal para a transformação do Rio de Janeiro em uma metrópole nos moldes europeus. Mas, principalmente, que deixasse fotograficamente documentado tanto o atraso anterior, quanto a grandiosidade de cada uma das obras que não podemos nos esquecer que a fotografia era vista então como a mais
real e fiel expressão de um acontecimento. Mas Malta deveria registrar principalmente os resultados obtidos. Em outras palavras, documentara transformação de uma cidade ainda tipicamente colonial em uma verdadeira metrópole, e através dela —civilizar“ os hábitos e costumes da população.

Uma vez criado o cargo de fotógrafo, subordinado à Diretoria Geral de Obras e Viação da Prefeitura, Malta foi contratado, tendo assumido as novas funções em 23 de junho de 1903: —Daí por diante, transformei-me em fotógrafo oficial […]. Passos foi um grande animador da minha arte, dava-me conselhos e protegia-me […]. Cedo compreendi o valor desse trabalho para a história do Rio […]“ (Nosso Século, 1980:60). Logo, contudo, Malta teve ampliado o âmbito de suas funções, passando a acompanhar o dia-a-dia do prefeito que incluindo-se aí os passeios à Floresta da Tijuca com as personalidades estrangeiras que visitavam o Rio, como o secretário de Estado norte-americano Elihu Root e a atriz italiana Tina di Lorenzo -; flagrantes da família Passos e fotos de estúdio do prefeito e de seu filho, o também engenheiro Francisco de Oliveira Passos.

A intensidade do trabalho desenvolvido junto à Prefeitura, bem como o fato de residir nas dependências do Palácio Municipal que onde também tinha seu laboratório que intensificou a ligação de Augusto Malta com a fotografia. Já em 1905, entusiasmado com os cartões postais, o fotógrafo filiou-se à Sociedade Cartófila Emmanuel Hermann, como sócio-fundador nº 148. A partir dos anos de 1910 passou a editá-los, tendo criado para este fim a série Edições Malta (Belchior, 1986: 11). Outras imagens foram por ele editadas como postais através da casa ”Photo Rio Branco”.

São muitos os indícios da identificação existente entre o fotógrafo e o projeto de modernização urbanística do prefeito, embora ainda não se saiba até onde ela ia. No entanto, não podemos esquecer de que Malta, desde seu tempo de fotógrafo amador sempre se preocupou em registrar os usos e costumes da

Os primeiros cartões postais circularam no Brasil ainda em finais do século XIX. No Rio de Janeiro, a remodelação urbanística determinada pela administração Pereira Passos representou o auge da procura por esse tipo de imagem.

População carioca. Seria uma simples preocupação em reter —a fisionomia de uma cidade que estava sendo destruída, para ceder lugar a […] outra“ (L. Carvalho, 1982:19), e deste modo valorizar o novo, o moderno, ou algo bem mais amplo, voltado para o registro da sociedade como um todo?

Os álbuns fotográficos produzidos por Malta eram encaminhados ao prefeito, que, de posse deles, recebia os proprietários dos imóveis para negociar o valor da desapropriação. Os registros fotográficos serviam assim de prova por parte da prefeitura, nos casos de questionamento dos valores estabelecidos pela Prefeitura. Em 1905, na Mensagem enviada ao Conselho Municipal, Pereira Passos enfatizou a importância da atuação do laboratório fotográfico da Diretoria de Obras e Viação, cujos trabalhos permitiriam às gerações futuras tomar conhecimento da exata proporção das reformas desenvolvidas por sua gestão. Neste mesmo sentido, neste mesmo ano, podemos verificar a publicação do livro Rio de Janeiro, de autoria de Ferreira da Rosa, em edição oficial da Prefeitura. Este trabalho de registro visual da cidade se estendeu além da gestão de Pereira Passos, tornando-se uma prática comum entre os prefeitos, como André Gustavo Paulo de Frontin (1919-1920) e Carlos César de Oliveira Sampaio (1920-1922).

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O reconhecimento, no entanto, não impediu a extinção de cargo de fotógrafo em 1909, no mesmo ano em a Prefeitura empregava alguns dos registros fotográficos de Augusto Malta para ilustrar o guia que publicava sobre o Rio de Janeiro, La ville de Rio de Janeiro et ses environs. A partir de então ficou subordinado à Subdiretoria de Serviços da Carta Cadastral, órgão da Diretoria de Obras e Viação. Somente quatro anos mais tarde, já em 1913, o cargo foi recriado e ele reassumiu as funções. Neste meio tempo, Malta publicou o álbum geral do Brasil, em edição do autor, onde apresentava imagens inéditas de cidades brasileiras, em especial do Rio de Janeiro.

Por outro lado, a convivência com Pereira Passos, deu a Malta a oportunidade de entrar em contato com pessoas que integravam, na expressão de sua filha Amaltéa Carlini, a ”nata da sociedade”. Isto, mais tarde, quando abriu seu próprio estúdio, lhe serviu de cartão de apresentação, garantindo muitos convites de particulares para registrar festas, casamentos, batizados, acontecimentos em geral, além de garantir contratos de prestação de serviços para firmas como a Companhia de Seguros Sul América e a Light.

Durante todo o período em que exerceu a função de fotógrafo da municipalidade, entre 1903 e 1936, Augusto Malta trabalhou quase sempre sozinho, sem qualquer tipo de ajudante ou colaborador – salvo em 1922, quando o acúmulo de trabalho provocado pela Exposição do Centenário da Independência levou-o a contratar, às suas próprias custas, o irmão Teófilo (Carlini, 1980). Em termos técnicos, manteve-se sempre fiel ao seu equipamento, só admitindo mudanças a partir do momento em que o filho Aristógiton passou a trabalhar com ele. Foram então introduzidas câmaras americanas e alemãs, as mais modernas então existentes. Mesmo assim, até praticamente os 90 anos continuou a fotografar com chapas de vidro, optando, no entanto, pelas de tamanho mais reduzido, como as de 13 cm por 18 cm.

Em Malta, a noção de documento assumia sua mais ampla dimensão na imagem produzida, já que boa parte delas apresentava a identificação de sua autoria nos negativos de vidro de hábito até então não muito empregado. Nos diversos acervos que possuem registros fotográficos de Malta encontramos uma diversidade de assinaturas, variando de ”Malta”, ”A. Malta”, ”Augto Malta”, ”Malta Phot.”, e chegando a um carimbo colocado no verso da imagem, com os dizeres: ”Aug. Malta/Fot./tel 22 8684″. Freqüentemente anotava também da data, lugar ou quaisquer outras informações que considerasse necessárias. Algumas delas – normalmente registros no início de sua carreira -, chegam a apresentar as condições técnicas do registro, com indicações sobre as condições climáticas, abertura do diafragma e o tempo de exposição. Tudo era registrado nas chapas com uma pena e tinta nanquim, escritas de trás para frente á que eram negativos.

Augusto César Malta de Campos foi o responsável direto pelo surgimento no Brasil da reportagem ilustrada, tendo cedido a jornais e revistas da época – como Kosmos, Illustração Brasileira, Revista da Semana e Fon-Fon – fotografias de acontecimentos importantes. Hoje encontramos publicadas reportagens fotográficas de sua autoria, cobrindo eventos e acontecimentos como a ressaca de 1906; o ”suicídio do quiosque 124″; a chegada de Elihu Root; o desabamento do prédio do Clube de Engenharia; e a revolta da Chibata em 1910. Para Boris Kossoy (1980:85), —seria difícil imaginar algum tema que Malta não tivesse registrado […]. em Malta já se percebe o fotógrafo preocupado com o registro espontâneo, dada sua abordagem direta […]. Habituado à observação da movimentação urbana pela própria natureza de seu trabalho profissional, Malta inaugura o fotojornalismo brasileiro“ (op. cit.: 85-86).

A partir de 1932, a Diretoria Geral de Obras e Viação foi substituída pela Diretoria Geral de Engenharia. Com a reforma, Augusto Malta agregou às suas atividades habituais a organização do arquivo fotográfico e histórico do material produzido. Para tanto, deveria também —fornecer ao Arquivo Público as fotografias relativas ao desenvolvimento da cidade ou de cerimônias realizadas“ (Augusto Malta, 1994: 17). Quadro anos depois, a 25 de agosto – mês em que foi comemorado o centenário de Pereira Passos -, Augusto Malta aposentou-se como fotógrafo oficial da Prefeitura do Distrito Federal. No cargo, foi substituído por seu filho Aristógiton, que até então fora seu auxiliar. A fotografia, contudo continuou a fazer parte de seu cotidiano. Malta continuou a praticá-la até poucos anos antes de sua morte.

Augusto César Malta de Campos faleceu no Rio de Janeiro a 30 de junho de 1957. Foi casado com Laura de Oliveira Campos (falecida em 1904), com quem teve quatro filhos: Arethusa (morta em 1913), Aristocléa, Luttgardes, Callestenis (1900-1919), e Aristógiton. E em segundas núpcias com Celina Augusto Verscheuren Malta de Campos, mãe de Dirce, Eglé, Uriel e Amaltéa.

Ao longo dos quase 50 anos em que atuou como fotógrafo, produziu mais de 30 mil registros, entre negativos de vidro e chapas fotográficas, a maior parte perdida ou estragada pela ação do tempo ou à pouca valorização dada a eles pelas sucessivas administrações municipais. A pequena parcela que sobreviveu ao tempo encontra-se espalhada em diversas instituições de memória da cidade do Rio de Janeiro, como o Arquivo Geral da Cidade, o Museu da Imagem e do Som, Museu da República, e Casa de Rui Barbosa, além de empresas como a Light. São registros documentais que possibilitam a (re)construção da evolução do espaço urbano do Rio de Janeiro, assim como contribuem significativamente para a (re)construção de sua história e política, social, cultural, arquitetônica e artística daquela que durante toda sua existência profissional foi a capital do país.

(Fonte: Veja, 28 de maio de 1980 – Edição 612 – DATAS – Pág: 88)
(Fonte: http://portalaugustomalta.rio.rj.gov.br/blog-post – Augusto Malta, dono da memória fotográfica do Rio de Janeiro/ Por Regina da Luz Moreira – 13.10.2008)

FONTES:

• ATHAYDE, Raymundo de. —Malta; o que fotografou Passos e Rio Branco“. Revista da Semana, de –/12/1945. (Edição de Natal).

• AUGUSTO MALTA: catálogo da série negativo em vidro / Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro; coordenação Elizabeth Cristina Marques de Loureiro. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, Departamento Geral de Documentação e Informação Cultural, Divisão de Editoração, 1994. (Biblioteca Carioca, v. 29).

• BERGER, Paulo (coord.) O Rio de ontem no cartão postal: 1900-1930. Rio de Janeiro; RIOARTE, 1986.

• Fotografias do Rio de ontem -A.Malta. Rio de Janeiro, Secr. Municipal de Educação e Cultura, [1979?]. (Col. Memória do Rio; v.7).

• CARLINI, Amaltéa Malta. Depoimento ao Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro (20 de março de 1980).

• CARVALHO, Lia de Aquino. Francisco Pereira Passos. Boletim Informativo do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, v. V, n. 11, 1982. p. 13-19.

• KOSSOY, Boris. A fotografia como fonte histórica: introdução à pesquisa e interpretação das imagens do passado. São Paulo: Secretaria da Ind., Com., Ciência e Tecnologia, 1980. (Coleção Museu &Técnicas; 4).

• MOREIRA, Regina da Luz. Os cariocas estão mudando de cidade sem mudar de território: Augusto Malta e a construção da memória da cidade do Rio de Janeiro. Dissertação apresentada ao curso de Pós-Graduação em História Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como requisito parcial para a obtenção do Grau de Mestre em História Social. ‰rea de concentração: História do Brasil. Rio de Janeiro: IFCS/UFRJ, 1996.

• Nosso Século. São Paulo; Abril Cultural, 1980. v.1 (1900-1910)

• O GLOBO, edição especial, 29/08/1936.

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