Marielle Franco, vereadora do PSOL, que lutou implacavelmente pela defesa dos direitos em comunidades pobres do RJ e denunciava a violência policial

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Marielle Franco: um atentado contra as liberdades e a democracia

 

Bandeiras. Nascida na Maré, lutava contra o racismo e pelos direitos das mulheres (Foto: Mário Vasconcellos/CMRJ)

Bandeiras. Nascida na Maré, lutava contra o racismo e pelos direitos das mulheres (Foto: Mário Vasconcellos/CMRJ)

Negra da Maré e socióloga, Marielle foi a 5ª vereadora mais votada do Rio de Janeiro

 

 

Marielle Franco na Câmara dos Vereadores do Rio (Foto: Renan Olaz/Câmara do Rio de Janeiro)

 

Vereadora pesquisou Unidades de Polícia Pacificadora; na Câmara participava de grupo para acompanhar intervenção

 

A vereadora Marielle Franco se apresentava como “mulher, negra, mãe e cria da favela da Maré”. Ela foi a quinta mais votada da cidade nas eleições de 2016, com 46.502 votos, em sua primeira disputa eleitoral.

Marielle Franco, nasceu em 1979 no Complexo da Maré, na zona norte do Rio de Janeiro. Se formou em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-Rio) e fez mestrado em Administração Pública pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Na dissertação para obter o título de mestre, pesquisou as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs).

Marielle iniciou a militância em direitos humanos após ingressar em um pré-vestibular comunitário e perder uma amiga vítima de bala perdida em um tiroteio entre policiais e traficantes na Maré.

Foi eleita vereadora do Rio pelo PSOL com 46,5 mil votos – a 5ª maior votação. Estreante na Câmara, participava de comissão criada em março de 2018 para acompanhar a intervenção federal no Rio de Janeiro.

Marielle ficou conhecida como militante do movimento negro e de direitos humanos, com denúncias recentes de violência policial contra moradores de favelas no Rio de Janeiro.

Marielle desenvolvia uma luta implacável pela defesa dos direitos em comunidades pobres do Rio de Janeiro e denunciava a violência policial, além de mobilizar ações voltadas para inclusão social com foco nas questões raciais e de minorias. Representava, de fato, a tentativa de se construir uma nova política em nosso país.

Na Câmara, Marielle fazia parte do grupo de 4 relatores de uma comissão criada em fevereiro para monitorar os trabalhos da intervenção federal na segurança pública do estado.

A vereadora também presidia a Comissão de Defesa da Mulher. Sobre o tema, apresentou projeto para a criação do Dossiê da Mulher Carioca, para levar a prefeitura do Rio de Janeiro a compilar dados sobre violência de gênero no município, e trabalhou para permitir o aborto nas condições quem a prática é permitida. Marielle também atuou para ampliar o número de Casas de Parto, locais destinados à realização de partos normais.

Antes de se eleger vereadora, Marielle foi assessora parlamentar do deputado estadual Marcelo Freixo, seu colega no PSOL, ao lado de quem participou da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa.

Marielle estudou Sociologia na PUC, com o apoio de bolsa integral, e fez mestrado em Administração Pública na Universidade Federal Fluminense. Sua dissertação teve como tema as Unidades de Polícia Pacificadora. O título foi “UPP: a redução da favela a três letras”.

Antes de assumir o mandato, a vereadora trabalhou em organizações da sociedade civil como a Brasil Foundation e o Centro de Ações Solidárias da Maré (Ceasm).

 

 

Marielle Franco

Marielle durante reunião da comissão de acompanhamento da intervenção federal (Foto: Renan Olaz/CMRJ)

 

 

Apoiava projetos para punir o assédio em espaços públicos, em defesa de casas de parto e do aborto legal. Nas redes sociais, se posicionava contra o racismo e a violência policial. Em sua última publicação, divulgou vídeo do encontro de mulheres negras na Lapa, na região central, pouco antes de ser morta. No sábado, protestou contra ação policial no Acari, na zona norte.

Ao longo de sua trajetória, atuou em organizações como a BrazilFoundation, que defende a igualdade social, e o Centro de Ações Solidárias da Maré (Ceasm).

A vereadora Marielle Franco foi assassinada na noite de 14 de março de 2018, no centro do Rio de Janeiro, tinha 38 anos.

Marielle Franco e Anderson Pedro Gomes – seu motorista – foram brutalmente assassinados numa cena típica de execução.

Sua execução sumária, um verdadeiro ato de terrorismo político, representa um ponto crítico e de atenção para a democracia brasileira.

 

 

Principal hipótese é execução

Marielle foi morta a tiros dentro de seu carro no Estácio, região central do Rio, por volta da 21h30 de quarta-feira. Além da vereadora, o motorista do veículo, Anderson Pedro Gomes, também foi baleado e morreu.

 

Carro em que Marielle estava quando foi baleada (Foto: Divulgação)

 

 

A principal linha de investigação da Divisão de Homicídios, responsável pelas apurações, é de execução.

Segundo as primeiras informações da polícia, bandidos em um carro emparelharam ao lado do veículo onde estava a vereadora e dispararam. Marielle foi atingida com pelo menos quatro tiros na cabeça. A perícia encontrou nove cápsulas de tiros no local. Os criminosos fugiram sem levar nada.

No momento do crime, a vereadora estava no banco de trás do carro, no lado do carona. Como o veículo tem filme escuro nos vidros, a polícia trabalha com a hipótese de os criminosos terem acompanhado o grupo por algum tempo, tendo conhecimento da posição exata das pessoas. O motorista foi atingido por pelo menos 3 tiros na lateral das costas.

Antes de ser morta, Marielle havia participado no início da noite de um evento chamado “Jovens Negras Movendo as Estruturas”, na Rua dos Inválidos, na Lapa.

Após a morte, o assassinato repercutiu na imprensa internacional.

 

Marielle participa de evento na Lapa, no centro do Rio, pouco antes de ser assassinada (Foto: Reprodução/Facebook)

 

O Rio de Janeiro parecer ser apenas a antessala de uma desestabilização institucional que pode se alastrar pelo país.

No caso específico do Rio de Janeiro, a execução de Marielle é uma afronta ao interventor federal. Assassinar alguém com essa trajetória política tão representativa das demandas dos mais pobres e das minorias é desafiar a capacidade do General e do Governo Federal de diminuir a sensação de insegurança Pública naquele estado. Trata-se de uma ação que pode minar a credibilidade do Estado brasileiro de enfrentar o crime organizado no momento em que tal questão ganhou centralidade na agenda governamental. Usando uma terminologia das ruas, é uma forma de “esculachar” a intervenção, as polícias, o Exército e, acima de tudo, os próprios cariocas.

A execução de Mariella e Anderson mostra a urgência de empreender ainda mais fortemente a luta cotidiana contra a retórica e a ação daqueles que defendem a barbárie como solução para os nossos problemas. Defender a ideia de que “bandido bom é bandido morto” apenas serve para colocar a vida de policiais e de pessoas das periferias diariamente em risco e não resolve nenhum de nossos dramas sociais. O caminho da violência que estamos trilhando até aqui já mostrou que ações descoordenadas, desorganizadas e sem inteligência, pautadas unicamente na força, servem apenas para reforçar o poder dos criminosos. Isso porque quem melhor opera orientado pela lógica da violência é o crime e o poder paralelo, não o Estado. As mudanças somente vão acontecer quando aqueles que acreditam na democracia e nos direitos deixarem de se dividir e se digladiarem por seus projetos de poder e somar forças pressionando os poderes do Estado para que atuem com inteligência e em nome do direito à vida de todos os segmentos que formam a sua população.

Em primeiro lugar, o Brasil parece caminhar a passos largos repetir aquilo que aconteceu no México e na Colômbia. Seguindo a trilha destes dois países, o poder de facções criminosas, em especial de narcotraficantes, assim como a falta de credibilidade das forças de segurança que decorre, dentre outros fatores, de atos de sua violência contra a população mais pobre e corrupção de parte de seus membros, está conduzindo o Brasil para uma crise institucional de proporções ainda imprevisíveis. Soma-se a isso o desprestígio social tanto do Executivo como do Legislativo, envoltos em escândalos de corrupção, além da desconfiança sobre o sistema de justiça.

(Fonte: http://brasil.estadao.com.br/noticias/geral – NOTÍCIAS – GERAL – BRASIL / Por O Estado de S. Paulo – 15 Março 2018)

(Fonte: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia – RIO DE JANEIRO – NOTÍCIA / Por G1 – 15/03/2018)

(Fonte: http://politica.estadao.com.br/blogs/gestao-politica-e-sociedade – GESTÃO, POLÍTICA & SOCIEDADE – POLÍTICA / Por Rafael Alcadipani / Marco Antonio Carvalho Teixeira – 15 Março 2018)

Rafael Alcadipani, é professor de métodos qualitativos de pesquisa e teoria das organizações na Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas, além de colaborador do Fórum Brasileiro de Segurança Pùblica;

Marco Antonio Carvalho Teixeira, é professor de ciência política na Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas, onde coordena o curso de graduação

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