Francisco Toledo, um dos artistas mexicanos de maior reconhecimento internacional, célebre por suas obras de profundo conteúdo e denúncia social, além do ativismo em defesa do meio ambiente

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Francisco Toledo, o artista do mundo fantástico

O artista, ativista e promotor cultural originário de Oaxaca

 

 

O pintor mexicano Francisco Toledo num café em Oaxaca Foto: JALIL OLMEDO / AFP

O artista plástico mexicano Francisco Toledo, num café em 3 de agosto de 2017, em Oaxaca, México. – (Foto: JALIL OLMEDO / AFP / FRANCISCO TOLEDO’S PRESS OFFICE/AFP)

 

O pintor que se tornou símbolo do estado de Oaxaca e do ativismo mexicano

Toledo teve entre os últimos trabalhos homenagem aos 43 estudantes de origem indígena desaparecidos em 2014

 

 

Francisco Toledo (Juchitán de Zaragoza, México, 17 de julho de 1940 – 5 de setembro de 2019), artista plástico mexicano, célebre por suas obras de profundo conteúdo e denúncia social, além do ativismo em defesa do meio ambiente.

 

 

Ele nasceu Francisco Benjamín López Toledo, na cidade de Juchitán, no sudeste de Oaxaca, em julho de 1940. Foi criado em parte no estado de Veracruz, onde conheceu muitos dos animais e mitos que mais tarde povoariam seu trabalho. Se mudou para a Cidade do México para estudar arte e depois voltou para Oaxaca, onde encontraria muitos movimentos. Os indígenas locais rotineiramente se uniram contra projetos de desenvolvimento que eles consideravam impedir ou alterar seu modo de vida.

 

 

Fosse uma luta para impedir um McDonald’s na praça central da cidade, ou um trabalho de defesa de direitos para os subgrupos étnicos da região, incluindo Mixtec, Mixe, Triqui e Zapotec, Toledo, aparecia. Um obituário de um jornal mexicano o chamou de “maior defensor de Oaxaca”.

 

 

Natural da cidade de Juchitán, estado de Oaxaca, Toledo era um dos artistas mexicanos de maior reconhecimento internacional, com obras expostas em Nova York, Paris, Londres e Tóquio, entre outras.

 

 

“Não sou adivinho, mas acredito que a realidade deste país não muda (…). A realidade do país é cada vez mais dramática”, disse o artista à AFP em agosto de 2017, ao ser questionado sobre os horrores da violência que atinge o México.

 

Em 2015, na mostra denominada “Luto”, Toledo optou por desenvolver um conjunto de peças de cerâmica onde a cor dominante era o vermelho sangue.

 

 

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“Não acredito que a arte seja uma tábua de salvação ou sirva de consolo. O povo sofre com o desaparecimento de seus familiares, torturas e tudo mais. Não acredita nem na poesia e nem na arte”.

 

 

Para os frequentadores de museus, ele era amado por suas pinturas, gravuras e desenhos — fragmentos surreais e expressionistas da vida cotidiana de Oaxaca. Ele espalhava em seu trabalho ecos do mito xamânico e das antigas histórias da Mesoamérica. Teve influências europeias, mas raramente se desviou de Oaxaca, transmitindo a sensualidade e a riqueza natural do estado.

Made in Oaxaca

O homem em si exibia uma figura discreta: magro, de barba branca, pele escura e usualmente vestindo calças e sandálias huarache, o traje cotidiano de companheiros indígenas em Oaxaca. Mas o artista era onipresente nas ruas disputadas de Oaxaca de Juárez, capital do estado no sul do México. Lá, era um campeão e produto do lugar.

Oaxaca é ferozmente política e, em termos culturais, muito diferente do resto do país. É o berço do ditador Porfirio Díaz e do grande presidente reformista do século XIX, Benito Juárez, às vezes informalmente descrito como o Abraham Lincoln do México. (Toledo disse uma vez à Reuters que seu pai queria que ele “fosse Benito Juárez”.)

O legado

 

— Ele colocou o nome de Oaxaca e os pueblos indígenas do México no topo do mundo. Ele sempre se solidarizou — diz Odilia Romero, organizadora da comunidade Oaxaca e intérprete da Zapotec em Los Angeles.

Esse ativismo se estendeu a seus filhos adultos, que incluem o artista visual e tatuador Jerónimo “Dr. Lakra” Toledo; a artista e escritora Laureana Toledo; e Natalia Toledo, uma das principais poetas da língua zapoteca. Cada um, a sua maneira, se tornou defensor e embaixador de Oaxaca, como seu pai.

Além das ruas e das salas dos museus, Toledo construiu uma robusta infraestrutura física para as artes em sua casa, começando em 1972 com a abertura da Casa de Cultura de Juchitán, que ele fundou com a poeta Elisa Ramírez. Mais tarde, o centro não oficial da filantropia de Toledo tornou-se o Instituto de Artes Gráficas de Oaxaca (ou IAGO), um instituto e biblioteca que continua sendo uma incubadora ativa de jovens artistas e escritores indígenas em Oaxaca.

 

 

Para Toledo, nunca esquecer as raízes era sinônimo de ação em prol do bem comum, diz Sandra de la Loza, uma artista de Los Angeles e amiga de um de seus filhos.

 

 

— Toledo era um criador. Criador de obras de arte que lidava com os reinos da profunda memória histórica antiga e da cosmologia indígena — diz. — Mas ele também foi alguém profundamente enraizado em um lugar. No caso dele, era Oaxaca.

Nos seus últimos anos, o mestre Francisco Toledo, desenvolveu uma predileção por fazer pipas. Ele as decorava com estênceis de gafanhotos, tartarugas e camarões e estampas de elefantes com macacos e esqueletos, exibindo um humor que esteve na superfície de grande parte de seu trabalho e vida.

Mas mesmo em seus momentos mais caprichosos, a arte de Toledo nunca esteve longe das causas sociais de sua época. Em dezembro de 2014, em seu estúdio em Oaxaca, no México, ele fez uma série de pipas adornadas com retratos dos 43 estudantes universitários desaparecidos — supostamente por forças criminosas e governamentais no estado vizinho de Guerrero.

 

 

Os estudantes eram em sua maioria jovens indígenas e suas presumíveis mortes abalaram o país. Toledo empinou pipas em manifestações realizadas em homenagem aos estudantes e incentivou outras pessoas a fazer o mesmo, enquanto os 43 continuassem desaparecidos.

 

 

— Sempre deu a impressão de que ele era uma dessas pessoas que viveria para sempre, ele era uma voz tremenda para as artes no México — diz Pilar Perez, curadora e galerista independente que exibiu as pipas de Toledo na Oficina de Projetos Culturais em Puerto Vallarta em 2015.

 

Cuauhtémoc Medina, curador-chefe do Museu de Arte Contemporânea da Cidade do México, disse em entrevista na sexta-feira que Toledo era “o protótipo do artista-ativista para sua parte do mundo”.

Francisco Toledo faleceu em 5 de setembro de 2019, aos 79 anos, por complicações de um câncer.

 

“A arte está de luto. Faleceu o mestre Francisco Toledo, grande pintor e extraordinário promotor cultural, autêntico defensor da natureza, dos costumes e das tradições do nosso povo. Descanse em paz”, escreveu o presidente mexicano, Andrés Manuel López Obrador, no Twitter.

 

O Instituto Nacional de Belas Artes e Literatura do México (INBAL) recordou especialmente seu caráter “apaixonado”, seu grande legado artístico e sua “ética contestatária exemplar”.

 

“Condolências a sua família, amigos e comunidade artística”, escreveu o INBAL nas redes sociais.

(Fonte: https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2019/09/06 – POP & ARTE / NOTÍCIA / Por France Presse – 06/09/2019)
(Fonte: https://istoe.com.br – EDIÇÃO Nº 2593 – CULTURA / Por AFP – 06/09/19)

(Fonte: Zero Hora – ANO 56 – N° 19.499 – 9 de SETEMBRO de 2019 – TRIBUTO / MEMÓRIA – Pág: 27)

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