Foi o responsável pela primeira ligação marítima entre a Europa e o Oriente

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A ferro e fogo

A tiros, Vasco da Gama abriu a rota das Índias do primeiro período das Grandes Navegações portuguesas.

A aventura de Vasco da Gama contada no diário de Álvaro Velho e nos desenhos de um livro do século XVI: herói de “Os Lusíadas”, o navegante português ficou rico saqueando navios no Índico

Vasco da Gama, navegador e explorador português durante a Era dos Descobrimentos, destacou-se pelo seu trabalho como comandante dos primeiros navios a navegar diretamente da Europa para a Índia. (Foto: Agrupamento de Escolas Álvaro Velho/ Divulgação)

 

Nascido na cidade de Sines, em 1469, o português Vasco da Gama foi o responsável pela primeira ligação marítima entre a Europa e o Oriente.

No dia 8 de julho de 1497 – uma pequena frota de três caravelas e uma nau de suprimentos deixou o porto de Lisboa para uma viagem memorável. O que o genovês Cristóvão Colombo tinha feito velejando para o oeste, cinco anos antes, para descobrir a América, o navegante e explorador português Vasco da Gama estava prestes a repetir no Oriente, traçando pela primeira vez o caminho marítimo para as Índias.

Essas duas viagens formidáveis derrubaram as fronteiras do conhecimento, fundiram para sempre civilizações e assentaram as rotas comerciais e culturais sobre as quais se ergueu o mundo moderno.

Vasco da Gama também abriu as portas do Oriente para as naus lusitanas e permitiu que Portugal vivesse seu século de glória, em que descobriu o Brasil e foi senhor absoluto do comércio com a Índia, o Japão e a China.

Não é por outra razão que o maior poeta da língua portuguesa, Luís de Camões, encantado com a visão das velas desfraldadas com a cruz de Malta, compôs “Os Lusíadas” como uma ode a Vasco da Gama, o argonauta do mito português de que “navegar é preciso”.

 

 

Caravela naufragada da frota de Vasco da Gama, o lendário Esmeralda, que foi ao fundo do Mar da Arábia levando consigo o tio de Vasco, Vicente Sodré, em 1503, do primeiro período das Grandes Navegações portuguesas. (Foto: johncopland | iStock)

 

 

Ao deslizar para fora da barra do Rio Tejo, na nau capitânia São Gabriel, uma caravela de 90 toneladas, Vasco da Gama não era nem sombra do herói nacional em que se transformaria ainda em vida. Na partida, era um obscuro fidalgo de Sines, no Alentejo, ligado a um grupo de cortesões em baixa na corte de dom Manuel. Ele foi escolhido para a viagem às Índias sobretudo porque seus inimigos não acreditavam no sucesso da expedição. Preferiram deixar o fracasso por conta de um desafeto. Vasco da Gama andava na casa dos 30 anos (a data exata de seu nascimento é desconhecida) e a imagem que se tem dele, feita com base em pinturas e relatos de época, não o favorece em nada. Era um homem de pernas muito curtas, barba preta, nariz longo e lábios apertados.

Mergulho no desconhecido – Era determinado, um sujeito cruel, não muito inteligente, como a história de sua viagem irá mostrar. Apesar de tudo isso, o navegante demonstrou fibra para cumprir a missão, um verdadeiro mergulho no desconhecido. Na época, o desenvolvimento da navegação lusitana já era notável. A rota até o Cabo da Boa Esperança, no extremo sul da África, tinha sido traçada por Bartolomeu Dias em 1487. Mesmo assim, o outro lado do mundo era um mistério para os portugueses. Durante uma década, a corte em Lisboa hesitou entre seguir o caminho aberto por Dias e tentar a sorte no Ocidente, onde a Espanha tinha descoberto a América. A expedição de Vasco da Gama marca uma reviravolta na política marítima portuguesa e foi planejada e montada como um projeto de Estado. O piloto da São Gabriel era o mesmo Pêro de Alenquer que contornara a África com Bartolomeu Dias e o escrivão, Diogo Dias, era irmão do navegador. Outra caravela, a São Rafael, era comandada pelo irmão mais velho de Vasco da Gama, Paulo da Gama. Completava a frota a Berrio, cujo capitão, Nicolau Coelho, viria ao Brasil três anos mais tarde com Pedro Álvares Cabral.

A expedição de Vasco da Gama reunia o melhor que Portugal podia oferecer em tecnologia náutica. Dispunha das mais avançadas cartas de navegação e levava pilotos experientes. Os navios eram leves e rápidos. Faltavam-lhe, é claro, conhecimentos mínimos de higiene e medicina, de que os povos daquele período ainda não tinham notícia. O convés das caravelas, não mais amplo que uma quadra de tênis, logo estaria coalhado de doentes e mortos. As tripulações eram dizimadas pelo escorbuto, provocado por deficiência de vitamina C. Dos mais de 150 homens que deixaram Lisboa, só voltaram 55. Por falta de marinheiros, Vasco da Gama foi forçado a abandonar a São Rafael e queimá-la na costa da África. A frota levava também um capelão, dois intérpretes (um que falava árabe e outro que conhecia dialetos africanos) e cinco degredados para ser abandonados à própria sorte num canto qualquer.

Selvageria e aventura – Repleta de peripécias e episódios de selvageria e aventura, a viagem de Vasco da Gama foi o marco decisivo numa época em que o mundo estava redesenhando suas rotas de comércio. Durante os séculos que antecederam as viagens marítimas portuguesas, a Europa era regularmente abastecida de pimenta, cravo, canela e gengibre – as chamadas especiarias – pelos comerciantes genoveses. Num tempo em que não havia geladeira nem técnicas mais elaboradas de conservação de alimentos, os temperos serviam principalmente para disfarçar o sabor meio passado dos alimentos, sobretudo os que eram guardados por mais tempo para consumo no inverno.

Os genoveses traziam esses produtos da Índia através de rotas terrestres pelo Oriente Médio e depois distribuíam a mercadoria pela costa do Mediterrâneo. Com a tomada de Constantinopla, em 1453, pelos turcos otomanos, tudo isso mudou. As especiarias continuaram a chegar pela rota tradicional, mas em quantidades cada vez mais reduzidas e a preço de ouro.

Coube aos portugueses encontrar uma nova rota de comércio por duas razões: eles tinham a tecnologia e a vocação natural para isso. Estavam situados numa posição estratégica, a meio caminho entre o norte da Europa e o Mediterrâneo, e tinham criado uma importante academia de navegação, a Escola de Sagres. Além disso, sem população nem recursos que lhe permitissem colonizar terras distantes, como fez a Espanha, restava a Portugal o descobrimento de rotas e o estabelecimento de entrepostos comerciais da África e na Ásia. Apesar do Brasil, o império português jamais foi territorial. Foi um império marítimo, apoiado em uns poucos pontos costeiros. Quando Vasco da Gama chega às Índias, é como se Portugal tivesse encontrado sua vocação.

Os  português abriram o caminho das Índias apoiados na diplomacia do canhão. O relato mais atento da viagem de Vasco da Gama é o diário de bordo escrito por Álvaro Velho, só descoberto pelo escritor português Alexandre Herculano em 1834. Tripulantes do São Rafael, Velho deixa claro que nos planos do navegador não constava estabelecer relações amigáveis com os povos visitados. Ao contrário, ele nunca hesitou em canhonear os pontos de que se aproximava ao menor motivo. A abordagem comercial dos portugueses era realmente agressiva. Não se pode esquecer que muitos tripulantes tinham lutado nas Cruzadas e se julgavam no direito de impor sua vontade a tiro sobre os hereges.

Observa-se que a rota percorrida por Vasco da Gama, a frota portuguesa percorreu e fez um desvio inexplicável no Oceano Atlântico, quase tocando a então desconhecida costa brasileira – mais tarde, Cabral faria exatamente o mesmo trajeto, avançando até encontrar terra. Depois de passar o Cabo da Boa Esperança, desmontaram a nau de mantimento e guardaram o madeirame nos porões dos outros navios. O primeiro contato com a civilização oriental foi no porto de Moçambique, então um importante centro comercial dominado por mercadores árabes.

 

Vasco da Gama foi o primeiro português a estabelecer contato com a Índia, em 1498 | (Crédito: Divulgação)

 

Decepções – Quatro naus estavam atracadas no porto, com peças de ouro e prata a bordo. Os ricaços do lugar ,anotou o cronista de bordo, vestiam roupas coloridas de algodão e linho, com turbantes de seda. Vasco da Gama bombardeou o porto até obrigar o sultão a fornecer-lhe água potável e dois pilotos para guia-los pela costa. Não satisfeito, saqueou dois navios cheios de mercadorias. A próxima parada foi a ilha de Zanzibar. O piloto confundiu o lugar com o continente e Vasco da Gama mandou chicoteá-lo. Por isso, durante muito tempo, Zanzibar foi chamada pelos portugueses de “Ilha do Açoitado”. Em Melinde, na costa do atual Quênia, o navegador trocou um refém nobre por um piloto árabe, Malemo Canaqua, que conduziria a frota em segurança a Calicute – enfim, as Índias.

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Os três meses em que Vasco da Gama ficou na região de Calicute foram uma sucessão de mal-entendidos, decepções e escaramuças. Vasco da Gama, na verdade, não tinha uma ideia exata de comércio e de jogo político, nem era um grande diplomata. O primeiro contato, feito por um degradado que Gama despachou para terra, pareceu promissor. Ele encontrou dois tunisianos que falavam castelhano e genovês, e que festejaram a chegada dos portugueses com gritos de “Buena Fortuna, buena fortuna”. Daí para a frente foi um desastre.

Os portugueses faziam uma divisão simplória do mundo entre cristãos, do lado do bem, e os “hereges”, os muçulmanos. Imaginavam que a Índia fosse povoada por cristãos de rito oriental. Numa visita aos templos hinduístas de Calicute, Gama surpreendeu-se com as imagens dos deuses de vários braços. “Onde estão nossos santos?”, perguntou espantado. Acompanhado de onze fidalgos e de um intérprete, Vasco da Gama entregou ao rei de Calicute uma carta do rei dom Manuel. Recostado num divã de veludo verde, o rei ouviu o relato de que a coroa portuguesa era a “mais poderosa” da Europa e uma das mais ricas em ouro. Tudo ia muito bem até que a comitiva portuguesa resolveu mostrar os presentes que havia trazido. O rei ficou chocado com a pobreza da oferenda: uma dúzia de casacos, seis chapéus, seis bacias, um pacote de açúcar e dois barris de manteiga, rançosa depois de tanto tempo no mar.

“Se o senhor veio de um reino tão rico, por que não trouxe nada?”, perguntou ele, cheio de espanto. Vasco da Gama provavelmente não entendeu que as expectativas daquela corte eram muito mais altas do que ele poderia preencher com seus presentes lusitanos. O navegador ficou “melancólico”, nota Álvaro Velho em sua crônica, mas por pouco tempo – bem cedo percebeu que poderia saquear as embarcações que cruzavam o Índico e se abastecer das mercadorias necessárias para comerciar na região.

 

Estátua De Vasco Da Gama em Lisboa (Foto: Dreamstime/ Divulgação)

Caravela fretada – Durante a viagem de volta a Portugal, Vasco da Gama fez uma escala na ilha de Cabo Verde, na África, para cuidar do irmão doente, que morreu logo depois. Ao chegar a Lisboa, no dia 8 de setembro de 1499, numa caravela fretada em Cabo Verde, foi recebido como herói nacional. Ganhou o título de almirante, propriedades e uma pensão generosa. Três anos mais tarde voltou à Índia com uma esquadra de vinte navios, estabeleceu feitorias e enriqueceu pilhando mercadores árabes e indianos que encontrou pelo caminho. Vasco da Gama tratou seus prisioneiros com uma crueldade enorme, enviando cestos com suas cabeças decepadas às famílias desses homens, nas cidades costeiras. Num episódio marcado por um navio apinhado de peregrinos muçulmanos no Oceano Índico. Morreram 240 homens, além de mulheres e crianças.

Vasco da Gama morreu em Cochin, na Índia, em 1524, perto dos 60 anos.

Em 8 de julho de 1997, 500 anos decorridos de sua primeira viagem às Índias, Portugal preparou grandes homenagens para seu navegante mais ilustre e importante. Mas, na costa de Malabar, onde os portugueses mantiveram até 1961 o enclave de Goa, houve protestos contra o projeto das festas e honrarias. Em Goa, foi formado um comitê para forçar o governo a trocar o nome do porto, chamado de Vasco da Gama, e em Calicute um grupo de professores organizou um ano inteiro de protestos. Alegando que era vergonhoso homenagear a chegada do homem que começou a era colonial em seu país.

É um exagero histórico. Os ingleses só conquistaram a Índia dois séculos depois e Portugal nada teve a ver com isso. É compreensível, contudo, que Calicute tenha más lembranças. Depois de descobrir o Brasil, a frota de Cabral seguiu o caminho de Vasco da Gama e bombardeou a cidade, matando mais de 400 de seus habitantes.

O caminho das Índias

Viagem de Vasco da Gama ao Oceano Índico (1497-1499)

Viagem de ida

1 – 8/7/1497 – Partida com três caravelas e uma nau de mantimentos

2 – Agosto/1497 – A frota passa perto de Trindade, na costa brasileira

3 – 25/11/1497 – Navio de mantimentos é desmontado

4 – 2/3/1498 – Bombardeio do porto de Moçambique e captura de dois navios mercantes

5 – 29/3/1498 – Assalto a navio árabe carregado de ouro e mantimentos

6 – 22/4/1498 – Fidalgo árabe sequestrado é trocado por piloto capaz de guiar os portugueses até a Índia

7 – 21/5/1498 – O primeiro português – um degredado – desembarca em Calicute, na Índia

Viagem de volta

1 – Ano-Novo de 1499 – Dominado motim a bordo

2 – 16/1/1499 – Com a tripulação dizimada pelo escorbuto, Vasco abandona e queima uma das caravelas

3 – 25/4/1499 – A frota se separa. Vasco da Gama fica em Cabo Verde para cuidar do irmão doente

4 – 8/9/1499 – Vasco da Gama chega em Lisboa a bordo de uma caravela alugada

(Fonte: Revista TERRA – Julho de 96 – Ano 5 – Nº 7 – Edição 51 – Pág: 24)

(Fonte: Veja, 9 de julho de 1997 – ANO 30 – Nº 27 – Edição 1503 –HISTÓRIA/ Por Izalco Sardenberg –Pág: 68/69/70/71)

Com reportagem de Pedro Andrade, de Lisboa

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