Foi a primeira mulher brasileira a participar dos Jogos Olímpicos

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Maria Lenk, a primeira mulher brasileira a participar dos Jogos Olímpicos

A nadadora tinha 17 anos quando esteve em Los Angeles, em 1932

As águas do rio Tietê, em São Paulo, ainda eram limpas em 1925. Mergulhar ali, por tanto, não seria um problema para o alemão Paul Lenk, que queria ensinar a filha a nadar. A menina, então com 10 anos, acabava de se recuperar de uma pneumonia dupla, e o pai desejava que ela fortalecesse os pulmões. Sete anos depois, a nadadora Maria Emma Hulda Lenk se tornaria a primeira mulher brasileira (na verdade, a primeira sul-americana) a participar dos Jogos Olímpicos.

 

Ela tinha somente 17 anos quando embarcou no navio Itaquicê rumo à cidade de Los Angeles, sede da competição, em 1932. A delegação brasileira tinha 67 atletas: 66 homens e uma mulher. Do lado de fora, os esportistas disputavam a atenção de curiosos, familiares e da imprensa com o então presidente Getúlio Vargas, que fora ao embarque desejar boa sorte aos aventureiros. Do lado de dentro, dividiam o espaço com 55 mil sacas de café, que serviriam para custear a viagem. Naquela época, o Comitê Olímpico Internacional (COI) proibia que os governos financiassem os atletas, que, além do mais, deveriam ser amadores.

 

— Foi uma viagem épica porque, na realidade, se travestiu um navio do Loyd Brasileiro em uma embarcação de guerra para que não fosse necessário pagar o pedágio no Canal do Panamá — conta Francisco Costa e Silva, sobrinho de Maria Lenk.

 

Até um caminhão foi colocado na proa, mas não adiantou. Uma vez no Panamá, o navio ficou retido quatro dias porque não havia dinheiro para pagar a taxa pelos 350 passageiros e pelo café. Só conseguiram passar depois que o governo brasileiro negociou a liberação. Finalmente, no dia 22 de julho de 1932, o Itaquicê aportou em Los Angeles após quase um mês de viagem. Faltava uma semana para o início dos Jogos, mas nem todos os atletas puderam desembarcar. Era necessário pagar 24 dólares por pessoa, mas só havia dinheiro para 32 competidores. Os que não conseguiram ficar, seguiram viagem até São Francisco para vender as sacas de café.

 

O cavalheirismo das autoridades permitiu que Maria Lenk desembarcasse logo. Já na piscina, seus primeiros resultados foram frustrantes. Não passou sequer das eliminatórias nos 100m livre e nos 200m peito. Nos 100m costas, foi desclassificada após fazer uma virada ilegal. Para o sobrinho de Maria Lenk, a falta de treinamento da tia foi um dos fatores que acabou prejudicando o desempenho da nadadora nas provas. Próxima de atletas mais bem preparadas, se deu conta de suas falhas.

 

— As viagens eram muito longas e não havia onde treinar. Evidentemente, ela chegou lá em condições muito piores do que as outras competidoras. É preciso manter o corpo humano apto para o esporte que se pratica. Se não dá para treinar, como vai fazer? Como é possível ganhar uma competição assim? — questiona Francisco.

 

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Melhor preparada, Maria Lenk voltou a competir nos Jogos Olímpicos de 1936, em Berlim. A seu lado, outras quatro mulheres: a esgrimista Hilda Kramer, e as nadadoras Helena Salles, Scylla Venâncio e Sieglinde Lenk, irmã caçula de Maria e mãe de Francisco. As condições de viagem ainda eram muito precárias. Mas, desta vez, Maria e as colegas da natação puderam treinar num pequeno tanque que fazia as vezes de piscina no cargueiro General Artigas. O técnico Carlos Sampaio amarrava as atletas, que nadavam sem sair do lugar.

 

Novamente, Maria Lenk voltou sem medalhas para o Brasil. Ela chegou apenas às semifinais dos 200m borboleta, mas não sem deixar registrado novo feito: foi a primeira a atleta a introduzir o estilo em Jogos Olímpicos. Na época, a Federação Internacional de Natação Amadora prescreveu um regulamento para o nado de peito que exigia que o atleta levasse os braços simultaneamente para trás e de lá para frente, mas não dizia se seria dentro ou fora d’água. Um nadador alemão inventou de levar os braços para fora da água e, assim, surgiu o nado de borboleta. Lenk soube da “invenção” através de uma revista especializada que recebia da Alemanha e fez o mesmo em Berlim. O estilo só foi homologado nos anos 1950.

 

— Nem Maria, nem minha mãe jamais se entristeceram por não terem conseguido medalhas. A frustração delas foi por não terem participado dos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 1940, época em que as duas estavam no auge da forma física. Maria principalmente — conta Francisco.

 

No final de 1939, Maria Lenk havia batido dois recordes mundiais nos 400m e nos 200m peito (foi a primeira atleta brasileira a conseguir tal feito). Mas, naquele mesmo ano, a Segunda Guerra Mundial já havia começado e o Japão tinha desistido de organizar as Olimpíadas. A tarefa foi assumida pela Finlândia, que dois meses antes do início do evento, acabou cancelando também, porque foi ocupada pela União Soviética.

 

Encerrava-se o ciclo olímpico de Maria Lenk, que, em 1948, já havia abandonado as competições. Aos 33 anos, era Maria Emma Hulda Lenk Zigler, casada com o diplomata americano Gilbert Zigler, e mãe de dois filhos pequenos.

 

Mesmo longe das provas, não abandonaria jamais o esporte e as piscinas. Ainda nos anos 40, começaria a dar aula na hoje chamada Escola de Educação Física e Desportos da UFRJ. Na década de 60, seria a primeira a mulher a se tornar diretora do departamento. Dentro da água, bateria diversos recordes em mundiais de masters.

 

Numa manhã de abril de 2007, teve uma parada cardiorrespiratória enquanto nadava na piscina do Clube de Regatas do Flamengo. Tinha 92 anos e uma história de pioneirismo que entrou para a memória da natação brasileira.

(Fonte: http://oglobo.globo.com/esportes/rio-2016- -17828942#ixzz3pJZiuzSz – ESPORTES/ POR ANA BEATRIZ MARIN – 22/10/2015)

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