Antonio José de Barros Carvalho e Mello Mourão, conhecido como Tunga, foi um dos nomes mais relevantes e celebrados das artes visuais do país

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O artista plástico Tunga, foi um dos nomes mais relevantes e celebrados das artes visuais do país.

Tunga criava obras com símbolos visuais poderosos e enigmáticos

Cooking Crystals Expanded | Tunga

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Tunga (Palmares, Pernambuco, 8 de fevereiro de 1952 – Rio de Janeiro, 6 de junho de 2016), escultor, desenhista, cineasta e artista performático pernambucano, artista plástico foi um dos maiores nomes da arte do país

Tunga foi dos mais inventivos e enigmáticos artistas do cenário nacional. Em quase meio século de carreira, construiu uma obra plástica incontornável na arte contemporânea, mesclando referências sutis à herança construtiva que dominou as vanguardas nacionais a um universo simbólico único.

Antes mesmo da chegada dos portugueses, os índios da Serra da Ibiapaba, na divisa do Ceará com o Piauí, mantinham contato com os poucos franceses que se instalaram em São Luís do Maranhão. Em 1603, Portugal enviou a expedição de Pero Coelho de Souza para expulsar os franceses do estado e ocupar a região. Índios e franceses se uniram, resistiram e o domínio português na região só se completou meio século depois, com a chegada dos jesuítas.

Dentre as famílias portuguesas que apareceram para ocupar o lugar estavam os Mello e os Mourão, cujos membros se casaram e formaram um dos clãs mais poderosos da Serra da Ibiapaba. O nome de nascimento de Tunga é Antônio José de Barros Carvalho e Mello Mourão. Quem inventou o apelido foi seu irmão mais velho, Gonçalo, então com 2 anos, que gostou do som da palavra.

Os primeiros contatos de Tunga com as artes plásticas se deram no Rio, na casa do avô, o deputado federal e depois senador Antonio de Barros Carvalho. O pintor Alberto da Veiga Guignard, amigo do parlamentar, também morou três anos na casa. O senador gostava muito de Guignard, mas o pintor praticamente lhe esvaziou a valiosa adega. O avô de Tunga queria se livrar do hóspede bom de copo. Mas de maneira polida.

Carvalho criou então um concurso dedicado exclusivamente à arte moderna e incentivou Guignard a concorrer. O pintor quis agradar o anfitrião e pintou as filhas gêmeas do senador, Maura e Léa. Feita em 1940, As Gêmeas é umas das telas mais conhecidas de Guignard. Numa casa projetada por Lucio Costa, sentadas num sofá vermelho, as irmãs aparecem com as mãos sobre o colo, tendo ao fundo o bairro carioca de Laranjeiras. Guignard ganhou o prêmio: uma viagem de um ano a Paris. Carvalho ficou com o que sobrou de sua adega. Léa, uma das gêmeas, é a mãe de Tunga.

Nascido em Pernambuco, em fevereiro de 1952, e radicado no Rio de Janeiro desde os anos 1970, Antonio José de Barros Carvalho e Mello Mourão, que se metamorfoseou em Tunga, era filho de um poeta – Geraldo Mello Mourão (1917-2007), jornalista que foi correspondente da Folha em Pequim no começo dos anos 80. 

Os que conviveram com o pai de Tunga são unânimes em dizer que o poeta e jornalista Gerardo Mello Mourão foi um dos homens mais inteligentes que conheceram. Na infância, estudou em um convento de Juiz de Fora e aprendeu grego, latim e holandês. Ao morrer, sabia nove idiomas. Na juventude, Mourão fez parte da Ação Integralista Brasileira, uma organização fascista. Foi preso dezoito vezes entre 1938 – quando foi uns dos camisas-verdes que tentaram derrubar Getúlio – e 1945, quando a ditadura varguista chegou ao fim.

Antes, em 1942, Mourão foi condenado a trinta anos de prisão por ter colaboração com a Alemanha nazista. Cumpriu seis anos da pena. Sempre se disse inocente. “A acusação de espião nazista e de haver colaborado para o afundamento de navios na costa brasileira partiu dos meus adversários na imprensa, especialmente de David Nasser, da revista O Cruzeiro. Não tenho erros políticos a corrigir,” disse ele num documentário do cineasta Wolney Oliveira. Para a revista E, publicada pelo Sesc de São Paulo, Mourão falou: “Nas duas ditaduras deste país, a do Estado Novo e a do regime militar de 1964, fui perseguido, preso, torturado. Em 1967, quase até a morte. Primeiro como fascista, depois como comunista. Estou vivo por milagre.”

Desde seus primeiros desenhos, dizia que as obras partiam de reflexões a meio caminho entre versos e teorias filosóficas e científicas, “nunca demonstráveis nem refutáveis”, ele frisava.

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No campo da escultura, maior parte de sua obra que surgiu sempre aliada à performance, ele usava materiais como cobre, aço e ímãs para arquitetar construções que lembrassem o corpo humano, tecidos, pele, cartilagens e esqueletos, revestindo de dimensão carnal tudo que parecia surgir como algo de natureza robusta, industrial.

Tunga foi um divisor de águas que marcou essa história, como Joseph Beuys (1921-1986) definiu o panorama da arte alemã do pós-guerra, amalgamando sua experiência pessoal à arte. A comparação é pertinente, até mesmo porque ele e Beuys buscaram na justaposição de materiais muito mais que efeitos formais, sugerindo uma relação transcendental, alquímica, por meio da matéria. E ambos recorreram aos mais diversos – e insólitos – materiais para construir suas obras.

Uma delas certamente vai ficar como a mais representativa de uma carreira de mais de 40 anos, iniciada em 1973, quando Tunga – aliás, Antonio José de Barros Carvalho e Mello Mourão (Palmares, 1952 – fez sua primeira individual. Chama-se simplesmente ‘Ão’. É de 1980 e foi recentemente comprada pelo Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA). Trata-se de um filme feito em uma seção curva do túnel Dois Irmãos, no Rio de Janeiro, onde Tunga morava. O trecho é repetido em looping, sugerindo um circuito da câmera em círculos, como se o tempo prosseguisse e o espectador não saísse do lugar, sem comunicação com o espaço exterior, numa jornada sem fim ao som de Frank Sinatra (Night and Day).

Tunga fez vários outros filmes, alguns em parceria (inclusive com Eryk Rocha, filho de Glauber). Mas foram suas esculturas e instalações que o levaram a ser disputado por colecionadores e museus internacionais. Além do MoMA de Nova York, outro museu importante que tem obras suas é o espanhol Reina Sofia.

A forma circular foi quase uma obsessão para Tunga nos anos 1980. Uma das primeiras exposições do artista em São Paulo que despertou a atenção dos críticos, Le Bijoux de Madame de Sade (1983), realizada no então Gabinete de Arte de Raquel Arnaud, exibia como peça principal um gigantesco anel de metal. O toro também surge de sua experiência no filme ‘Ão’, afirmando sua intuição de uma temporalidade singular, seu modo de pensar o tempo de modo semelhante ao do físico Stephen Hawking.

Como um alquimista, Tunga foi experimentando outros materiais nas décadas seguintes, aproximando-se estreitamente da alquimia. Ferro, cobre, aço, chumbo, mercúrio, cristais, ímã foram usados em peças que investigavam o campo magnético e a presença do invisível, que para ele sempre foi motivo de fascinação. Chegou a trabalhar com seres vivos em obras como ‘Vanguarda Viperina’ e ‘Laminadas Almas’, investigando simultaneamente o aspecto biológico dos corpos e as formas de energia oriundos da interação entre eles.

Tunga: À Luz de Dois Mundos (Foto: www.democrart.com.br/Divulgação)

Tunga: À Luz de Dois Mundos (Foto: www.democrart.com.br/Divulgação)

Foi observando serpentes enroladas que surgiram suas “tranças” de chumbo, que inspiraram performances como as das xifópagas capilares (1984), duas garotas unidas pelos cabelos. Não foi a mais exótica de suas criações. Em Lézart‘, uma das obras de seu pavilhão em Inhotim, não há solda entre as chapas de ferro e o arame. Esses materiais são ligados por força dos ímãs que os atraem. Aliás, Tunga foi o artista que sugeriu ao empresário Bernardo Paz a criação daquele centro de arte mineiro que reúne alguns dos principais nomes de arte contemporânea brasileira. Foi num encontro na casa de Paz que essa ideia nasceu. O pavilhão dedicado a Tunga é um dos mais impressionantes do lugar, hoje espécie de seu mausoléu.

Tunga morreu em 6 de junho, aos 64 anos, em decorrência de um câncer na garganta, no hospital Samaritano, no Rio de Janeiro, desde 12 de maio. 

A morte do artista plástico Tunga, cria um vácuo na história da arte contemporânea brasileira. 

(Fonte: http://istoe.com.br – CULTURA – Estadão Conteúdo – 06.06.16)

(Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2016/06/1766507- ILUSTRADA/ Por Silas Martí de SÃO PAULO – 06.06.16)

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