Primeiro Instituto de Biologia Racial.

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Uma febre de limpeza varreu a Europa e os Estados Unidos no começo do século XX, em estudos que se propunha e que foram recebidos com alvoroço mas, como o avanço do conhecimento da genética demonstrou depois, sem um pingo de sustentação científica, era a limpeza da raça, por meio da eliminação de traços humanos indesejáveis – a chamada eugenia. Por eliminação, entenda-se esterilização: devidamente impedidos de ter filhos, os deficientes mentais, os criminosos contumazes e até os irremediavelmente pobres acabariam cedendo lugar aos vikings saudáveis, inteligentes e homogêneos.
A teoria passou à prática, e, nos anos 30, diversos países já tinham aprovado leis de “higiene racial”. Num deles, a eugenia passaria da esterilização ao massacre, e aí teria seu apogeu trágico e brutal: a Alemanha, onde, em seu nome, os nazistas puseram em marcha a máquina de exterminar judeus, ciganos, deficientes físicos e homossexuais. Com a derrota da Alemanha na II Guerra e a exposição dos horrores nazistas, pensava-se que o engodo da limpeza racial estivesse sido eliminado. Não estava. Em agosto de 1997, soube-se que a Suécia, Noruega, Finlândia, Dinamarca, Suíça e Áustria continuaram esterilizando, discretamente, cidadãos qualificados de “baixa qualidade radical”.
A Suécia é um país conhecido pela excelência de sua democracia e justiça social, mas esterilizou pelo menos 62000 pessoas, em sua maioria mulheres, entre 1935 e 1976. Eram todos “voluntários” na letra da lei. Tudo dentro da lei, que servia a três propósitos declarados: impedir a “degeneração da raça”, “proteger” os portadores de “genes fracos” e, por último, poupar dinheiro. O Estado do bem-estar social, que começava a se instalar e a produzir resultados tão bons em tantas áreas, não queria ter de gastar recursos com quem considerava incapaz.
Através do episódio sueco, descobriu-se que nenhum dos países nórdicos, tão ciosos das liberdades individuais e celeiros de causas politicamente corretas, aboliu a esterilização para “limpeza da raça” depois da II Guerra Mundial. Ao contrário: ela continuou sendo praticada até os anos 60, quando os casos enfim foram diminuindo até a extinção das leis, sem alarde, na década seguinte. Na Dinamarca, 11 000 pessoas foram esterilizadas entre 1929 e 1967. Noruega e Finlândia admitiram cada uma, 1 000 casos. Nas críticas e denúncias, à Áustria 70% das deficientes mentais são esterilizadas até hoje.
Na Suíça uma lei promulgada em 1928, de “higiene racial” em vigor até 1977, serviu de modelo para Hitler. Seu maior incentivador: o psiquiatra Auguste Forel. Mesmo carecendo de fundamento científico, numa época em que pouco se sabia sobre genética em geral, a eugenia arrebanhou adeptos poderosos. Na Alemanha de Hitler, virou programa de governo e está na origem de seus piores crimes: uma das primeiras medidas do chanceler, ao assumir o poder, em 1933, foi implantar a esterilização de imediato, em portadores de “debilidade mental congênita, esquizofrenia, loucura circular (maníaco-depressiva), epilepsia hereditária e alcoolismo grave”. Como o objetivo era criar uma raça superior para dominar o mundo, também se perseguiram pessoas de “raças mistas ou indesejáveis”. Da esterilização forçada os nazistas passaram ao extermínio puro e simples
A Suécia apostou desde cedo na eugenia – em 1921, criou o primeiro Instituto de Biologia Racial. Logo foi seguida por uma legião de entusiasmados faxineiros raciais, entre eles os Estados Unidos, onde 60 000 pessoas foram esterilizadas à força na década de 30. Um dos maiores tentos dos eugenistas americanos foi a lei de imigração de 1924, que limitava com rigor a entrada de europeus do sul e do leste, considerados “inferiores”. O rótulo surgira anos antes, a partir de uma experiência feita com imigrantes, em moldes típicos do preconceito étnico, do racismo e da falta de bases sólidas da eugenia. Exautos, assustados, sem falar uma palavra de inglês, os recém-chegados eram submetidos a um interrogatório a que, obviamente, não conseguiram responder. Diagnóstico: “débeis mentais”. Os testes chegaram ao absurdo de concluir, em 1917, que 79% da imigração italiana era composta de idiotas.

(Fonte: Revista VEJA, 03 de Setembro de 1997 – INTERNACIONAL – Lizia Bydlowski – ANO 30 – N.º 35 – Edição 1511 – Editora ABRIL – Pág. 133)

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