Paulo Rocha, uma das referências do cinema português de vanguarda.

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Paulo Rocha (Porto, 22 de dezembro de 1935 – Vila Nova de Gaia, 29 de dezembro de 2012), cineasta português, uma das referências do cinema português de vanguarda.

Entre suas obras mais destacadas figuram A Ilha dos Amores, apresentada no festival de Cannes em 1982, e Os Verdes Anos, realizada em 1963, e considerada como uma referência do novo cinema português, inspirado na nouvelle vague francesa e no neorrealismo italiano.

Nascido em 22 de dezembro de 1935, na cidade do Porto, Rocha estudou cinema em Paris, no Instituto de Altos Estudos Cinematográficos (IDHEC), e foi assistente-realizador do cineasta francês Jean Renoir.

Em seu retorno a Portugal, Rocha trabalhou como assistente do famoso produtor português Manoel de Oliveira para o filme O Mistério da Primavera, de 1963.

Surgido nos anos 1960, sob a ditadura de Salazar, o cinema português de vanguarda foi censurado pelas autoridades, mas conseguiu adquirir uma reputação internacional.

Rocha morreu na manhã de 29 de dezembro de 2012, aos 77 anos, na cidade de Vila Nova de Gaia (norte do país). Rocha havia sido hospitalizado após um acidente vascular cerebral.
(Fonte: Zero Hora – ANO 49 – Nº 17.257 – 7 de janeiro de 2013 – MEMÓRIA – Pág; 42)

Paulo Rocha: o realizador que “viveu” cinema

É um cineasta maior, uma das referências incontornáveis de um cinema livre e inconformista gerado num país sem indústria, mas com uma força imagética em que muitas vezes não acreditamos.

Paulo Rocha, um grande cineasta -, alguém que mudou a paisagem representativa de uma cinematografia como a nossa, o pior a fazer é perder muito tempo com dados biográficos: nasceu no Porto em 22 de Dezembro de 1935, abandonou os estudos de Direito para ir estudar cinema no IDHEC, em Paris, foi assistente estagiário do grande Jean Renoir em O Cabo de Guerra (1962) e assistente de Manoel de Oliveira sobretudo em Ato de Primavera (1963).

Ou seja, “viveu” cinema, desde a sua participação na fundação do Cine Clube Católico com Bénard da Costa ou Nuno Bragança até à sua estreia como realizador com Verdes Anos (1963), o filme que transformou tudo no cinema português: da forma de conceber o espaço urbano, integrando na estafada dicotomia cidade-campo uma nova e radical forma de exílio, até à direcção de actores – rostos marcantes de uma nova visualidade, como Isabel Ruth, ou a recuperação de uma irreconhecível teatralidade, como Paulo Renato –, passando pelas condições de produção e de escrita – um cinema “pobre”, actuante, urgente e poético. Verdes Anos não representa apenas o início do Cinema Novo, é o manifesto de uma forma revolucionária de olhar para nós e para as nossas atávicas contradições, com poucos meios, muita imaginação e com um lirismo pungente: cerca de 50 anos depois permanece vivo e perturbante, como um retrato de família de um país e de uma sociedade em ruptura e em carne viva.

Segue-se-lhe, com a sequencialidade possível num cinema bissexto, outra obra-prima, desta vez rimando com as ruínas do neo-realismo, que Rocha recompõe com o mesmo rigor e petrificação com que o poeta Carlos de Oliveira, num território afim de dunas e ventos imemoriais, refaz o seu imaginário poético nos anos 60: Mudar de Vida (1966) toca na essência do nosso trágico atavismo, filmando o mar e as sombras de um passado atabafante com o desassombro de quem pensa em fotogramas um mundo que formalmente se reformula a cada olhar. Bastariam estas duas obras iniciais, às quais o cinema português que veio depois tudo deve, para que aqui e agora o estivéssemos a lembrar com aquele ar atônito de menino grande e desengonçado que a velhice e a doença não deixariam ocultar.

O resto (e é muito) tardou e foi-se espaçando ao sabor das muitas hesitações e dificuldades que se levantam a quem faz cinema neste Portugal de eternas crises feito: o belíssimo A Ilha dos Amores (1982), desmesurada homenagem ao cinema japonês que tanto amava, com luzes vindas de um Mizoguchi transfigurado e planos-sequência de um Ozu revisto sob pretexto de um Wenceslau de Moraes mais sonhado do que biografado; o desequilíbrio de O Desejado (1987), sempre em busca de desafiar a narratividade; o regresso à genialidade na perfeição irregular de O Rio do Ouro (1998), num território que tocava o de Oliveira, mas que se lhe contrapunha em delirante e quase surreal sinfonia de sons e cores com personagens que voam para, como na pintura de Marc Chagall, unir o real mais violento ao onirismo mais poético. E saltamos pequenas (mas importantes) incursões pelo modernismo em Máscara de Aço contra Abismo Azul (1989), para televisão, ou um dos melhores documentários sobre mestre Oliveira (1993), concebido como “arquitecto” de um mundo que Rocha recebera enquanto pedra angular.

Com a mudança de século, o realizador procurava, com a mesma ousadia de sempre, redescobrir-se em universos que, por vezes, lhe resistiam: A Raiz do Coração (2000), musical com travestis e transfigurações nocturnas, na busca de um cinema popular como o que descobrira, para espanto de muitos, em A Costureirinha da Sé (incursão colorida do “neo-realista” Manuel Guimarães, em 1959, pelos resquícios da opereta e da comédia à portuguesa), escolhida para uma retrospectiva própria com selecção de outros, causou nos que o admiravam grandes perplexidades que ainda se não resolveram e que Vanitas (2004) ajudou a agudizar.

Por descobrir fica Olhos Vermelhos [título de rodagem, entretanto mudado para Se Eu Fosse Ladrão, Roubava], um canto do cisne de que pouco se sabe. De uma vida cheia e intensa, feita de sonhos concretizados e desfeitos, fica um cineasta maior, uma das referências incontornáveis deste cinema livre e inconformista, gerado num país sem indústria, mas com uma força imagética em que muitas vezes não acreditamos: bastaria a fabulosa elipse da morte de Ilda, a frágil heroína de Verdes Anos, para podermos afirmar que Paulo Rocha está vivo naquela arte estranha de projecções de realidades que nunca existiram.

(Fonte: http://www.publico.pt/cultura/noticia – CULTURA/ Por Mário Jorge Torres – 29/12/2012)

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