Ismael Nery, foi um dos maiores artistas brasileiros, foi precursor do cubismo e do surrealismo no Brasil

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Ismael Nery (Belém do Pará, 9 de outubro de 1900 – Rio de Janeiro, 6 de abril de 1934), foi um dos maiores artistas brasileiros, foi precursor do cubismo e do surrealismo no Brasil, é uma espécie de gênio póstumo, cuja obra, praticamente ignorada pelos seus contemporâneos, ficou completamente esquecida até três decênios após sua morte, em abril de 1934.

Somente em 1965 o pintor foi redescoberto, quando teve um óleo incluído na exposição internacional de surrealismo e arte fantástica, da VIII Bienal de São Paulo. Em 1966 houve sua primeira retrospectiva, na Petite Galerie do Rio de Janeiro. Em 1968, uma pequena mostra de seus desenhos em São Paulo.
Ismael Nery, antes de tudo, foi um homem infeliz, perseguido por fantasmas familiares e por desejos quase infantis de reformar o mundo. Dentro de sua mente, como um trágico pano de fundo para sua obra, passeavam sempre as negras imagens da mãe que vira vagar louca pelas ruas com uma longa túnica de freira, do pai que perdera aos nove anos e do irmão desaparecido prematuramente aos dezoito. (*).
Ismael tentou abrigar-se na capa do humanismo, fazendo opções quase sempre incompreendidas: queria uma revolução social e chegou a pretender ingressar no Partido Comunista. Mas, profundamente religioso ao ponto de querer morrer numa sexta-feira da Paixão, a saída materialista lhe parecia apenas uma outra forma de sacrificar-se pelo sofrimento do povo.
O HOMEM EM PEDAÇOS – Religioso que recebia nu os seus convidados, a fim de chocá-los, místico que cortejava o Partido Comunista, franciscano que vestia as melhores roupas, Ismael Nery dividiu sua vida entre a indignação de não ser compreendido e o orgulho desta incompreensão: “Eu tenho raiva de ter nascido eu/ Mas eu só gosto de mim e de quem gosta de mim/ O mundo sem mim acabaria inútil”. Nem as três tragédias de sua infância bastam para explicar o seu temperamento rebelde e contraditório.
Estudante de humanidades, Ismael apaixonou-se pela pintura clássica – mas para desprezá-la. Na Escola de Belas-Artes abandonou logo o ensino acadêmico, para dar sua interpretação livre das estátuas gregas. Sensível a todos os movimentos da arte moderna, encontrou-se em Paris com os surrealistas André Breton e Marcel Noll (1927), aos quais admirava, mas recusou seus convites para abrir uma exposição.
Preferiu expor-se ao ridículo e aos insultos de público e crítica expondo em Belém, sua cidade natal (1928), e no Rio de Janeiro (1929 e 1930). Trocou uma talvez compensadora estada na Europa por um emprego de desenhista na diretoria do Patrimônio Histórico.
UMA ARTE À PARTE – Explosões estéticas e manifestos radicais sacudiram o Brasil em 1922, durante a Semana de Arte Moderna, em São Paulo, mas o barulho dessa revolução não mudou a vida de Ismael Nery. Nesse  ano casou-se com a futura poetisa Adalgisa Nery, modelo de alguns dos seus retratos e mãe dos dois filhos que ele desejava até em versos: “O meu maior instinto é o da paternidade, que aplico a tudo e a todos”. Mas diferenças de temperamento entre artista e modelo tornaram a vida de Ismael ainda mais conturbada. Apesar disso, ou talvez por isso, passou por um período de grande produção.
Simplificou e angulou suas obras, aplicando as lições do cubismo que aprendera em sua primeira viagem à Europa (1921). O que aprendeu na segunda e última, apesar da criação do Salão Nacional de Arte Moderna do Rio de Janeiro, em 1931, tampouco arrancou os críticos de sua sólida indiferença. Em suma, ninguém entendia por que fazer figuras humanas deformadas ou por que pintá-las soltas no espaço, com as tripas de fora. A paisagem fiel e os retratos “que só faltavam falar” eram os modelos exigidos. Uma década depois, as obras de Lasar Segall, Portinari, Di Cavalcanti e outros foram aplaudidas. Mas em 1928 era o próprio Portinari quem chamava Ismael de louco.
TRINTA ANOS DE SILÊNCIO – Na verdade, as poucas vozes que se levantaram a favor de Isnael – o pintor Guignard, em 1929, e Mário de Andrade, em 1928 – foram abafadas pelo acomodado bom senso geral. Anos depois, com os artigos esclarecedores de Mário de Andrade, Antônio Bento e Murilo Mendes, ficou fácil entender que Ismael foi um criador forte e notável. As influências dos expressionistas alemães, do cubismo de Picasso e do surrealismo de Marc Chagall diluíram-se com o passar dos anos, quando Ismael propôs uma arte madura, pessoal, colorida, erótica e livre.
Mas, no auge de sua atividade criadora, parecia sentir que para ele era tarde demais. Em 1933, um ano antes de morrer tuberculoso, trocou a sua pintura sem plateia por versos que ficariam muito tempo sem leitores: “Sou um ator desconhecido/ Sem palco, sem cenário e sem palmas”. Trinta e seis anos depois, em março de 1970, o Museu de Arte Brasileira (MAB), da Fundação Álvares Penteado, exibiu cerca de 250 trabalhos – entre óleos, desenhos e aquarelas – reuniu no entanto, a mais completa fases e tendências de Ismael Nery, a grande mostra de sua obra poderia ter como epígrafe um dos seus últimos versos: “Esperei até hoje que vós me descobrísseis”.
Quando seu corpo entrou no cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro, no dia 6 de abril de 1934, Ismael Nery, 34 anos, estava vestido com o hábito da Ordem de São Francisco de Assis. Fora esse seu último desejo: deixar este mundo com as roupas do santo que queria imitar no amor à pobreza.
(*) – O pai morreu de colapso cardíaco, aos 33 anos, num navio, quando voltava de um curso de medicina na Europa; o irmão, de febre espanhola, aos dezenove, no Rio de Janeiro; a mãe, em consequência, ficou louca.
(Fonte: Veja, 18 de março de 1970 – Edição 80 – ARTE – Pág: 70/71)
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