Aristides de Souza Mendes, grande humanista. Foi diplomata em Bordeaux, na França

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A lista de Sousa Mendes

O ex-cônsul de Portugal em Porto Alegre, na década de 20 do século XX, Aristides de Sousa Mendes, deu início há 69 anos – 16 de junho de 1940 – a uma trajetória de grande humanista. Como diplomata em Bordeaux, na França, ele começou, neste dia, a livrar dos nazistas mais de 30 mil pessoas, das quais 10 mil judeus e o restante de outras minorias perseguidas pelo regime de Adolf Hitler, concedendo vistos para que essas pessoas viajassem para áreas fora do alcance alemão. É uma história comovente, de alguém que desafiou ordens do seu chefe, o ditador português António Salazar, para se tornar um herói da humanidade.

(Fonte: Correio do Povo – Ano 114 – Nº 259 – CP História / Especial – terça-feira, 16 de junho de 2009 – Pág; 12)

Sousa Mendes: um anjo sobre Bordeaux
Aristides de Sousa Mendes, que foi cônsul em Porto Alegre, tem seu lugar na história ao livrar 30 mil do avanço do nazismo o museu do Yad Vashem, de Jerusalém, dedicado a manter a memória dos mártires do Holocausto, desde 1966 há uma árvore plantada em honra do português Aristides de Sousa Mendes. Não por acaso, a mais alta delas. Como na história de Oskar Schindler, já levada ao cinema, Sousa Mendes também teve sua lista, e não foi nada modesta.
Estima-se que o cônsul-geral emitiu, à revelia do governo de António de Oliveira Salazar, 30 mil vistos em Bordeaux, cidade francesa que, em 1940 acabou se tornando o refúgio de milhares de judeus e de outras minorias atacadas pelo avanço do nazismo na Europa. Segundo historiadores, 10 mil destes vistos foram dados diretamente a judeus.
Com uma extensa carreira diplomática, que culminou no ato heróico em plena Segunda Guerra, Sousa Mendes teve uma brilhante passagem por Porto Alegre, onde foi nomeado cônsul-geral de Portugal em meados de 1924, conforme amplamente relatado nas páginas do Correio do Povo (box abaixo). Aqui, se manteve à frente de muitos negócios para a manutenção das relações entre Brasil e Portugal.
Quando Salazar subiu ao poder, em 1927, nomeou Sousa Mendes como ministro das Finanças e, mais tarde, cônsul na Bélgica e, finalmente, em Bordeaux, na França. Oficialmente, Portugal se manteve neutro durante a guerra, mas, em 1939, Salazar proibiu os consulados de fornecerem vistos a refugiados sem consulta prévia. Sousa Mendes então conheceu o rabino Jacob Kruger, na intenção de conceder vistos para sua família migrar para Portugal. “Não sou só eu que preciso de ajuda, mas todos os meus irmãos que têm a vida em risco”, teria dito Kruger ao cônsul, fato então testemunhado por Pedro Nuno, um dos seus 14 filhos. Após um longo período avaliando a situação dizem, isolado em seus aposentos, Souza Mendes, na manhã de 16 de junho de 1940, sentenciou: “A partir de agora vou dar visto a toda gente. Deixou de haver nacionalidades, raças e religiões. Só agindo dessa forma, seguindo a minha consciência, serei digno da minha fé de cristão”. Os atos que se seguiram não encontram parâmetro na história dos grandes humanistas. Sousa Mendes montou um esquema beirando a “linha de montagem”, com o rabino recolhendo os passaportes e o cônsul aplicando seu carimbo a assinatura durante quatro ininterruptos dias. O cônsul também determinou que outros funcionários em Toulouse, Baiona e Hendaia fizessem o mesmo. Nas localidades, era comum encontrar Sousa Mendes, em praça pública, distribuindo os vistos em jornais e papéis em branco.
Foi delatado por um aliado de Salazar e, em 23 de junho, lhe foram retiradas todas as atribuições de cônsul. Em 30 de junho, os nazistas chegaram a Bordeaux.
Em sua volta a Lisboa, passou por um inquérito sobre a desobediência e sofreu todas as sanções possíveis, até sua aposentadoria compulsória. Em sua defesa, reafirmou que estava indo “segundo os ditames da consciência”.
“Meu desejo é mais estar com Deus contra o homem do que com o homem contra Deus”, disse. O nome de Aristides de Sousa Mendes só foi reabilitado em Portugal em 1988.
Em Jerusalém, no mesmo Yad Vashem, há também uma medalha em honra ao herói pouco reconhecido pelo mundo. Nela, uma inscrição:
“Quem salva uma vida, salva a Humanidade”. Digna de um justo entre as nações.
Aristides de Sousa Mendes, que foi cônsul em Porto Alegre, tem seu lugar na história ao livrar 30 mil do avanço do nazismo

(Fonte: Correio do Povo – Ano 114 – Nº 259 – CP História / Especial – terça-feira, 16 de junho de 2009 – Pág; 12)

Ato de bravura levou herói a morrer em completa miséria O ato de bravura do cônsul Sousa Mendes em Bordeaux entre 16 e 23 de junho de 1940 o levou a morrer na mais completa miséria. Conforme o neto António Sousa Mendes, que comanda a Fundação Aristides de Sousa Mendes, por ter movida uma ação contra o ditador Salazar no Supremo Tribunal Administrativo, em 1945, o cônsul destituído de suas funções no fim de junho de 40 encontrou o caminho da miséria. “Meu avô nunca foi de fato reformado. Ele morreu aguardando passagem à disponibilidade, com um pecúlio provisório. Os filhos não encontravam trabalho, ele tampouco e a possibilidade única era o caminho da miséria”, conta o neto.
Um dos biógrafos do cônsul, o jornalista português radicado em Fortaleza, Paulo M. A. Martins, lembra que quando da sua morte em Lisboa, aos 69 anos, no dia 3 de abril de 1954, Sousa Mendes realmente estava em estado de indigência. “Ele não tinha roupa para ser enterrado. Foi preciso pegar emprestado uma túnica de frades capuchinhos”, reporta, emocionado. O livro de Paulo Martins intitulado “De Aristides de Sousa Mendes a Austregésilo de Athayde” homenageia heróis brasileiros da Segunda Guerra como o vice-cônsul em Vichy (França), Luiz de
Souza Dantas; a chefe da Seção de Vistos do Consulado em Hamburgo, Aracy Guimarães Rosa, e o impulsionador da Declaração Universal dos Direitos Humanos, Austregésilo de Athayde.
Martins lembra que até 25 de abril de 1974, quando houve o desfecho da Revolução dos Cravos e não havia democracia e liberdade no país, Portugal não conseguiu render as justas homenagens a Sousa Mendes. “Sua reabilitação póstuma, pela Assembléia da República, só veio a ocorrer em 1988, 14 anos depois da Revolução”, explica. O jornalista lembra que se naquela época, início dos anos 40, a conjuntura política em Portugal fosse outra, as atitudes de Sousa Mendes seriam reconhecidas e teriam outras consequências. “O ditador António Salazar entendeu ser mais benéfico assumir-se como um colaboracionista, em
nome de um patético equidistanciamento ou falsa neutralidade e Sousa Mendes se tornou vítima da conjuntura”, aponta. O neto António Sousa Mendes lembra que apesar das injustiças que sofreu nos anos que antecederam sua morte, Sousa
Mendes se encontrava em paz de consciência. “O meu pai, Geraldo, era mais inconformado e exprimia sua indignação contra Salazar nas ruas, chegando a escrever carta a Marcelo Caetano no fim dos anos 50, esclarecendo quem realmente salvou os refugiados em 1940, pois Caetano escrevera artigo louvando Salazar pelo gesto”, recorda o neto. Segundo ele, o avô teve 14 filhos do seu primeiro casamento com Angelina e que todos foram foram perseguidos pela ditadura salazarista, por meio da Polícia Internacional e de Defesa do Estado (Pide), responsável pelas autorizações para melhores colocações em certos empregos ou funções públicas. “Hoje só sobrevive uma filha residente nos Estados Unidos, do segundo casamento do meu avô, adotada por ele em 1952”, finaliza o descendente do herói português em Bordeaux.

(Fonte: Correio do Povo – Ano 114 – Nº 259 – CP História / Especial – terça-feira, 16 de junho de 2009 – Pág; 12)

A atuação do então cônsul Aristides de Souza Mendes em Porto Alegre foi amplamente divulgada desde a sua designação para o cargo, em 1924, até sua volta a Portugal, em fevereiro de 1926. Suas conferências, principalmente na sede da Associação Comercial dos Varejistas de Porto Alegre, eram prestigiadas por notáveis da sociedade gaúcha da época, como o major Alberto Bins. Desde sua chegada na Capital, se notabilizou pelo patriotismo e pelo fortalecimento das relação entre Portugal e Brasil. “Devotado amigo da República” como se dizia, simpatia e admiração eram sentimentos comumente associados à pessoa do cônsul. Numa das suas conferências, Souza Mendes disse que “um português que fala de Portugal só pode ter como comparável um brasileiro falando do Brasil”. Logo após a sua chegada em Porto Alegre, em 3 de setembro de 1925, Vasco Borges, então ministro dos Negócios Estrangeiros, mandava telegrama em nome da colônia portuguesa onde, extensivamente, elogiava a atuação de Souza Mendes e solicitava sua efetivação com cônsul no RS.

(Fonte: Correio do Povo – Ano 114 – Nº 259 – CP História / Especial – terça-feira, 16 de junho de 2009 – Pág; 12)

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