O legado estético inovador do mestre Robert Creeley
Robert White Creeley (Arlington, Massachusetts, 21 de maio de 1926 – Odessa, Texas, 30 de março de 2005), poeta que repensou de maneira própria e original as vanguardas do início do século 20.
Creeley nasceu em 1926, na cidade de Arlington, no Estado de Massachusetts, na região denominada Nova Inglaterra. Ficou órfão de pai aos quatro anos e, aos cinco, perdeu seu olho esquerdo num acidente provocado por um carro, eventos que, segundo ele mesmo, marcariam sua vida. Abandonou o curso de Letras em Harvard. Serviu o exército americano durante a Segunda Grande Guerra na Índia e em Burma. Editou revistas de poesia.
Deu aulas no lendário Black Mountain College, entre 1954 e 1955. Sua bibliografia é bastante extensa: estreou, como poeta, com um livro inovador, em razão de sua substantividade, intitulado For Love: Poems (1950-1960). Publicara algumas plaquetes anteriormente. Escreveu um romance significativo A Ilha, 1963, reflexões sobre o período em que morou em Mallorca, na Espanha.
Entre os seus livros de poesia, gostaria de destacar alguns, remarcando que a produção de Creeley quase nunca foi um sucesso… de crítica, embora tenha tido, sempre, muitos leitores: na maior parte de seu percurso, foi atacado por críticos, que não aceitavam os “seus primitivos jogos de linguagem” ou que não entendiam suas construções que eram, aparentemente, simples ou mesmo tachadas de simplórias.
Creeley nunca ganhou prêmios e viveu quase sempre à margem. Destacaria livros importantes, além do já mencionado For Love, como Words (1965), Pieces (1968), Maztlan: Sea (1969), Thirty Things (1974) e os mais recentes Later (1978), Echoes (1982), Mirrors (1983), Windows (1990) e aquele que se pode considerar seu último volume de poemas Life & Death (1994).
Creeley é o poeta que repensou, de uma maneira própria e original, a partir dos anos 1950, o legado das vanguardas do início do século 20, vanguardas estéticas e políticas. Conviveu, no início, com inúmeros artistas de diversas correntes, entre eles William Carlos Williams e Ezra Pound, a partir dos quais, ainda também com as releituras de Thoureau, da Desobediência Civil, e Emerson, inventou uma poesia extremamente substantiva, construtivista, e, ao mesmo tempo, emotiva, descolando-se dos modelos mais óbvios das experiências vanguardistas de sua geração: a poesia beat, o verso projetico, e a poesia étnica nos EUA e as diversas poesias concretas, por exemplo, da Europa e do Brasil.
Creeley esteve em diálogo com muitos artistas de várias áreas e estilos, como já se observou. Foi parceiro dos artistas plásticos do Expressionismo abstrato, como Jasper Johns, Frank Stella, Franz Kline, com os quais se reunia no lendário Cedar”s Bar, em Nova York. Foi amigo dos beats e, entre eles, especialmente, de Allen Ginsberg.
Participou, nos anos 1950, da Renascença de São Francisco, movimento que fez eclodir a poesia beat e do Black Mountain College, ao lado de Charles Olson e Robert Duncan e John Cage, onde foi criado o “verso projetivo” e toda uma nova estética. Esteve próximo do cool jazz de Miles Davis e John Coltrane.
No dizer de Marjorie Perloff, que lhe reservou um estudo longo em seu Wittgenstein Ladder (1996.), “Creeley tem sido não apenas um poeta relativamente popular (na Alemanha, seus Collected Poems integraram a lista dos mais vendidos) mas, de um modo muito interessante, um poeta de poetas, cujo trabalho vem comandando a atenção não apenas de seus contemporâneos Black Mountain College e Beats (Charles Olson, Robert Duncan, Denise Levertov, Ed Dorn, Allen Ginsberg, Gilbert Sorrentino) mas dos novos autores, sobretudo, os associadas à Language Poetry como de Charles Bernstein, Lyn Heijnian, Michael Palmer, Susan Howe e outros”. Para estas novas gerações, prossegue a grande crítica norte-americana “o minimalismo de Creeley pode ser entendido como um novo tipo de realismo, linguagens em suas formas primitivas que nos revelam jogos e mistérios das comunicações comuns”.
Robert Creeley faleceu em 30 de março de 2005, em razão de um câncer no pulmão, em Odessa no Texas.
Ele estava em Marfa, Estado do Texas, como poeta residente num programa do Donald Judd Ranch.
(Fonte: http://epc.buffalo.edu/authors – Régis Bonvicino – O Estado de Sao Paulo [Brazil], April 3, 2005)

