Tamara Klink entra para a história ao se tornar a 1ª latino-americana a cruzar sozinha a Passagem Noroeste no Ártico

A velejadora brasileira Tamara Klink em seu pequeno veleiro “Sardinha” durante a travessia solo da difícil e histórica Passagem Noroeste do Ártico, realizada em 2025, em que se tornou a mais jovem e única mulher latino-americana a completar a rota.
Natural da cidade de São Paulo e formada em arquitetura naval pela Escola Nacional Superior de Arquitetura de Nantes, na França, é bem longe dos prédios da metrópole natal que a brasileira encontra sua essência, propósito e liberdade: navegando pelo oceano.
Tamara já fez outras expedições solo em lugares bastante desafiadores. Desde a primeira jornada a bordo de seu pequeno veleiro, o “Sardinha”, entre 2020 e 2021, quando atravessou o oceano Atlântico em solitário navegando da Noruega até o Brasil – sendo, também nesta ocasião, a mais jovem latino-americana a realizar o feito.
Nos anos seguintes, Tamara seguiu pelos mares em outras jornadas: em 2023, realizou a travessia do Atlântico em solitário até o Círculo Polar Ártico indo da França até a Groenlândia; e entre 2023 e 2024, fez uma Invernagem no Ártico também em solitário, passando oito meses de inverno polar com o barco preso no mar congelado da Groenlândia. A ocasião também se tornou um marco e ela é a primeira mulher registrada a invernar sozinha nos polos – o seu último desafio antes da travessia realizada esse ano.
Com todo este currículo, National Geographic Brasil aproveitou para entrevistar com exclusividade Tamara Klink em seu retorno após a travessia no Ártico e saber como é o desafio de realizar tantas jornadas em solitário, em especial a Passagem Noroeste do Ártico, que é considerada um desafio para qualquer navegador.
A seguir, a velejadora fala das impressões que teve ao longo da viagem em relação às mudanças climáticas, e do impacto que o fenômeno tem sobre os nos animais da região, bem como detalha a experiência pessoal que uma jornada desse nível proporciona.
O que é a Passagem Noroeste, a desafiadora travessia feita por Tamara Klink
A Passagem do Noroeste é uma rota procurada desde o século 16 e que, historicamente, era muito complicada de se navegar e pouco prática comercialmente por conta da enorme quantidade de gelo presente nela. Ela se estende da Groenlândia até o estado norte-americano do Alasca.
O local marcou a história da navegação com o misterioso desaparecimento, em 1847, do barco de Sir. John Franklin e seus 128 marinheiros. Graças às expedições de busca por Franklin, foram criados mapas que ajudaram futuros navegadores a completar a rota, destacando a conquista do navegador norueguês Roald Amundsen, que a completou em agosto de 1905.
“O local marcou a história da navegação com o misterioso desaparecimento, em 1847, do barco de Sir. John Franklin e seus 128 marinheiros.”
Foi este caminho, até hoje considerado um dos mais difíceis do Ártico, que Tamara decidiu visitar em 2025, partindo para sua jornada mais desafiadora até então. Buscar o ponto inóspito, de difícil navegação, com frio extremo e fazer isso sozinha como Tamara realizou na Passagem Noroeste do Ártico, pode parecer estranho para muita gente, mas para essa jovem brasileira se tratou de um aprendizado único e libertador.
“A Passagem Noroeste mudou muito ao longo do tempo e já foi possível fazer essa travessia caminhando pelo mar congelado. Depois, somente grandes barcos com quebra-gelo foram se aventurando em viagens muito difíceis. Hoje, com o aquecimento global e a redução do gelo marinho, consegui fazer essa jornada com um pequeno veleiro, um exemplo real dessa grande mudança no planeta”, afirma.
Dormindo pouco e com risco de congelar: como foi a viagem de Tamara Klink pela Passagem Noroeste
Tamara saiu no final de julho do porto de Aasiaat, na Groenlândia, para iniciar sua trajetória em sua própria companhia pelo mar do Ártico rumo ao Alasca. Em seu pequeno veleiro de aço de apenas 10 metros, ela seguiu pelo labirinto águas congelantes e de icebergs, desde locais (e paradas em vilarejos) que já conhecia de sua viagem anterior à Groenlândia rumo à paisagens inóspitas e novas para ela.
Dormindo em alguns trechos do caminho apenas em ciclos de 20 minutos, sem água corrente ou chuveiro, as dificuldades e a solitude fortalecem Tamara a continuar a enfrentar desde correntes marítimas muito fortes, degelo de grandes icebergs e tempestades perigosas. Além claro, o perigo da proximidade com os animais, como um urso polar.
“Continuar viva era mais difícil do que morrer, pois se eu ficasse sem casaco eu congelava, se eu caísse na água, eu congelava… E mesmo assim eu me sentia muito feliz de estar lá, muito grata por tudo, por cada copo de água”, relata Tamara.

