Jaguar, foi um dos mais importantes cartunistas do Brasil, foi uma das mentes por trás de jornal alternativo que virou símbolo da resistência à ditadura militar, foi um dos fundadores de O Pasquim, jornal que fez história ao azucrinar os militares durante a ditadura no Brasil (1964-1985)

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Cartunista Jaguar era dono de traço inconfundível, chargista afrontou a ditadura com humor.

O cartunista foi um dos criadores do jornal satírico O Pasquim, em 1969.

O cartunista Jaguar mostra livro que escreveu com memórias sobre o bairro de Ipanema, no Rio de Janeiro. Foto tirada em dezembro de 2000. (Crédito da fotografia: Cortesia © Copyright All Rights Reserved/ Celso Junior/Estadão ®/ REPRODUÇÃO/ TODOS OS DIREITOS RESERVADOS)

 

 

Sérgio de Magalhães Gomes Jaguaribe (nasceu em 29 de fevereiro de 1932 no Rio de Janeiro – faleceu em 24 de agosto de 2025, no Rio de Janeiro), histórico cartunista brasileiro, popularmente conhecido como Jaguar, escreveu livros e contribuiu com revistas e jornais.

Um dos mais importantes cartunistas do Brasil, foi uma das mentes por trás de jornal alternativo que virou símbolo da resistência à ditadura militar.

Ele foi um dos fundadores de O Pasquim, jornal que fez história ao azucrinar os militares durante a ditadura no Brasil (1964-1985), e que revolucionou o jornalismo e o humor durante a ditadura militar, além de suas frases ácidas, bem-humoradas e mal-humoradas sobre a vida, a morte, a política e o trabalho.

Jaguar estreou como cartunista na década de 1950, aos 20 anos, com um desenho publicado na coluna de humor Penúltima Hora, do jornal carioca Última Hora. À época, era funcionário do Banco do Brasil. Em 1958, passou a publicar charges na página de humor da revista Manchete.

O pseudônimo Jaguar, com o qual ele ascendeu à fama, foi uma sugestão de Borjalo (1925-2004), colega de profissão que o antecedeu na revista Manchete e qye foi um dos grandes nomes dos primórdios da TV Globo.

O traço marcante, o humor refinado e as críticas contundentes renderam a Jaguar convites para atuar em outros veículos, como as revistas Senhor, Civilização Brasileira, Pif-Paf e Revista da Semana, além dos jornais Tribuna da Imprensa e Última Hora.

Tirou sarro da ditadura

Foi durante a ditadura que Jaguar lançou um de seus personagens mais conhecidos, o ratinho Sig, mascote do jornal O Pasquim, publicação satírica criada em 1969 por ele, Millôr Fernandes, Tarso de Castro, Sérgio Cabral, Henfil, Ziraldo e Paulo Francis. Ali, além de cartunista, atuou como editor e diretor.

Os atritos recorrentes de O Pasquim com a ditadura renderam a Jaguar diversos processos e três meses na prisão – por ironizar o quadro Independência ou Morte, de Pedro Américo, retratando um Dom Pedro 1º que bradava “Eu quero mocotó!!”.

O Pasquim seguiu ativo na redemocratização, mas deixou de circular em 1991.

Após o fim do Pasquim, Jaguar atuou em diversas outras publicações da imprensa nacional. Nos jornais O Dia e A Notícia, publicou ilustrações, textos e crônicas. Também colaborou para os jornais Correio da Manhã e Folha de S.Paulo – nesta última, publicou cartuns até julho.

 

Ao longo das décadas, além de suas tirinhas ou charges publicadas em jornais como O Pasquim, também assinou alguns livros.

Entre as obras de Jaguar, a maioria são compilações republicando o que já havia feito de melhor nos periódicos. Mas há também diversos textos relatando histórias curiosas a respeito de sua vida, das pessoas com quem conviveu e dos lugares que frequentou. Confira algumas das principais obras de Jaguar.

 

Átila, Você É Bárbaro (1968)

 

Átila, Você É Bárbaro (1968) Capa de uma das edições mais recentes de 'Átila, Você É Bárbaro', com charges do cartunista Jaguar. Foto: Editora Sesi-SP

Átila, Você É Bárbaro (1968) – Capa de uma das edições mais recentes de ‘Átila, Você É Bárbaro’, com charges do cartunista Jaguar. Foto: Editora Sesi-SP

 

 

 

Em uma das edições mais recentes, lançada pela editora Sesi-SP, há uma caricatura do próprio Jaguar com a inscrição: “46 anos depois da primeira edição”. Seu personagem diz: “Comparado com os vândalos de hoje, o Átila não passa de um doce bárbaro”.

Na contracapa, destaca-se que “os cartuns de Jaguar mostram a força do humanista no combate à ignorância, ao preconceito, à violência”, envolvendo temas como política, religião, arte, psicanálise e fraquezas humanas.

 

Os desenhos são diversos. Alguns, são de humor simples, como um vampiro roubando um banco de sangue. Ou um grupo de homens das cavernas tendo o primeiro contato com o fogo, enquanto um diz: “Meu Deus! Isso é o fim da civilização!”. O talento de jaguar fica por conta dos detalhes, nas expressões de cada personagem, e por vezes na maneira em que faz o leitor refletir.

 

 

Ninguém É Perfeito (1973)

 

 

Capa do livro 'Ninguém É Perfeito', tradução de 'Nadie Es Perfecto', lançado pelo cartunista na Argentina em 1973; material chegou ao mercado brasileiro apenas 35 anos depois. Foto: Editora Desiderata

Capa do livro ‘Ninguém É Perfeito’, tradução de ‘Nadie Es Perfecto’, lançado pelo cartunista na Argentina em 1973; material chegou ao mercado brasileiro apenas 35 anos depois. Foto: Editora Desiderata

 

 

O livro foi publicado em 1973, mas apenas na Argentina. Acabou surgindo no mercado brasileiro somente muitos anos depois. “Voltei para o Rio, cai na gandaia e esqueci dele”, dizia Jaguar antes do relançamento, agora ao público daqui.

O fato é destacado na contracapa da versão mais recente, da editora Desiderata: “Foram 35 anos de espera. Muitos duvidavam da sua existência mas, depois de décadas, finalmente o livro perdido de Jaguar surge para o público brasileiro”.

Entre os destaques, o prefácio feito por Quino – ou melhor, por Mafalda, sua mais conhecida criação, que é quem diz: “Imperfeitos como Jaguar reconciliam qualquer um com as imperfeições da vida”.

Numa das charges, uma jangada de madeira com dois náufragos. Ao longe, uma explosão em formato de ‘cogumelo’, semelhante à de uma bomba atômica. “Civilização!”, exclama um deles, sorrindo. Em outra, um homem sugere que Isaac Newton saia de baixo de um pé de jaca e sente-se sob uma macieira. Também constam desenhos de alguns de seus personagens mais conhecidos, como Gastão, o Vomitador e Bóris, o Homem-Tronco.

Capa de livro sobre as memórias de Jaguar sobre o bairro de Ipanema, no Rio, parte da coleção Cantos do Rio. Foto: Rioarte

Capa de livro sobre as memórias de Jaguar sobre o bairro de Ipanema, no Rio, parte da coleção Cantos do Rio. Foto: Rioarte

O livro fez parte da coleção Cantos do Rio, lançada no fim da década de 1990. Além da obra de Jaguar, havia também Leblon – Crônica dos Anos Loucos (Geraldo Carneiro); Baixo Gávea – Diário de Um Morador (José Almino); e Leme (Arthur Poerner).

O cartunista resgatou suas próprias memórias como alguém que viveu na região de Ipanema durante uma fase de efervescência de personalidades e artistas na região carioca. Nas páginas do livro, conta, por exemplo, sobre a fundação da Banda de Ipanema e histórias envolvendo alguns de seus amigos, como Hugo Leão Castro.

Confesso que Bebi – Memórias de um Amnésio Alcoólico (2001)

Capa do livro 'Confesso Que Bebi', em que Jaguar relata suas 'histórias de bar'. Foto: Editora Record

Capa do livro ‘Confesso Que Bebi’, em que Jaguar relata suas ‘histórias de bar’. Foto: Editora Record

A semelhança com o título de Confesso Que Vivi, de Pablo Neruda, não é mera coincidência: o próprio Jaguar admitia o “plágio”-homenagem à época. Trata-se de uma seleção de diversos textos que publicou no jornal O Dia, do Rio de Janeiro, ao longo dos tempos, publicada pela editora Record. A sugestão para compilá-los em livro veio de Millôr Fernandes.

“É um guia dos bares em que eu bebi. É dedicado a umas 380 pessoas que fui encontrando nesses bares”, dizia ao Estadão o cartunista, que nas páginas também dedicava a obra a “Jesus Cristo, que transformou água em vinho”. À época, Jaguar tinha o plano de fazer “lançamentos-relâmpago” da publicação em dezenas dos bares citados – desculpa, evidentemente, para beber mais um pouco e criar novas memórias em cada um deles.

É Pau Puro (1982)

Como nos outros livros, traz diversas de suas charges pela editora Círculo do Livro. Neste caso, uma seleção de 10 anos do que havia publicado em O Pasquim. Em uma, o diabo segurando um tridente está numa sala da Warner Bros. A secretária, desesperada, fala ao telefone: “Diz que veio receber direitos autorais pelo Exorcista!”. Em outra, dois exploradores brancos olham para dois homens negros na água. “Devem ser, provavelmente, de alguma república africana emergente”.

Também há trechos bem-humorados, como as páginas em que relata sua viagem de dois dias para Cuba nos anos 1960. “O pessoal da Rádio Habana Libre estava me esperando para uma gravação. A que eu atribuía a minha invitación? A um engano. Não sou comunista e, além disso, pensavam que eu era preto. Não era um engano, os cubanos sempre apreciaram meus trabalhos no Cruzeiro. (Nunca trabalhei no Cruzeiro, fiquei certo que eles queriam convidar era o Ziraldo, mas fiquei na minha)”, escreve Jaguar.

O Pasquim e outros personagens de Jaguar

Jaguar esteve entre os fundadores do histórico semanário satírico O Pasquim, em que trabalharia ao lado de nomes como Ziraldo, Tarso de Castro, Henfil, Paulo Francis e Millôr Fernandes pelas décadas seguintes.

Reprodução de ‘O Rato Que Ruge’, desenho de Jaguar. Foto: Arquivo/Estadão

Alguns de seus principais personagens surgiram ou ao menos apareceram nas páginas do jornal, como o Capitão Ipanema (“Mistura do Fantasma Voador com sei lá o que”, definia o cartunista), inspirado em seu amigo, o ator Hugo Leão Castro, que também inspirou o ratinho Sig (uma paródia de Sigmund Freud), por conta do ratinho branco que tinha como mascote. Havia ainda Os Chopnics, que publicava no jornal Última Hora.

 

Trajetória

Jaguar nasceu em 29 de fevereiro de 1932 no Rio de Janeiro, mas passou sua infância e parte da adolescência dividido entre as cidades de Juiz de Fora, em Minas Gerais, e Santos, em São Paulo.

Já de volta ao Rio, o cartunista começou a carreira desenhando na revista Manchete em 1952, aos 20 anos. Na época, ele trabalhava no Banco do Brasil, de onde só sairia nos anos 70.

Nos anos 1960, assumiu o pseudônimo que o acompanharia durante a vida profissional, após sugestão do colega desenhista Borjalo.

O cartunista foi um dos criadores do jornal satírico O Pasquim, em 1969, com conteúdo ácido e crítico à ditadura militar vigente no Brasil.

Naquele período, lançou um de seus personagens mais conhecidos, o ratinho Sig, que também foi mascote do Pasquim.

O cartunista foi preso durante a ditadura militar, após publicar uma charge em que fazia uma montagem do quadro “Independência ou morte”, em que Jaguar colocou a frase “Eu quero é mocotó” em um balão de diálogo.

“Eu fiz esse negócio e foi um deus-nos-acuda, rapaz! Eu tava viajando, na minha casa de pescador lá em Arraial do Cabo. Quando voltei, me aconselharam. ‘Se esconda Jaguar, tá todo mundo preso!'”, relatou em entrevista ao portal da ABI, em 2009. Jaguar se entregou e ficou preso por dois meses.

Nos anos 2000, foi indenizado pela comissão de Anistia devido à perseguição política ocorrida no período.

Durante sua carreira, Jaguar trabalhou com nomes como Ziraldo, Millôr Fernandes, Henfil e outros mestres das artes gráficas.

Além de criar o Pasquim, Jaguar também contribuiu com diversas revistas: Senhor, Civilização Brasileira, Pif-Paf e jornais como A Última Hora, Tribuna da Imprensa e O Dia.

Jaguar ainda lançou livros como “Átila, você é Bárbaro” em 1968, e “Ipanema, se não me falha a memória”, em 2000.

O primeiro foi um sucesso que marcou chargistas e cartunistas por gerações pelo traço e pela ironia do texto de Jaguar.

Na TV Globo, Jaguar fez animações para as vinhetas do Plim Plim, que marcaram época na TV brasileira.

Os personagens inesquecíveis criados por Jaguar

O cartunista Jaguar, um dos fundadores de O Pasquim, deixou uma marca única no humor brasileiro — não apenas pelas charges afiadas, mas também pelos personagens irreverentes que criou entre as décadas de 1960 e 1970.

O primeiro grande sucesso surgiu nos anos 1960, quando ele foi convidado a desenvolver a tirinha Chopnics para uma campanha da cerveja Skol.

Inspirada no universo dos beatniks, a série trouxe figuras como o Capitão Ipanema, mas quem realmente se destacou foi um ratinho branco que acompanhava as histórias. Batizado de Sig, em referência a Sigmund Freud, o personagem sobreviveu ao fim da campanha e se tornou o mascote oficial do jornal O Pasquim.

Em 1968, Jaguar lançou seu primeiro livro, Átila, Você É Bárbaro, que apresentou ao público outro personagem marcante: o próprio Átila, síntese de seu humor ácido e crítico.

Já nas páginas de O Pasquim, em julho de 1972, ele deu vida a Gastão, o Vomitador, durante uma entrevista com o diretor Carlos Manga. O personagem, que aparecia sempre vomitando, teve vida curta, mas virou símbolo do espírito debochado do semanário.

Outro personagem que marcou sua trajetória foi Bóris, o Homem-Tronco — um sujeito sem pernas que se locomovia em um carrinho quadrado.

Jaguar morreu no domingo (24) no Rio de Janeiro. A informação foi confirmada por familiares de Jaguar à TV Globo.

O cartunista estava internado no hospital Copa D’or, com infecção respiratória, que evoluiu com complicações renais. Ainda segundo a unidade de saúde, nos últimos dias, ele estava sob cuidados paliativos.

O velório de Jaguar foi na capela celestial do crematório Memorial do Carmo, na zona norte do rio. A cremação foi às 15h.

Repercussão

O cartunista Chico Caruso, em entrevista à GloboNews, elegeu Jaguar como o “melhor cartunista brasileiro” e disse que o visitou no hospital poucos dias antes de morrer.

“Ele era o melhor cartunista brasileiro, meu amigo querido e é uma perda irreparável para o humor e para o Brasil”, afirmou Caruso.

O cartunista ainda falou sobre sua relação com o colega. “Era o melhor dos amigos possíveis que se podia ter, e um profissional fantástico”.

“Millôr Fernandes era grande, Ziraldo era grande, mas só ele era o Jaguar”. Inigualável, inestimável, inimitável Jaguar’ , Chico Caruso

O cartunista Aroeira chamou Jaguar de mestre, professor, amigo e inspiração, lamentando sua morte:

“Jaguar foi mestre, professor, amigo, inspiração, gênio, um dos maiores chargistas que eu já vi no planeta como um todo. Incansável, trabalhou até o último minuto, sempre absolutamente crítico, sempre feroz, sempre amado por gerações e gerações seguidas de cartunistas”

 

O cartunista Miguel Paiva também falou de sua admiração por Jaguar e seu estilo:

“Eu queria desenhar como ele, mas nunca consegui”

O cartunista André Dahmer falou sobre a importância de Jaguar para a cultura brasileira:

“Uma pessoa muito espirituosa, com um trabalho imenso, muito inteligente. Uma perda irreparável para todos nós. O Cartum brasileiro, charge. Deixou livros memoráveis de charge e cartum, tipo “O Átila”. Ele escreveu um livro muito interessante chamado “Confesso que Bebi”, que é uma resenha de vários botecos do Rio de Janeiro. Uma contribuição muito grande de cultura brasileira. Era um cara de uma personalidade enorme e muito bonita.”

“Adeus ao maior. Todas as reverências ao carinhoso mestre, dono do traço mais rebelde do cartum brasileiro. Seguimos aqui com sua benção. Te amamos, querido e eterno Jaguar!”, escreveu Angeli.

“O Pasquim, como um todo, era uma espécie de Monte Olimpo, e Jaguar era um deus muito especial, acolhedor. Sempre deu uma palavra de incentivo”, disse a cartunista Laerte neste domingo à emissora GloboNews.

 

Relembrando histórias

Em 2014, durante a 12ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), na mesa “Millormaníacos”, Jaguar provocou gargalhadas na plateia ao recordar seu convívio com o homenageado Millôr Fernandes, citando episódios que envolvia uma cusparada que certa vez o amigo tomou de Chico Buarque, seu então desafeto, num bar.

“O Millôr jogou tudo que tinha na mesa em cima do Chico, errou e acertou no garçom”, contou, entre risos na época.

(Direitos autorais reservados: https://www.terra.com.br/noticias – Deutsche Welle/ NOTÍCIAS/ por Agência Brasil – 24 ago 2025)

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