Primeiro ídolo da juventude brasileira a ser cultuado depois de morto

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Primeiro ídolo da juventude brasileira a ser cultuado depois de morto

Cena do documentário "Raul — o Início, o Fim e o Meio", de Walter Carvalho. (Foto: Divulgação/ Paramount Pictures)

Cena do documentário “Raul — o Início, o Fim e o Meio”, de Walter Carvalho.
(Foto: Divulgação/ Paramount Pictures)

Raul Santos Seixas (Salvador, 28 de junho de 1945 – São Paulo, 21 de agosto de 1989), um dos mais talentosos e irrequietos compositores do país. O roqueiro que falava a todas as plateias com seu bom humor e sua ironia nasceu em Salvador. Nos tempos em que frequentava as paradas de sucessos, nos anos 70, Raul se tornou um personagem único na música brasileira. Por um lado, era aclamado pelos jovens como o pai do rock nacional. Desempenhava o papel à perfeição, incendiando as plateias com palavras de ordem típicas da contracultura. Por outro lado, seus rocks, influenciados pelos ritmos nordestinos, ganhavam letras que os tornavam populares entre todas as faixas de público.

Em seu primeiro sucesso, Ouro de Tolo, por exemplo, ele ironizava de maneira impagável a classe média colocando-se no lugar do homem que tem tudo – até um “Corcel 73” – e acha tudo entediante. Depois, vieram sucessos como Gita, O Dia Em Que a Terra Parou e Maluco Beleza. Embora sua popularidade estivesse em baixa, Raul tinha fã-clubes fiéis, que enxergavam nele um eterno contestador das instituições, e seus shows invariavelmente se transformavam em celebrações concorridas e apoteóticas.

Os espectadores que acorreram aos cinquenta shows da turnê de Raul Seixas, encerradas em agosto em Brasília, em que se apresentava com o guitarrista e discípulo Marcelo Nova, experimentavam um misto de alegria e espanto. Afastado há anos dos palcos nobres do país e em baixa nas paradas de sucessos, Raul parecia ensaiar uma volta ao posto de um dos mais talentosos e irrequietos compositores do país.

Previam-se novas tiradas do debochado roqueiro das frases de efeito, que, em plena época dos yuppies, era capaz de erguer um coro de milhares de vozes num ginásio ao entoar seu velho refrão Viva, viva a sociedade alternativa. Ao mesmo tempo, nos shows da turnê, tornava-se evidente que algo ia mal com Raul Seixas. No palco, a ginga animada e desafiadora de roqueiro era substituída por uma pose estática ou por passos trôpegos. A voz, que costumava ricochetear possante pelos alto-falantes, reduzia-se a um fiapo. Para completar a surpresa, Raul entrava em cena apenas na segunda metade dos shows, cabendo a Marcelo Nova o papel de destaque.

A turnê representou o canto do cisne de Raul. Na manhã de segunda-feira, dia 21 de agosto, aos 44 anos, ele foi encontrado morto por sua governanta em seu apartamento, em São Paulo. O laudo médico apontou parada cardíaca causada por pancreatite crônica. A morte de Raul emocionou a tribo dos roqueiros em todo o país. Seu corpo foi velado no Palácio das Convenções do Anhembi, em São Paulo, por multidões de fãs e, no dia seguinte, foi levado para Salvador, onde o compositor nasceu e onde cerca de 2 000 pessoas compareceram ao enterro, muitas delas carregando violões para entoar suas músicas. Da família estavam presentes seus pais e seu único irmão. Raul foi casado cinco vezes e tinha três filhas, das quais duas moram nos Estados Unidos e não puderam vir a tempo para o enterro.

CAMICASE – Para os amigos e os vizinhos de Raul Seixas, sua morte não chegou a constituir surpresa. Nos últimos anos, com problemas financeiros e desgostoso com a falta de sucesso, o compositor vivia em estado de depressão. Diabético, era obrigado a injetar doses diárias de insulina, com risco de vida se falhasse um único dia. Frequentemente Raul se negava a tomar as injeções, como no fim de semana antes de sua morte. Como diabético, não podia beber, mas diariamente, a partir do começo da tarde, frequentava os bares em volta de sua casa, onde consumia doses fartas de uísque com guaraná ou vodka com soda-laranja. Quase sempre precisava ser levado até a porta de seu prédio, embriagado. Há meses, durante um período, adicionou a seus hábitos o de cheirar éter para obter efeito estupefaciante. “Ele havia abdicado do instinto natural de preservação, não tinha medo da morte e tornou-se um camicase em marcha lenta”, diz Marcelo Nova. Com sua morte, a MPB perde um artista original.

(Fonte: Veja, 30 de agosto de 1989 – ANO 22 – Nº 34 – Edição 1094 – DATAS – Pág; 87)

(Fonte: Veja, 2 de novembro de 1994 – ANO 27 – Nº 44 – Edição 1364 – MÚSICA/ Por João Gabriel de Lima e Celsso Masson – Pág: 152/153)

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