Juan José Torres, ex-chefe do Estado Maior do Exército e ex-presidente esquerdista de seu país

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A morte de Torres

Juan José Torres Gonzáles (Cochabamba, Bolívia, 5 de março de 1920 – Buenos Aires, 2 de junho de 1976), ex-chefe do Estado Maior do Exército e ex-presidente esquerdista de seu país entre 7 de outubro de 1970 e 21 de agosto de 1971. Torres transformou a Bolívia numa espécie de laboratório para uma vaga experiência socialista.

Pouco depois das 18 horas da tarde de 2 de junho, o ministro do Interior da Argentina, general Albano Harguindeguy (1927-2012), convocou a seu gabinete em Buenos Aires dezenas de jornalistas. Ali, com expressão mais grave do que habitualmente, o ministro denunciou a existência de uma campanha “muito bem dirigida do exterior” para desprestigiar as atuais autoridades de seu país. Com igual energia, Harguindeguy desmentiu que o ex-presidente da Bolívia, Juan José Torres, de 56 anos, tivesse sido detido pela polícia argentina – e pôs em dúvida seu próprio desaparecimento, denunciado pela sra. Emma Torres na noite anterior.

Com isso, o ministro apenas contribuiu para aumentar o temor de que, ao sumir no trajeto entre sua casa e o barbeiro, Torres houvesse sido sequestrado. Para Harguindeguy, a hipótese de sequestro do ex-presidente, asilado na Argentina desde setembro de 1973, era fruto de “informações tendenciosas”. Três horas e 5 minutos depois, o cadáver do ex-presidente boliviano, com as mãos atadas, os olhos vendados e três orifícios de bala na cabeça, foi encontrado numa estrada de terra próxima à pequena cidade de San Andrés de Giles, a cerca de 100 quilômetros de Buenos Aires.

“Punição”? – Ao governo argentino não restou alternativa senão anunciar o fato numa lacônica nota oficial, às 14 horas de quinta-feira, ou seja, dezessete horas depois de encontrado o corpo do ex-presidente, cujo assassínio foi atribuído à ação da “guerrilha interna e externa”. Naturalmente essa versão não contribuiu muito para aclarar o cada vez mais sombrio quadro da violência na Argentina.

É de fato possível que terroristas de esquerda tenham assassinado Torres, para prejudicar a imagem de moderação que o general Jorge Rafael Videla tenta imprimir ao governo por ele presidido. No entanto, o infinito leque de hipóteses sobre a autoria do crime leva também ao polo oposto – ou seja, os assassinos seriam elementos de extrema direita, igualmente interessados em tornar impraticável o cumprimento das promessas de liberalização e retorno à normalidade feitas por Videla logo após o golpe militar que derrubou Isabelita Perón em 24 de março de 1976.

Numa terceira versão, Torres teria sido assassinado pela extrema direita por outro motivo – uma “punição” por seu suposto apoio à “Junta de Coordenação Revolucionária”, uma espécie de multinacional da subversão latino-americana. Fundada em 1974 por componentes das organizações extremistas Exército Revolucionário do Povo, da Argentina, Movimento de Esquerda Revolucionária, do Chile, Exército de Libertação Nacional, da Bolívia, e tupamaros uruguaios, a “Junta” pretenderia desencadear um plano global de ação subversiva nos quatro países.

Banzer – Como seria de esperar, também circulou, principalmente entre a numerosa comunidade de asilados bolivianos em Buenos Aires, a versão de que os assassinos de Torres estariam cumprindo ordens vindas da Bolívia, onde o ex-presidente representaria um perigo em potencial para o governo do general Hugo Banzer, dado seu suposto prestígio entre certos setores do Exército. Irresistivelmente, a morte de Torres foi associada ao recente assassínio do ex-embaixador da Bolívia em Paris, general Joaquím Zenteno Anaya, igualmente apontado como eventual líder de uma das eternas conspirações militares bolivianas.

Antecipando-se a acusações desse tipo, Banzer imediatamente solicitou ao governo argentino a realização de “investigações minuciosas” para esclarecer o crime e pediu a repatriação dos restos mortais de Torres. A favor do presidente, de qualquer forma, existe a possibilidade de o crime ter sido cometido exatamente por grupos bolivianos adversários seus, empenhados em criar problemas ao seu governo. Com efeito, a notícia da morte de Torres foi recebida pela poderosa Federação dos Mineiros Bolivianos com a decretação de uma greve de 24 horas e luto de quinze dias.

“El Petiso” – A homenagem foi justificada pelo presidente da Federação Víctor López, com a afirmação de que Torres fora “um presidente dos trabalhadores, que jamais esmagou as liberdades sindicais”. Contudo, ao chegar ao poder, em outubro de 1970, após uma sucessão de acontecimentos político-militares que levaram ao Palácio Queimado, a casa do governo em La Paz, seis presidentes em menos de 48 horas, El Petiso, ou “o Baixote”, não foi bem-vindo pelos setores mais esquerdistas da Bolívia. De fato, não faltaram as recordações de que, na época da morte de Che Guevara pelos rangers bolivianos, em 1967, Torres era o chefe do Estado Maior do Exército de seu país.

No entanto, em dez meses de governo – talvez levado menos pelas próprias convicções ideológicas do que por pressão dos setores mais radicais do país – Torres transformou a Bolívia numa espécie de laboratório para uma vaga experiência socialista. A expressão mais notória dessa tentativa foi a fugaz Assembleia do Povo, um sucedâneo de soviete à boliviana, ao qual tinham acesso delegados dos principais sindicatos, partidos de esquerda, universitários e representantes de algumas categorias profissionais. Em agosto de 1971, a experiência foi liquidada e Torres, segundo o inexorável rito do golpismo militar em seu país, foi deposto por Hugo Banzer.

Média elevada – Após um curto período de exílio no Peru, ele se fixou no Chile, de onde saiu depois da queda do governo de Salvador Allende, em setembro de 1973, para residir na Argentina. Em Buenos Aires, o ex-presidente não tomou a precaução de aceitar proteção policial, mesmo ante o alarmante crescimento da onda de sequestros e mortes políticas naquele país. Apenas em 1976, o número de vítimas da violência política na Argentina atingiu a cifra de 477, das quais 321 após o golpe militar de 24 de março – numa média de quinze por dia, segundo o padre suíço Jacques Milo, que esteve recentemente no país como representante da Federação Internacional dos Direitos Humanos.

De qualquer forma, a Torres talvez tenha parecido inútil aceitar a proteção que lhe haviam oferecido as autoridades argentinas, na medida em que membros do próprio governo ainda são capturados por grupos anônimos, como durante os momentos mais negros do governo de Isabelita Perón.

(Fonte: Veja, 9 de junho, 1976 – Edição 405 –- Argentina -– Pág; 40/41)

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