Hélio Ribeiro da Silva, médico, historiador e monge beneditino, autor de oitenta livros.

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Entre a fé e o fato

Hélio Silva, com Deus no coração e documentos na cabeça, e uma vasta obra de História

Hélio Ribeiro da Silva (Riachuelo, 10 de abril de 1904 – Rio de Janeiro, 21 de fevereiro de 1995), o médico e historiador, conforme consta na biografia do proctologista e autor de oitenta livros. Dom Lucas, o monge beneditino do Mosteiro de São Bento, no Rio de Janeiro não sabia se tinha lugar garantido no céu. “Há alguns episódios na minha vida que podem prejudicar a canonização”, dizia ele em 1993. Sua identidade antes de vestir o hábito, desconfiava de que também não tinha garantido um lugar na nossa História. Há muitos episódios de seus livros que não passaram pelo tribunal canônico dos acadêmicos brasileiros, que os acusam de apresentar “documentos demais”, dentro de uma “perspectiva factualista”, quer dizer, de mero ajuntamento de episódios. Pior ainda, há os que acreditam que ele mais atrapalhou que ajudou, “desvirtuando o ensino da História”.

Esses críticos do trabalho de Hélio Silva não entrariam num livro dele, pois não são “factuais”, ou seja, seguem um hábito nacional e preferem não se identificar falando mal de um homem morto. Só Deus, na sua infinita sabedoria, decidirá sobre a vida eterna de dom Lucas, mas os leitores de seus livros sabem o que lhe devem. E não são leitores quaisquer. “Ele colocou a História em dia, é um serviço prestado por ter sido um arrombador das portas dos fatos contemporâneos”, “Sua obra deu uma grande contribuição à História brasileira e tem o mérito de ser extensa e de leitura fácil, acessível às pessoas que não fazem parte do metiê. Hélio Silva teve uma marca diferente dos historiadores da sua geração, que tinham como característica trabalhar apenas a história das elites. Ele inovou porque fez pesquisa sistemática de fontes documentais, trabalhando sempre com a História apresentada segundo as diferentes perspectivas de todos os setores.

Hélio Silva começou a juntar papeis em 1920, aos 16 anos. Aproveitou sua experiência de jornalista político para ouvir quem tivesse algo a dizer e arquivou tudo, como fez pelo resto da vida – ao se aposentar como médico, em 1972, deixou aos seus sucessores de consultório um fichário completo de 20 000 pacientes. Nos anos de juventude foi boêmio que dormia “nas horas vagas”, poeta bissexto, mulherengo, anarquista e ateu. Brilhou na vida social de sua cidade, o Rio de Janeiro, como dono de mansão na Gávea, cavalos e cachorros dinamarqueses em Teresópolis, um circo de pulgas e título garantido entre os dez mais elegantes.

Só se encontrou com Deus aos 33 anos, quando fez sua primeira comunhão no Colégio São José, na Tijuca, e não mais se separaram. Achava que, sem Ele, teria sucumbido ao desquite pedido por sua mulher, ao desquite de sua filha e ao suicídio do marido dela, o armador Hélio Ferraz, que lhe deixou a tarefa de criar os netos pequenos. Dormia no consultório, escrevendo e se encharcando de café, adoeceu gravemente e esteve à beira da morte. Mas aos 70 anos atravessava a nado uma piscina sem perder o fôlego e partia um tijolo com um golpe de mão, já mestre em judô e caratê. Em 1991 tornou-se oblato, o leigo que presta serviços religiosos a uma ordem monástica, e foi viver no Mosteiro de Santa Maria da Serra Clara, nos contrafortes da Mantiqueira mineira.

CONTRA AS CORRENTES – Hélio Silva só publicou seu primeiro estudo histórico, Lembrai-vos de 1937, aos 54 anos, seguindo-se depois a caudalosa produção que incluiu os dezesseis volumes de O Ciclo de Vargas e os vinte da História da República Brasileira, entre outros. Nota-se que essa obra de craque na manipulação e descoberta de papeis históricos às vezes derrapa na falta de uma visão sociológica e na importância excessiva dada aos indivíduos isoladamente. “No meio acadêmico, ele não é considerado um grande historiador. Também, pudera. Não foi marxista, nem estruturalista, não tentou escrever a história das mentalidades ou da vida cotidiana. Em suma, tudo o que publicou foi contra as correntes.

No silêncio do mosteiro, onde trabalhou em quatro outros volumes e um de memórias, sem concluí-los, Hélio Silva tomava banho frio no inverno, rezava por ele e pelo Brasil e fazia faxina nos banheiros. No fim de 1994, depois de ficar sem comer e beber por cinco dias, foi retirado de lá a força pelo genro Richard Kolff e internado no Rio de Janeiro, com insuficiência renal. Uma parada cardíaca matou-o no dia 21 de fevereiro de 1995, aos 90 anos, onde foi enterrado no Mosteiro de São Bento, no Rio de Janeiro, ao som de cantos gregorianos entoados por 36 de seus irmãos de ordem, morreu desconfiado, não sabendo se tinha lugar garantido no céu.
(Fonte: Veja, 1° de março de 1995 –- ANO 28 -– N° 9 – Edição 1381 –- Memória – Pág; 70)

 

 

 

Hélio Silva (Riachuelo, 10 de abril de 1904 – Rio de Janeiro, 21 de fevereiro de 1995), historiador
Hélio Silva atravessou o século, numa longa e profícua vida. Sua obra sobre história do Brasil inclui cerca de 60 livros, sempre com a colaboração de Maria Cecília Ribas Carneiro. Municiado com arquivos importantes, como de Getúlio Vargas, Oswaldo Aranha, entre muitos outros, Hélio Silva construiu o Ciclo de Vargas com a autoridade do testemunho, da proximidade do fato histórico e da sua isenção. Sua obra é fundamental para a compreensão do Brasil do século XX e referência para todas as análises e teses correntes sobre este período.

Hélio Ribeiro da Silva nasceu a 10 de abril de 1904, no subúrbio carioca do Riachuelo (Estrada de Ferro Central do Brasil). Estudou em escolas públicas do Rio, onde desde cedo começou a escrever. Aos 16 anos, fazia parte da única roda literária a que se ligou em toda sua vida, com os jovens que começavam a aparecer: Moacyr de Almeida, Pádua de Almeida, Nóbrega da Cunha, Alberto Figueiredo Pimentel Segundo, Póvoa de Siqueira, Thomas Murat, João Ribeiro Pinheiro, Jarbas Andréa, Danton Jobim, José Barreto Filho, Francisco Galvão. Quase todos ingressaram no jornalismo. Começaram na Boa Noite e, depois, na Vanguarda. O grupo ligou-se a Agripino Griecco, Catulo da Paixão Cearense, Luiz Carlos da Fonseca, Pereira da Silva, Augusto de Lima, Álvaro Teixeira Soares; aos pintores Cândido Portinari e Oswaldo Teixeira; à pianista Ofélia do Nascimento.

Será longa a carreira assim começada. Trabalhou em muitos jornais e revistas, entre os quais O Brasil, O imparcial, A tribuna, A rua, O país; as revistas ABC e Phoenix, no Rio de Janeiro; Correio paulistano, Jornal do comércio e O combate, em São Paulo.

Em 1930, dirigia a sucursal do O país, em São Paulo. Ia ser indicado pelo líder da bancada fluminense, deputado Miranda Rosa, e pelo presidente do Estado de S. Paulo e presidente eleito da República, Júlio Prestes de Albuquerque, para uma vaga de deputado. O movimento revolucionário de 1930 não só lhe cortou a carreira política, como incendiou as redações dos jornais em que trabalhava – O país e o Correio paulistano.

Com o movimento de 1930 muitos jornais foram fechados. Colunista político influente e combativo, Hélio foi obrigado a afastar-se do jornalismo. Neste período, sobrevivia como vendedor de seguros de vida. Logo recebeu um convite para ser o chefe da sucursal no Rio da recém-fundada Folha da noite, de São Paulo. Colaborou durante muitos anos no Jornal do Brasil. Em 1949, a convite de Carlos Lacerda, assumiu o cargo de redator-chefe da Tribuna da imprensa, durante a campanha presidencial. Foi presidente do Conselho Administrativo da ABI. Colaborou ainda em vários jornais, revistas, rádios e televisão. Sua participação na política encerrou-se quando fundou, juntamente com Alceu Amoroso Lima e Paulo Sá, o Partido Democrata Cristão, no Rio de Janeiro.

Paralelamente ao jornalismo e ao ativismo político, viveu sua paixão pela medicina. Em 1922, ingressou na Faculdade de Medicina, da Praia Vermelha, RJ. Empregou-se na repartição dos Correios e Telégrafos como colante de telegramas para auxiliar o custeio de seus estudos. Começou logo no primeiro ano da faculdade a prática de medicina na Santa Casa da Misericórdia. Foi médico e professor durante cinqüenta anos. Recebeu o título de cirurgião emérito, pelo Colégio Brasileiro de Cirurgiões; fellow pelo Colégio Internacional de Cirurgiões; foi titular da Ordem Nacional do Mérito Médico; pertenceu a academias e sociedades científicas nacionais e estrangeiras. Foi titular do Conselho de Ciências do Estado do Rio de Janeiro, e autor de mais de sessenta trabalhos científicos.
Tendo iniciado a publicação de suas pesquisas de História Contemporânea em 1959, na Tribuna da imprensa, a convite de Carlos Lacerda e Odylo Costa Filho começou a escreveu a monumental obra Ciclo de Vargas, em 16 volumes, editados pela Civilização Brasileira do Rio de Janeiro. São os seguintes os livros que compõem o Ciclo de Vargas: 1889 – A República não esperou o amanhecer; 1922 – Sangue na areia de Copacabana; 1926 – A grande marcha; 1930 – A revolução traída; 1931 – Os tenentes no poder; 1932 – Guerra paulista; 1933 – A crise no tenentismo; 1934 – A constituinte; 1935 – A revolta vermelha; 1937 – Todos os golpes se parecem; 1938 – Terrorismo em campo verde; 1939 – Vésperas de guerra; 1942 – Guerra no continente; 1944 – O Brasil na guerra; 1945 – Por que depuseram Vargas; 1954 – Um tiro no coração. Ainda pela Civilização Brasileira publicou: 1964 – Golpe ou contragolpe? Pela Editora Três, SP, publicou a coleção História da República brasileira,em 21 volumes. Pela Editora Avenir: Noite de agonia;pela L&PM Editores, Memórias: a verdade de um revolucionário (apresentação do diário do General Olympio Mourão Filho), O poder civil, O poder militar, 20 anos de golpe militar, Vargas, uma biografia política, entre muitos outros livros.

No início dos anos 1990, fez voto de pobreza e recolheu-se ao Mosteiro de São Bento no Rio de Janeiro, onde morreu em 21 de fevereiro de 1995.
Hélio Silva atravessou o século, numa longa e profícua vida. Sua obra sobre história do Brasil inclui cerca de 60 livros, sempre com a colaboração de Maria Cecília Ribas Carneiro. Municiado com arquivos importantes, como de Getúlio Vargas, Oswaldo Aranha, entre muitos outros, Hélio Silva construiu o Ciclo de Vargas com a autoridade do testemunho, da proximidade do fato histórico e da sua isenção. Sua obra é fundamental para a compreensão do Brasil do século XX e referência para todas as análises e teses correntes sobre este período.

(Fonte: www.lpm-editores.com.br)

 

 

 

Hélio Silva, foi um pioneiro

Já restabelecida a democracia, Hélio Silva documenta a fundação dos partidos, as eleições, os trabalhos da Constituinte. Nesse período, destaca-se o cancelamento do registro do Partido Comunista e a consequente cassação dos mandatos de seus deputados e senadores, episódio objeto de pronunciamentos exemplares de representantes da Esquerda Democrática, como o implacável deputado João Mangabeira, e dos guardiões udenistas da legalidade, como o jurista Prado Kelly.

Com curiosidade, foi transcrito todo o debate em que o líder comunista Luís Carlos Prestes foi desafiado pelo udenista Juracy Magalhães a dizer com quem ficaria, no caso de uma guerra entre o Brasil e a Rússia. Com alguma dificuldade, Prestes procurou conceituar o que entende por guerra imperialista, para firmar que, “com a Rússia ou sem a Rússia, ficaremos sempre contra a guerra imperialista”.

Esforço aparentemente inútil, pois, com o PCB de volta à ilegalidade, divulgou-se a versão de que ele preferiria clara e abertamente ficar com a Rússia.

(Fonte: Veja, 8 de dezembro de 1976 –- Edição 431 –- LITERATURA/ Por Almyr Gajardoni – Pág: 159)

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