Georges Bernanos, escritor e jornalista francês. Foi simultâneamente, um panfletário e um romancista

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Georges Bernanos (Paris, 20 de fevereiro de 1888 – Neuilly-sur-Seine, 5 de julho de 1948), escritor e jornalista francês.

Bernanos foi, simultâneamente, um panfletário e um romancista. Detestou cepticismo ou o espírito de indefinição. Temeu a vertente que vem de Montaigne, passa por Voltaire e chega a Renan e a Anatole, para desaguar em Gide. Bernanos abominava o espírito anatoliano. Como também detestava Zola (que agora através de Butor e outros volta à crista da onda literária).

O indomável Bernanos era todo certeza, convicção, audácia. Congar definiu a obra de Bernanos como um “sobrenaturalismo histórico”. Eis a verdade: um cristianismo terreno. “Terrien” carnal. Sua carnalidade o aproxima de outro passional, cuja poesia ele amava e veio ler em Pirapora, uma vez mais: Péguy, esse poeta profundo que soube falar densamente da cidade carnal, a cidade do homem, o reino terrestre.

Foi um pascaliano, mais encarnado, mais impregnado de terra, de pão, de vinho, de festa, de paisagem, mais embebido de historicidade que Pascal. Gostava do mundo. Homem humano, gostava da vida. Não queria ser um intelectual. Desprezava em certo sentido os intelectuais, como tinha desdém em face de Mauriac, esse proustiano católico.

Congar escreveu, certa vez, que Bernanos não amava os teólogos, antes os temia e detestava, mas que sua visão teológica era sempre segura, sutil, extremamente. Tinha um instinto, um faro, uma certeira intuição. Nunca estudara filosofia e teologia sistematicamente. Era um assistemático e até um anti-sistemático. O que amava era a vida, o frescor, o esplendor, a doçura, a simplicidade da vida, a vida presente, a vida agora, a vida aqui. Nunca se considerou um intelectual.

Sim, foi ardentemente um homem cristão, um homem do sobrenatural. Mas, para ele, o sobrenatural não era o setor reservado aos milagres. Longe de identificar-se ao excepcional ou ao extraordinário, o sobrenatural é para ele, o que há de mais simples. Nos romances trágicos de Bernanos, cujas personagens principais são sempre sacerdotes (medíocres, ou tensos, cépticos, ou inquietos), o plano da sobrenaturalidade como que se insere no natural, como que brota do natural, como que se mistura à própria vida, à história, ao sangue, às lágrimas dos homens. Quem escreveria melhor do que Georges Bernanos sobre o Cristo?

Não chegou a concluir os dois livros que desejava que viessem de fato a ser os mais perfeitos de toda a sua obra: a Vida de Jesus (que ficou em sonho) e a Vida de Lutero, que se chamaria belamente Frère Martin e de que saiu o primeiro capítulo, o único, na revista Esprit, onde também se publicaram as cartas admiráveis que enviou a Tristão de Ataíde. Queria encerrar sua longa e dramática e complexa e contraditória carreira de escritor, que vinha do jornal de Henri Drummont, com uma biografia de Jesus Cristo. Encerrou-a, no entanto, nobremente com uma obra não menos significativa – Les Dialogues des Carmélites, a peça em que inteiramente se entrega aos temas fundamentais do seu destino – a agonia, o medo, a alegria, a infância, demônio, a vocação, a honra, a oração, o pecado, a história, a mística, o padre, o orgulho das almas, a solidão.

Bernanos, que parecia (e em certo sentido era) o menos conciliador de homens, todo nervos, agitação, violência, agressividade, foi um grande conciliador, um poderoso e incrível unificador de contrários, de antinomias. Para ele, homem de fogo, ser passional, só havia uma única ordem, um plano apenas, uma perspectiva, uma realidade totalizadora: o amor, a vida do amor. Congar e Von Balthasar o estudaram e compreenderam exatamente sob essa luz, o amor total, essencialmente harmonioso.

Quando em 1926, e já no limiar dos quarenta, o corretor de seguros estreou pelas mãos de Valéry-Radot (“A Robert Valéry-Radot, qui lut le premier se livre et l”aima…), arrombando as portas da Weltliteratur com um grande livro, sombrio, crispado, patético, o “Sous le Soleil de Satan”, de Tóquio, Claudel – embaixador da França – lhe escrevia uma carta lúcida: “Encontrei nele esta qualidade real, a força, este domínio magistral dos acontecimentos e das figuras e este dom especial do romancista, que é o que chamarei o dom dos conjuntos invisíveis, dos conjuntos em movimento”… E Claudel cita quatro substantivos: tragédia, dignidade, delicadeza, profundeza.

O cristianismo agônico invadia com esse livro pungente a literatura. Dois temas dominam o romance estranho de Bernanos: o demônio e o padre. Em L”Impostura, em La Joie, talvez a abscura obra-prima bernanosiana, em Journal d”un Curé de Campagne, geralmente considerada a sua obra mais importante, o que vemos é o diálogo, o duelo, o conflito, o confronto entre o mundo ardente de uma santidade encarnada e o mundo glacial da negação. Bernanos foi um padre frustrado. Seu coração era um coração sacerdotal.

Agora, estou na velha sacristia de Saint Jacques Du Haut-Pas, no centro de Paris. A velha rua em que Rilke morou, a estrada para San Tiago de Compostela. E me entretenho com o padre que deu a Bernanos a Extrema-Unção. Abbé Daniel Pezeril, então pároco de Saint Jacques e hoje bispo-auxiliar de Paris, me fala de Bernanos no seu instante derradeiro. Bernanos tal como o ele o viu na sua hora dolorosa e solitária. Pezeril é um fino escritor. Lembro-me da oração fúnebre que dedicou ao genial romancista. Eu esperava encontrar um padre ainda jovem, porque ele era jovem em 1948, mas o Daniel Pezeril ,que tenho diante de mim, na penumbra desta manhã, é já um quase velho, os cabelos estão brancos. E ele me fala de Georges Bernanos. Foi Luc Estang que me pediu que fosse vê-lo. Estava no hospital, estava irreconhecível. O câncer o devorara. Lucidez total. O seu destino todo de homem estava com ele. E havia as dívidas. Bernanos estava mergulhado em dívidas. Não havia dinheiro para o enterro.

E na hora final, no extremo limite da sua aventura terrena, na hora de se despedir do mundo, e dizer adeus à sua infância, proferiu uma estranha palavra, tão vigorosa e concisa: “Agora, nós dois”. A quem se dirigia ele? Ao Cristo, que foi para ele o Absoluto encarnado? Ao demônio? A quem?

E começou a gritar: Maman! Maman! A enfermeira, solícita, procura, normalmente calmá-lo ela está ali fora, ela vem já… Bernanos então respondeu-lhe: Ela está morta. Recebeu o último Sacramento com lucidez e tranqüilidade. Fazia comentários breves: Mas é maravilhoso, que beleza de texto. Morreu em paz. Muitos anos antes, escrevera: E eu me disse que não é sobretudo a vida que cumpre tornar feliz, mas a morte.

Que me seja permitido evocar aqui o adolescente de dezoito anos que, um dia, numa fazenda do interior de Minas, travou contato com a obra de Georges Bernanos – e precisamente através do Diário de uma Pároco de Aldeia, que Edgar da Mata Machado traduzira, como Jorge de Lima traduziu O Sol de Satã. Nunca mais poderei esquecer a viva emoção profunda desse encontro. Não era propriamente o estilo que me fascinava, um estilo farfalhante. Era a força, era o impacto daquela visão trágica da vida, daquele homem possuído pela paixão do humano em sua plenitude, um ser difícil e atormentado, que soube cativar a sensibilidade e o espírito de pessoas tão diversas entre si, como Raul Fernandes ou Virgílio de Mello Franco, Fernando Carneiro ou Carlos Pinto Alves, Hargreaves ou Murilo Mendes, Paulo Gordan ou Basílio Penido, Geraldo Ribas ou Assis Chateaubriand, Austregésilo de Athayde ou Jorge de Lima. Um gênio. Um fugitivo.

 

(Fonte: Villaça, Antônio Carlos. “O Anel”, Rio de Janeiro, Editora Rio, 1972. pág. 135-138)
(Fonte: www.ocampones.com)

 

 

 

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