Foi uma das primeiras atrizes a se tornarem megacelebridades

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A transgressora vida de Sarah Bernhardt, uma das primeiras atrizes a se tornarem megacelebridades

Notoriamente rebelde, francesa estampou capas de jornais e revistas pelo que fazia dentro e fora dos palcos.

BRIGUENTA E DONA DE ZOO

A transgressora vida de Sarah Bernhardt, a 1ª megacelebridade

 

Henriette Rosine Bernardt (Paris, 22 de outubro de 1844 – Paris, 26 de março de 1923), conhecida mundialmente por Sarah Bernhardt, foi uma atriz francesa, considerada por alguns como “a mais famosa atriz da história”.

Interpretar “Hamlet” é o auge da carreira de um ator. Mas também é uma escolha inteligente por parte de algumas celebridades: uma maneira infalível de conquistar a atenção da mídia.

 

 

Bernhardt era conhecida pela intensidade emocional de seus papéis (Foto: Hulton Archive/Getty Images / BBCBrasil.com)

 

 

Foi Sarah Bernhardt quem, sem dúvida, primeiro se lançou ao papel com o objetivo de ganhar fama e manchetes nos jornais. Ela não foi a primeira mulher a interpretá-lo, mas a atriz francesa estava bem ciente da controvérsia que causaria em 1899.

 

Foi “a jogada mais controvertida de todas as que fez”, segundo Robert Gottlieb, ex-editor da revista americana New Yorker que escreveu uma biografia da atriz em 2010.

 

Bernhardt também faria história no cinema em 1900 – a primeira vez em que Hamlet foi encenado na grande tela teve a atriz no papel de protagonista.

 

Mas a francesa não era uma mulher qualquer – ela era a atriz mais famosa do mundo. E não faltaram polêmicas em sua vida.

 

Filha de uma prostituta, ela alcançou notoriedade ainda adolescente: perdeu seu primeiro emprego no prestigiado teatro Comédie-Française depois de se recusar a pedir desculpas por ter esbofeteado a estrela mais famosa da casa (a atriz empurrou a irmã mais nova de Bernhardt contra uma coluna de mármore por ter pisado acidentalmente em seu vestido).

 

Tal ferocidade nunca esmoreceu: décadas depois, Bernhardt também ocupou o noticiário por perseguir uma colega atriz com um chicote, furiosa com a biografia escandalosa que ela havia escrito.

 

Tal ferocidade nunca esmoreceu: décadas depois, Bernhardt também ocupou o noticiário por perseguir uma colega atriz com um chicote, furiosa com a biografia escandalosa que ela havia escrito.

 

 

Bernhardt continuava a desempenhar papeis de mulheres jovens em melodramas românticos apesar de sua idade, como nesta produção de Camille, de 1913. (Foto: Pictorial Parade/Getty Images / BBCBrasil.com)

 

 

Mas ela também era, sem dúvida, uma figura adorável: encantava o público em todo o mundo, mesmo sendo transgressora.

 

Mãe solteira, era descaradamente promíscua em uma era de padrões morais rígidos. Interpretar um parceiro de Bernhardt significava, essencialmente, desempenhar o mesmo papel debaixo dos lençóis.

 

Suas conquistas amorosas também incluem Victor Hugo, o príncipe Edward e Charles Haas, inspiração para o personagem Charles Swann no livro Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust. A própria Bernhardt inspirou a Berma de Proust, Oscar Wilde escreveu Salomé em sua homenagem e ela se casou com Aristides Damala – que inspirou Bram Stoker para compor a personalidade de seu Drácula.

 

Zoo particular

 

Das origens humildes à fama, não há dúvida de que Bernhardt se comportou como uma “criança em uma loja de doces”.

 

Ou seria um pet shop? A atriz colecionou um pequeno zoológico, incluindo leopardos, tigres e filhotes de leão, um macaco chamado Darwin e um jacaré chamado Ali Gaga, com quem ela costumava dormir até a sua morte prematura devido a uma dieta à base de leite e champanhe.

 

Bernhardt usava um chapéu feito de um morcego empalhado, ostentava joias e sempre estava coberta de peles, de chinchilas a jaguatiricas.

 

Tudo fazia parte do show itinerante de Bernhardt – incluindo seu caixão, que ela sempre fazia questão de levar em suas turnês.

Cortesã condenada de Bernhardt em Camille foi seu papel mais icônico, mas ela também interpretou figuras históricas, como a imperatriz bizantina Theodor (Foto: W&D Downey/Getty Images / BBCBrasil.com)

 

 

A verdade por trás da ficção

 

 

“Nunca houve ninguém como ela. Isso é algo para se pensar – quão famosa e amada ela era”, diz a escritora americana Theresa Rebeck, roteirista de programas de TV como NYPD Blue Smash, que escreveu uma peça sobre Bernhardt, com estreia marcada para a Broadway em setembro.

 

“Ela era notoriamente transgressora: Bernhardt tinha muitos, muitos casos e, no entanto, ninguém se voltava contra ela. Eles nem sequer a julgaram por isso; eles a amavam por isso”, diz Rebeck.

 

Bernhardt também era uma mitômana notória, então, separar a verdade do que era mentira em sua vida nem sempre é fácil. A identidade de seu pai é incerta, e até sua data de nascimento permanece cercada de dúvida: talvez 22 ou 23 de outubro de 1844.

 

“Sua mãe não a amava e ela não tinha pai”, escreveu Gottlieb. “O que ela teve foi sua vontade extraordinária: sobreviver, alcançar seus objetivos e – acima de tudo – trilhar seu próprio caminho.”

 

Sendo assim, ninguém precisa ser Freud para adivinhar por que essa criança rejeitada e negligenciada almejava viver de aplausos.

 

Sua mãe estava desesperada para se ver livre de Bernhardt, e foi o amante dela, Charles de Morny, quem sugeriu à adolescente tempestuosa que tentasse virar atriz. Como meio-irmão de Napoleão Bonaparte, sua chancela garantiu que ela ganhasse uma vaga primeiro no Conservatório Nacional Superior de Música e Dança de Paris, e depois na Comédie-Française.

 

 

Aos 55 anos, Bernhardt interpretou Napoleão 2º, imperador que, por breve período, foi governante de facto da França em 1815 – ela desempenhava com frequência papéis masculinos (Foto: P Boyer/Getty Images / BBCBrasil.com)

 

 

O incidente envolvendo a atriz que havia agredido sua irmã resultou em sua expulsão, mas também a transformou em uma celebridade da noite para o dia. O mesmo não se pode dizer de seu sucesso. Embora tivesse sido rapidamente absorvida pelo teatro Gymnase, os críticos pareciam mais interessados em quão pálida e magra ela era.

 

Após um caso com o aristocrata belga Prince de Ligne em 1864, Bernhardt teve um filho, Maurice. Embora não planejada, a gravidez provocou uma mudança em sua vida: Bernhardt passou a fazer de tudo para que nada faltasse à criança.

 

De bermudas

 

Em 1866, sua carreira deu um grande salto: conheceu o dono do teatro Odeon, Félix Duquesnel. Décadas depois, ele escreveria: “Ela não era só bonita, era mais perigosa do que isso… uma criatura maravilhosamente dotada de inteligência rara e energia e força de vontade ilimitadas.”

 

Aparentemente disposta a trabalhar, ganhou sucesso com Le Passant, de François Coppée, em seu primeiro papel usando bermudas, interpretando um menino. Sua reputação ganhou força – especialmente por sua voz melodiosa.

 

O crítico Théodore de Banville não deixou de lado nenhum clichê para descrevê-la: segundo ele, Bernhardt falava “do jeito que rouxinóis cantam, do jeito que o vento suspira, do jeito que os riachos murmuram”.

 

Mas foi durante a guerra franco-prussiana que ela se tornou a queridinha da França. A atriz transformou o Odeon em um refúgio para soldados feridos, intimando os ricos a doar comida e roupas.

 

Depois disso, sua fama cresceu tão rápido quanto o balão de ar quente dentro do qual ela uma vez se perdeu (naturalmente, ganhou ainda mais dinheiro com essa história, escrevendo um relato animado do ponto de vista do cesto de vime do balão, que se tornou um pequena sensação editorial).

 

Em 1872, estrelou em Ruy Blas, do dramaturgo francês Victor Hugo, e foi tão aclamada que a Comédie-Française finalmente a convidou para voltar.

 

Bernhardt retornou – de maneira insuportavelmente presunçosa – e começou um apaixonado e irregular relacionamento dentro e fora do palco com o ator francês Jean Mounet-Sully. Mas Mounet era tão possessivo quanto apaixonado, e não conseguia lidar com a promiscuidade dela. Ele queria domá-la – e não tinha chances, naturalmente.

 

 

Como interpretava personagens masculinos, Bernhardt se via em cenas de amor com outras mulheres, como em ‘Pelléas e Mélisande’ (Foto: W&D Downey/Getty Images / BBCBrasil.com)

 

 

Fama e fortuna

 

Profissionalmente, no entanto, tudo continuou em ritmo acelerado em sua vida. Bernhardt interpretou uma série de peças de sucesso no papel de Phèdre, de Jean Racine (um dos maiores dramaturgos clássicos da França).

 

Em 1880, Bernhardt fez uma temporada de seis semanas no Gaiety em Londres, onde foi saudada como uma grande celebridade. Isso a levou a uma turnê pelos Estados Unidos, desempenhando um papel que ela iria interpretar milhares de vezes: A Dama das Camélias.

 

O escritor americano Henry James escreveu sobre a “loucura” que sua chegada provocou, declarando que ela tinha “gênio publicitário; podendo, de fato, ser chamada de musa dos jornais… ela é muito americana para não ter sucesso na América”.

 

E isso ficou muito claro. Ela pode ter exibido um “naturalismo revolucionário quando comparado com o desempenho agressivo da atuação americana padrão do período”, como diz Gottlieb, mas as multidões se aglomeraram para vê-la como ela era: uma criatura exótica por si só.

 

A turnê – e as muitas que se seguiram, da Argentina à Áustria passando pela Austrália – a enriqueceram. Mas ela era extravagante em seus gastos, com gostos por joias, alta costura e arte (ela mesma era escultora). Em outras palavras, ela “corria com dinheiro o tempo todo – mas ela só conseguia mais!”, ri Rebeck. Naquela ocasião, Bernhardt já tinha vários sucessos lucrativos em seu currículo.

 

Ela doou – alguns diriam que “desperdiçou” – uma boa quantia de dinheiro para seu filho e para seu marido, o aristocrata grego Damala.

 

Talvez porque estivesse tão acostumada a ter quem quisesse, Bernhardt ficou estranhamente obcecada por um homem que tinha pouco interesse nela. Eles se casaram em 1882, mas o casamento não durou muito, devido ao perfil mulherengo de Damala, ao seu gosto por apostas e pelo desprezo com que a tratava publicamente. Embora o casal tivesse reatado em 1889, Damala morreria naquele ano por vício em morfina.

 

Outros homens iam e vinham, assim como shows de sucesso, shows não tão aclamados e turnês intermináveis. Então, veio Hamlet.

 

“Para mim, foi o ponto de inflexão na vida dela”, diz Rebeck. “Ela já estava farta de interpretar papéis da mulher ingênua, estava realmente querendo seguir em frente como atriz e desafiar a si mesma. O que mais ela faria – pegar papéis menores?

Primeira adaptação cinematográfica de ‘Hamlet’ foi estrelada por Bernhardt em 1900. (Foto: Time Life Pictures/Getty Images / BBCBrasil.com)

 

Pouco provável. “E o que atores que são celebridades fazem? InterpretamHamlet. É um rito de passagem – que ela cunhou”, acrescenta Rebeck.

 

Bernhardt tinha uma nova versão em prosa da peça encomendada, de que, surpreendentemente, nem todos gostavam. E a sua Hamlet não era uma alma torturada, mas – como a própria Bernhardt – rápida, enérgica e bastante resoluta.

 

Ela continuou a interpretar papéis masculinos, porque simplesmente não havia papéis suficientes para artistas mais velhos.

 

“Não é que eu prefira papéis masculinos; é que prefiro mentes masculinas”, disse ela certa vez.

Mais de 30 mil pessoas participaram do funeral de Bernhardt em Paris, no dia 29 de março de 1923
(Foto: Alamy / BBCBrasil.com)

 

 

Em 1906, Bernhardt machucou o joelho durante uma encenação de Tosca. Ela nunca se recuperou e, em 1915, teve a maior parte de sua perna direita amputada. Isso não a impediu de continuar atuando: septuagenária, continuava a ser a queridinha das tropas francesas na 1ª Guerra Mundial, carregada em uma liteira branca.

 

Bernhardt continuou a atuar em peças que não exigiam movimento e nos primeiros filmes mudos até a sua morte, em 1923.

 

Sem dúvida, seu estilo de atuação, que antes parecia tão poético e revigorante, agora parecia excessivamente histriônico. Mas Bernhardt simbolizava mais do que apenas atuar até então: ela era uma figura simbólica na França e vários dias de luto público foram decretados após sua morte.

 

Realmente, não havia mais ninguém como ela. O sentimento foi, talvez, mais precisamente resumido por Mark Twain: “Existem cinco tipos de atrizes. Atrizes ruins, atrizes razoáveis, atrizes boas, grandes atrizes e, depois, Sarah Bernhardt.”

(Fonte: https://www.terra.com.br/diversao/arte-e-cultura – ARTE E CULTURA – DIVERSÃO – ENTRETENIMENTO – 1 JUN 2018)
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