Foi um dos primeiros a escrever em língua alemã e o autor da primeira tradução da Bíblia em língua vernácula

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O MONGE REBELDE

Martim Lutero

Martinho Lutero (1483 – 1546)

A cena foi simplesmente impactante. De um lado do Salão da Dieta estava o trono imperial ocupado por Carlos V, o jovem imperador do Sacro Império, cercado por inúmeros clérigos. Do outro, completamente só, encontrava-se o monge Martim Lutero (Eisleben, 10 de novembro de 1483 – Eisleben, 18 de fevereiro de 1546), convocado para abjurar as suas teses que contrariavam os poderes da Igreja Romana.

Martinho Lutero promoveu a fé, não as indulgências. Ele observou como a Igreja Católica fazia negócios com o perdão do pecado. Ele publicou “95 Teses” em 1517, atacando essas práticas publicamente e se tornando oficialmente inimigo da Igreja Católica.

Na Dieta de Worms, a coroa e a mitra papal estavam, com todos os motivos, temerosos dos efeitos subversivos e nocivos à ordem das 95 teses que Lutero fixara na porta da igreja do castelo de Wittenberg, na Saxônia, em 31 de outubro de 1517.

 

O monge tornara-se popular em toda a Alemanha. Surgido do nada, ele fascinara os alemães com sua coragem e destemor. Tornou-se, num relâmpago, herói nacional (na época, a nação estava dividida em 240 Estados). Ele repudiara a venda das indulgências, a compra de lugares no céu, próspero negócio estimulado pelo papado e pela casa bancária dos Fugger. Para Lutero, nem o Sumo Pontífice ou qualquer outro comissário agindo em seu nome tinha legitimidade para tal ação nefanda.

 

Encerrado o debate, o monge, que negou retratar-se, afirmou que por ali ficava. Não tinha mais nada a dizer, e que Deus o protegesse. De fato, assim se deu, pois o príncipe-eleitor Frederico o Sábio lançou seu escudo protetor e os cavaleiros alemães, com suas espadas, asseguraram-lhe a vida, levando-o em segredo para o castelo de Wartburg, na Turíngia (onde Lutero começou a verter o Novo Testamento para o alemão). Evitaram assim que ele tivesse o triste destino de tantos outros reformadores que terminaram seus dias na fogueira.

 

O monge rebelde afirmava que a salvação só poria se dar na relação direta do fiel com Deus. Acusou o papado de usurpar os antigos costumes das comunidades cristãs. De nada serviam as boas obras, as intervenções sacerdotais, os santos, a confissão ou qualquer outro recurso clerical que pudesse ser um sucedâneo à manifestação da vontade divina. Lutero tinha como modelo as comunidades cristãs primitivas, nas quais os fiéis escolhiam o seu guia espiritual.

 

O humanista Erasmo de Rotterdam percebeu as arrasadoras implicações mais profundas da rebeldia do monge e pediu que a Igreja Romana agisse com tolerância. Apelo tardio. Um crescente ódio tomou conta da cristandade e olhos sanguinários conduziram à Grande Guerra de católicos contra protestantes, infelicidade que se arrastou até a Paz de Westfália, em 1648.

(Fonte: Zero Hora – ANO 54 – Nº 18.921 – 30 de outubro de 2017 – ARTIGO/ Por Voltaire Schilling – O MONGE REBELDE – Pág: 22)

(Fonte: https://zoo.com/quiz – QUIZ / Por Narra Jackson em February 23, 2018)

 

 

 

Reforma protestante

 

Missa em Wittenberg – AFP

 

 

A Alemanha celebrou na terça-feira (31) o 500º aniversário da Reforma, um dia em que, excepcionalmente, é feriado em todo o país, com direito a cerimônia em Wittenberg, berço do protestantismo, com a presença da chanceler Angela Merkel.

 

A cerimônia, com a chefe de Governo conservadora, o presidente Frank-Walter Steinmeier e vários líderes políticos e religiosos, foi marcada para a tarde na igreja de Todos os Santos e marcou o fim do jubileu. A data é celebrada há um ano pelos protestantes do mundo todo.

 

Foi na porta desta igreja gótica que aconteceu um dos maiores terremotos teológicos do cristianismo, quando um crítico dos abusos da instituição papal e do culto aos santos questionou a Igreja Católica.

 

Em 31 de outubro de 1517, o clérigo e teólogo Martinho Lutero pendurou no local sua “Disputa” mais conhecida, sob o nome “95 teses”, o texto fundador da Reforma protestante que marcou sua ruptura com o catolicismo.

 

Lutero também foi um dos primeiros a escrever em língua alemã e o autor da primeira tradução da Bíblia em língua vernácula.

 

Martinho Lutero revolucionou o conceito de “salvação”, ao afirmar que o crente ganharia seu espaço no céu somente pela graça de Deus, e não pelo comércio das “indulgências”, muito utilizadas na época e com as quais o pecador compraria seu perdão.

 

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A outra reforma de Lutero

 

A ideia de que os fiéis deveriam ter acesso aos textos sagrados transformou Lutero num dos maiores difusores do livro e da leitura

 

 

Martinho Lutero (1483-1546): um livro na mão e mil ideias na cabeça. (VEJA.com/Reprodução)

 

 

Martinho Lutero fixou as suas 95 teses nas portas da catedral de Wittenberg. Foi um gesto ingênuo e ao mesmo tempo corajoso. Em sua maioria, as teses questionam a autoridade papal e pregam contra a leviandade das indulgências (passaportes para o céu que a Igreja vendia aos fiéis). Todo mundo, atualmente, critica o papa ou qualquer figura que tenha o mais leve cheiro de autoridade, mas naquela época Lutero só não foi queimado ou enforcado porque teve a proteção de príncipes alemães que estavam exaustos de mandar dinheiro para o Vaticano.

 

Na prática, as 95 teses impulsionaram a Reforma Protestante que mudaria o curso da Europa e redefiniria as bases da cultural ocidental. Uma nova forma de se relacionar com o divino passou a coexistir com o milenar domínio da Igreja Católica. A princípio Lutero queria que os fiéis se dirigissem diretamente a Deus, sem a intermediação de instituições terrenas, mas as circunstâncias o levaram a criar um culto que dispensava a intercessão dos santos e reduzia os sacramentos a dois essenciais: batismo e eucaristia.

 

O êxito da Reforma se deve ao importante fato de que Lutero estava no lugar certo e na hora exata. A passagem da economia feudal para o nascente capitalismo exigia uma postura religiosa mais entusiasmada em relação à prosperidade, algo até então execrado pela Igreja Católica. Sociólogos como Max Weber fundamentaram uma ideia que já estava clara aos olhares mais atentos: sem a “dignificação pelo trabalho” de Lutero, o capitalismo não teria as condições ideológicas necessárias para se desenvolver na Europa.

 

Algumas das nações mais desenvolvidas do mundo são “protestantes”, e isso certamente significa alguma coisa.

 

Mas a maior contribuição de Lutero, algo que escapa à esfera religiosa ou até mesmo econômica, tem a ver com o acesso que ele deu aos textos sagrados. Até então a Bíblia era difundida apenas em grego ou latim, línguas distantes do homem comum, de modo que a interpretação da palavra de Deus era monopólio dos padres. Lutero desejou que todos lessem a Bíblia, por isso deu um jeito de traduzi-la para o alemão. Ele estava lutando por suas convicções teológicas, mas ao mesmo tempo estava arriscando o pescoço para defender a importância do acesso ao Conhecimento.

 

Se Gutemberg, com a invenção da imprensa, criou o hardware da leitura, Lutero forneceu o software ao quebrar o tabu de que a sabedoria seria divinamente reservada a homens especiais do clero e da nobreza. Isso fez com que o pai da reforma se transformasse num dos maiores difusores do livro, um instrumento que proporcionaria revoluções ainda mais profundas que a religiosa. Não é por acaso que alguns dos maiores núcleos de leitores do planeta podem ser encontrados — de novo — em países de confissão luterana.

 

O herói da história também teve os seus pecados? Claro que sim. Além de demonizar os judeus, foi inclemente com os camponeses que, graças à rebelião inicial contra o catolicismo, rebelaram-se também contra os seus senhores. Nos mesmos escritos em que propunha reformas na “ordem do céu”, Lutero se preocupava em manter intacta a “ordem da terra”. Chegou a justificar muitos dos massacres que mancharam a Alemanha do seu tempo. É por isso que deve ser tratado como uma personalidade histórica, não como o portador de alguma verdade messiânica irretocável.

 

Ele mesmo tinha consciência disso. “A doutrina não é minha”, escreveu no fim da vida. “Como pode convir a mim, um miserável saco de pó e cinzas, dar meu nome aos filhos e às filhas de Cristo”? Suplicou às primeiras comunidades protestantes que não se autodenominassem luteranas, apenas cristãs. Nisso não foi ouvido.

 

 

 

“Da Reforma vieram muitas mudanças sociais”, afirmou na terça-feira (31) em seu discurso semanal gravado, dedicado à data, a chanceler alemã, filha de um pastor luterano.

 

Insistindo na relação “muito interessante na Alemanha da Igreja e do Estado, sem a separação completa, como na França”, Merkel declarou que o “cristianismo é um dos fundamentos” da cultura de trabalho na Alemanha.

 

O “Dia da Reforma”, 31 de outubro, já era um feriado em vários estados da Alemanha, principalmente na região leste. Este ano, porém, o governo decretou feriado em todo país.

 

 

As celebrações de cinco séculos da Reforma, com missas, exposições e outros eventos nas 700 cidades alemãs, atraíram três milhões de visitantes em 2017, segundo o Ministério da Cultura.

A cidade de Wittenberg se preparou por meses para a data. As lojas estão repletas de produtos, de brinquedos a aguardente, derivados da figura de seu célebre morador.

 

Em 2016, 22 milhões de alemães pertenciam à Igreja protestante, contra 25,4 milhões em 2003. A religião majoritária no país, de 82,8 milhões de habitantes, é o catolicismo (24 milhões), segundo a agência federal de estatísticas.

(Fonte: https://istoe.com.br – EDIÇÃO Nº 2498 – COMPORTAMENTO – AFP – 31.10.17)
(Fonte: http://veja.abril.com.br – EDUCAÇÃO / A outra reforma de Lutero / Por Maicon Tenfen – 31 out 2017)
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