Foi a primeira vítima fatal da II Guerra Mundial

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Primeira vítima da 2ª Guerra Mundial

 

Franciszek Honiok foi morto durante o Incidente de Gleiwitz, em 31 de agosto de 1939. Falsa operação foi uma das usadas pelos nazistas como justificativa para invadir a Polônia em 1º de setembro, dando início à guerra mais mortal da história moderna.

 

 

Os números não são precisos, mas estima-se que de 70 milhões a 85 milhões de pessoas tenham morrido na guerra mais mortal da história moderna, a II Guerra Mundial, que começou há exatos 80 anos, quando os alemães invadiram a Polônia, em 1º de setembro de 1939.

 

A primeira vítima dessa guerra, no entanto, morreu na véspera. Franciszek Honiok, um polonês de 43 anos, foi assassinado por soldados na cidade alemã de Gleiwitz, como parte de uma ação que visava – ao lado de várias outras operações falsas ao longo da fronteira – justificar a invasão ao país vizinho no dia seguinte.

 

 

Honiok, que foi preso pela polícia alemã no dia 30 de agosto, havia lutado pela resistência polonesa nas chamadas Revoltas da Silésia, após a I Guerra Mundial, e, mesmo vivendo na Alemanha, era conhecido por sua lealdade à Polônia. Tinha, portanto, o perfil ideal para ser usado no esquema que ficou conhecido como o Incidente de Gleiwitz.

 

Havia meses, Hitler planejava invadir a Polônia. Mas, para conquistar apoio, precisava de uma razão sólida que justificasse a ação. Passou então a espalhar falsa propaganda sobre violentas agressões a alemães em cidades polonesas e, sob a coordenação de Heinrich Himmler, chefe da SS (espécie de tropa de choque do Partido Nazista) implementou a Operação Himmler: uma série de falsos ataques em pontos da fronteira entre os dois países, nos quais instalações alemãs seriam alvos.

 

O prédio da torre de transmissão da rádio Gleiwtiz, invadido em 31 de agosto de 1939 no Incidente de Gleiwitz — (Foto: Muzeum w Gliwicach)

 

 

 

 

O Incidente de Gleiwitz

Um dos pontos escolhidos foi a torre de transmissão de rádio de Gleiwitz, como explica o historiador Kamil Kartasinski, do Museu de Gliwice (atual nome da cidade): “Para tornar essas ações públicas no mundo todo, um dos ataques foi à estação de rádio na fronteira alemã, que durante o dia cobria toda a área da Alta Silésia (região então alemã, hoje ocupada por cidades da Polônia e República Tcheca), e que durante a noite alcançava áreas muito mais distantes. Ela foi a mais importante da Operação Himmler porque tinha como alvo uma rádio, que na época era a mídia das massas”.

 

Para que o ataque parecesse real, os funcionários foram pegos de surpresa por sete rebeldes “silesianos” durante a invasão – na verdade alemães usando uniformes do país vizinho. E, um destes, que sabia falar o idioma, anunciou no ar: “Uwage! Tu Gliwice. Rozglosnia znajduje sie w rekach Polskich” (Atenção! Aqui é Gliwice. A estação de transmissão está em mãos polonesas). A mensagem original, muito mais longa, não pode ser transmitida porque, por um erro de planejamento, eles entraram no prédio onde ficava apenas o setor técnico da rádio, e não seus microfones e estúdios.

 

A cidade de Gleiwitiz em foto de 1937 — (Foto: Kramer/United Archives/Mauritius Images/AFP/Arquivo)

 

 

 

 

Em suas casas, alemães e poloneses não entenderam muito bem o que estava acontecendo e, segundo Kartasinski, não deram a atenção que seus autores achavam que tinham conseguido atrair.

 

“Ninguém podia acreditar que o ataque foi realizado pelos poloneses. A maioria dos residentes de Gliwice tratou as provocações com descrença (sem saber o que pensar sobre isso) e não deu muita importância”, explica o historiador.

 

Ainda assim, acreditando que o golpe tinha sido bem-sucedido, os soldados acrescentaram um dramático toque final à cena: um corpo polonês. Este, porém, de verdade. Franciszek Honiok, drogado na prisão e arrastado inconsciente até o local, levou um tiro na cabeça e foi deixado no prédio, vestindo um uniforme polonês. Ele seria a “prova” da tentativa de invasão com a qual ninguém se importou.

 

Mal executada ou não, a operação foi reportada a Berlim, que a anunciou, ao lado das outras falsas invasões e ataques na fronteira, como uma série de provocações inaceitáveis dos poloneses, que estaria começando uma guerra contra o Terceiro Reich – apresentado como “vítima”.

 

Em 1º de setembro, horas depois da morte de Honiok no Incidente de Gleiwitz, a Alemanha invadia e iniciava suas ações militares na Polônia. Na sequência, França e Reino Unido declararam oficialmente guerra ao Reich e o caso da rádio foi praticamente esquecido até 1946, quando o comandante da ação, Alfred Naujocks, revelou os detalhes durante seu depoimento no tribunal de Nuremberg.

Tanques alemães cruzam rio para entrar em território polonês, em foto de 6 de setembro de 1939 — (Foto: AFP)

 

 

 

Gleiwitz x Gliwice

 

 

De acordo com Kartasinski, antes da guerra, cerca de 15% dos habitantes de Gleiwitz eram poloneses. “Na verdade, até 1933, as relações entre eles e os alemães na cidade eram boas. Foi só quando os nazistas chegaram ao poder, e em especial com o início da II Guerra Mundial, que a máquina nazista de repressão, que foi muito prejudicial aos poloneses locais, entrou em ação”, diz.

 

 

Entre 1944 e 1945, a cidade serviu como sede para quatro subcampos de concentração de Auschwitz, onde judeus e membros de outras minorias detidos pelos nazistas eram confinados antes de serem enviados para os campos principais. O historiador não precisa quantas pessoas ficaram presas ali no total, mas lembra que, “na metade de janeiro de 1945, havia cerca de 3 mil pessoas em todos os quatro subcampos”.

 

 

 

O Mercado Central da cidade de Gliwice, na Polônia, nos dias atuais — (Foto: bux13/CreativeCommons)

 

 

 

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Após o final da guerra, com o redesenho de fronteiras e a perda de território alemão, Gleiwtiz se tornou parte da Polônia e passou a se chamar Gliwice. Isso não significa que a vida se tornou mais fácil, conforme o historiador. Ao menos por um bom tempo.

 

“Os residentes de Gliwice no pós-guerra vieram de partes que pertenciam ao leste da Polônia antes da guerra. As chamadas Regiões Fronteiriças Orientais, como resultado da II Guerra Mundial, foram irremediavelmente perdidas pela Polônia para a União Soviética. Os habitantes de Gliwice no pós-guerra são mais de 99% poloneses. A adaptação na nova cidade encontrou inúmeras dificuldades”, conta.

“A Alta Silésia, onde está localizada a cidade de Gliwice, tinha sua própria especificidade. Diferenças de idioma, identidade cultural, convicção sobre a injustiça do reassentamento. Muitas vezes, muitos novos residentes poloneses de Gliwice não entendiam a identidade histórica e cultural da região. Nos primeiros anos após a guerra, muitos habitantes de Gliwice sonhavam em voltar para suas casas nas Regiões Fronteiriças Orientais. Quanto mais anos depois da guerra, mais os novos moradores começaram a se integrar”, acrescenta.

O Museu e a história

Em parte pelos longos 80 anos, em parte pela mudança na população local no pós-guerra, os próprios moradores de Gliwice não têm muitas memórias do que aconteceu ali naquele 31 de agosto de 1939. Mas o museu local, que tem um setor funcionando no local da falsa invasão e da morte de Honiok – a torre de transmissão da rádio Gliwice, faz sua parte pela preservação da história.

 

“Todos os anos em Gliwice (como em toda a Polônia) cerimônias são organizadas em escolas, cemitérios e monumentos ligados à II Guerra Mundial. Este ano, o Museu em Gliwice preparou uma cerimônia especial dedicada à primeira vítima dessa guerra, Franciszek Honiok”, informa Kartasinski.

 

 

O equipamento usado na transmissão fracassada do Incidente de Gleiwitz está no Museu de Gliwice, na Polônia — (Foto: Muzeum w Gliwicach)

 

 

A Estação de Rádio Gliwice abriga um setor do museu desde 2005. “Ali é possível ver o equipamento original usado na transmissão de 80 anos atrás. Em uma das salas existe um filme sobre o caso, que só está disponível em nosso museu, que é visitado por cerca de 10 mil pessoas por ano. Organizamos aulas, visitas guiadas e encontros sobre o Incidente de Gleiwitz”, diz o historiador, sobre as formas de manter viva a memória do que ali aconteceu.

 

Já a antena de madeira da estação é uma das principais atrações da cidade e uma de suas imagens mais marcantes. Ela é a mais alta do tipo da Europa ainda hoje, com 110,7 metros, e continua em funcionamento, com sua estrutura original.

A torre de madeira da estação de rádio de Gliwice, hoje usada para sustentar transmissores e antenas diferentes de redes celulares, estações de rádio locais e serviços de emergência, tem 110,7 metros e é a maior de madeira da Europa — Foto: Muzeum w Gliwicach

“A torre foi construída com lariço da Sibéria resistente a pragas e condições climáticas. Toda a construção foi conectada com 16 mil parafusos de bronze. O uso de madeira e bronze permitia eliminar a interferência do sinal que vinha da antena transmissora suspensa no interior. Durante o dia, as transmissões da estação de rádio Gliwice eram ouvidas na Europa, enquanto à noite, em condições climáticas favoráveis, mesmo na Nova Zelândia e nos Estados Unidos”, diz Kartasinski.

 

 

Ele acrescenta que, embora várias estruturas semelhantes tenham sido construídas na Alemanha, com alturas de 100 a 190 metros, a estação de rádio Gliwice é a única sobrevivente desse tipo de objeto. A torre de transmissão histórica ainda é usada para fins de comunicação – existem vários transmissores e antenas diferentes de redes celulares, estações de rádio locais ou serviços de emergência presos a ela.

(Fonte: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2019/08/31 – MUNDO / NOTÍCIA / Por Fabiana de Carvalho, G1 – 31/08/2019)

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