Expedição Langsdorff

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‘Expedição Langsdorff’ mostra o Brasil do século 19

A Expedição Langsdorff foi uma expedição russa organizada e chefiada pelo barão Georg Heinrich von Langsdorff, médico alemão naturalizado russo, que percorreu, entre os anos de 1824 a 1829, mais de dezesseis mil quilômetros pelo interior do Brasil, fazendo registros dos aspectos mais variados de sua natureza e sociedade, constituindo o mais completo inventário do Brasil no século XIX. Principais tripulantes, além do comandante: os artistas Aimé-Adrien Taunay e Hercules Florence, os zoólogos Ménétriès e Hasse, o astrônomo da Marinha Russa Néster Rubtsov, e o botânico Ludwig Riedel.

 

 

 

 

A Expedição Langsdorff (1824-1828) – interdisciplinar e transregional

 

Expedição Langsdorff (1824-1828), foi um projeto científico interdisciplinar, realizado com a participação de alemães, russos e franceses, em colaboração com brasileiros. (Foto: Reprodução)

 

Aventura de três artistas e um cartógrafo para desvendar nossa fauna, flora, geografia e costumes

 

Hercules Florence: Vista de Santarém sobre o Rio Tapajós. Pará, 1828. (Foto: Reprodução)

“Todo homem que aspire a conhecer as emoções líricas deve dirigir-se ao Brasil, onde a natureza poética corresponderá às suas inclinações. Mesmo a pessoa menos sentimental torna-se poeta para descrever as coisas como elas são.”

Gregory Ivanovitch Langsdorff

A Expedição Langsdorff foi um projeto científico interdisciplinar, realizado com a participação de alemães, russos e franceses, em colaboração com brasileiros. Com o objetivo de esquadrinhar o interior do Brasil, a expedição percorreu territórios pouco visitados pelas ciências modernas à época e tomou a cidade de Cuiabá como um eixo das pesquisas a serem realizadas num espaço historicamente vinculado às duas grandes bacias do Paraguai e do Amazonas.

A expedição comandada por Langsdorff percorreu durante os anos 1822 a 1829 o interior do Brasil, passando pelas regiões de Minas Gerais, Mato Grosso, Goiás, Rio de Janeiro e São Paulo. Langsdorff, alemão, naturalizado russo, natural de Wöllstein no Hesse Renano, médico formado em Göttingen, foi enviado ao Brasil, em 1813, como Cônsul-Geral da Rússia.

Acompanhando Langsdorff estavam Ludwig Riedel (botânico), Nestor Rubtsov (astrônomo), o médico e zoólogo Cristian Hasse, além de escravos, guias e remadores, somando 39 pessoas na expedição. Juntamente com os cientistas, fizeram parte da expedição o artista alemão Johan Mauritz Rugendas (João Mauricio Rugendas) e os franceses Aimé-Adrien Taunay (Aimé Adriano Taunay) e Hercule Florence (Hércules Florence).

 

Os artistas da expedição

De fevereiro de 1822 a novembro de 1824, Langsdorff teve a seu serviço o pintor natural de AugsburgoRugendas (1802-1858). Devido aos constantes adiamentos que por mais de dois anos retardaram o início das viagens, a maior parte do trabalho do artista alemão foi desenvolvida na Fazenda Mandioca, propriedade de Langsdorff no Rio de Janeiro e arredores. Somente de maio a novembro de 1824 que ele participou da primeira parte da expedição, percorrendo a região de Minas Gerais. Depois de romper com LangsdorffRugendas retornou à Europa no início de 1825 levando consigo a maior parte dos desenhos feitos no Brasil.

Para a viagem a Mato Grosso, Langsdorff contratou Aimé-Adriano Taunay (1803-1828), um jovem francês residente no Brasil – filho de Nicolas-Antoine Taunay, um dos integrantes da Missão Artística Francesa, que já tinha experiência como ilustrador de expedições científicas.

Para evitar o risco de ficar novamente sem desenhista para a sua expedição, Langsdorff contrata, junto com Taunay (primeiro desenhista), Hércules Florence (1804-1879) para compor sua equipe, um jovem natural de Nice (França), amante das artes e das ciências, recém-chegado ao Rio de Janeiro.

 

Entre 1821 e 1829, o rei D. João VI abandonou o Brasil, D. Pedro I assumiu o posto de regente e o país proclamou a sua independência de Portugal. Foi nesse período conturbado que uma expedição com artistas e cientistas liderados por Georg Heinrich von Langsdorff se aventurou por 17 mil km do território nacional. Quando o país ainda era praticamente uma gigantesca floresta.

 

Cerca de 120 aquarelas e desenhos e 36 mapas foram produzidos durante a viagem. Eles estão na mostra Expedição Langsdorff, que foi aberta em 23 de fevereiro, no Centro Cultural Banco do Brasil. A maior parte das obras é inédita no país. Elas são assinadas por Johann Moritz Rugendas, Aimé-Adrien Taunay e Hercule Florence e pelo cartógrafo Nester Rubtsov.

 

A expedição percorreu, em geral por rios, as províncias do Rio de Janeiro, de Minas Gerais, de São Paulo, do Mato Grosso, do Amazonas e do Pará. No caminho, os cerca de 40 integrantes se sujeitavam aos perigos de um território ainda pouco explorado. Taunay, por exemplo, morreu afogado e o próprio Langsdorff contraiu uma doença desconhecida que o fez enlouquecer. Nas próximas páginas, você acompanha o percurso desses aventureiros pelo interior do Brasil. Sem correr nenhum risco.

 

Quem foi Langsdorff

 

O alemão Georg Heinrich von Langsdorff (1774- 1852) formou-se em Medicina e frequentava sociedades científicas europeias. Em 1802, integrou uma expedição de volta ao mundo, sob comando de Adam Johann von Krusenstern (1770-1846). Naturalizado russo, Langsdorff foi nomeado pelo czar Alexandre I, em 1813, cônsul-geral no Rio de Janeiro. Lá, ele começou a idealizar uma viagem científica pelo interior do Brasil.

 

O cartógrafo Nester Rubtsov

 

O russo Nester Rubtsov (1799-1874) foi recomendado a Langsdorff por um amigo – o navegador Vassíli Golovnine – e chegou ao Brasil em 1822. Graduado pela Escola de Navegação da Frota do Báltico, ele ficou responsável pelas observações astronômicas e pela confecção de mapas e plantas. Um de seus instrumentos era o sextante, usado para estimar a altura dos astros e orientar a navegação. Na mostra, você vai ver uma peça do século 19, semelhante à que ele usava e 36 mapas e plantas feitas por ele durante a viagem, como a que retrata o Porto de Santos. Mesmo com recursos simples seus trabalhos têm uma exatidão impressionante, chegando a 95% de acerto.

 

Rugendas

 

O alemão Johann Moritz Rugendas (1802-1858) cursou a Academia de Belas-Artes de Munique e, com apenas 18 anos, tornou-se o primeiro artista a ingressar na expedição. No Rio de Janeiro, registrou cenas de seu contato com escravos, paisagens como o Corcovado e espécies como o sagui-da-serra.

 

Em 1824, Rugendas partiu com a expedição para Minas Gerais. Lá, ele registrou paisagens de cidades como Ouro Preto, e fez retratos de índios maxakali. Mas o temperamento forte do jovem desenhista gerou conflitos com Langsdorff – ele se intrometia nos assuntos do líder e duvidava de sua honestidade. No mesmo ano, Rugendas foi expulso. Ao sair, violou o contrato e levou consigo 500 desenhos (já pagos).

 

Taunay

 

Depois de passar por terras mineiras, a expedição seguiu para São Paulo. Para substituir Rugendas, Langsdorff contratou, em 1825, o francês Aimé-Adrien Taunay (1803-1828). Filho do pintor Nicolas Antoine Taunay (da Missão Artística Francesa) e tio do influente Visconde de Taunay, ele registrou o curso do Rio Cubatão, as vestimentas das mulheres paulistas e cenas da vida de homens ricos.

 

Florence

 

O francês Hercule Florence(1804-1879) chegou ao Brasil com 20 anos e se candidatou, em 1825, ao cargo de segundo-desenhista da expedição rumo a São Paulo. Considerado o inventor da fotografia (por estudos feitos em 1833, anos antes de Daguerre), seus desenhos são realistas, resultado do uso da câmara-escura.

 

Morte de Taunay

 

Em outubro de 1827, depois de se fixar em Cuiabá por quase um ano, a expedição se divide a pedido de Lagsdorff. Taunay parte rumo ao Rio Amazonas com um grupo liderado pelo botânico Ludwig Riedel. Poucos meses depois, Taunay, ansioso, tenta atravessar o Rio Guaporé sozinho, montado em um cavalo. O animal se desequilibra a cai na água. O artista é mordido por peixes e morre afogado.

 

Após a morte de Taunay, Florence se destaca como principal desenhista da expedição. No Mato Grosso ele se dedica a retratos de negros e de índios que habitavam as regiões de Diamantino, como os apiaká. Em 1928, Florence retratou principalmente índios manduruku das partes baixas do Rio Tapajós.

 

Encontro no Rio

 

Enquanto a frente comandada por Riedel desbravava o Amazonas, Langsdorff seguia com seu grupo pelo interior do Pará. Em 1828, Florence retratou principalmente índios manduruku (abaixo), que vivem nas partes baixas do Rio Tapajós. As duas frentes se encontraram em Belém, de onde voltaram para o Rio de Janeiro, de navio.

 

O fim de Langsdorff

 

Nos últimos anos da expedição, Langsdorff foi acometido por uma doença desconhecida, que causava surtos passageiros, durante os quais ele perdia a noção de tempo e espaço.

 

Entrevista com Boris Komissarov, organizador da exposição

 

Há mais de 30 anos, o russo Boris Komissarov, de 70 anos, professor da Universidade de São Petersburgo, ocupa-se dos estudos do acervo da Expedição Langsdorff. Abaixo, ele fala sobre a figura a quem dedicou tantos anos de sua vida.

 

O início – “Langsdorff não planejava organizar uma expedição tão grande porque a situação no Brasil era muito difícil, por conta do movimento pela Independência. No início, ele se concentrou em estudos próximos à sua Fazenda Mandioca, no Rio”

 

A ajuda russa -“A Rússia investiu uma quantia alta na Expedição Langsdorff – 330 mil rublos. Na época, o orçamento de gastos do país inteiro, para um ano todo, era de 363 milhões de rublos.”

 

A relação com pintores – “Na época, não existia fotografia e o papel do pintor era importante para o registro de tudo. Mas eles não eram pessoas ‘da ciência’, o que dificultava essa relação. Acho que Florence inventou a fotografia pensando na dificuldade que Langsdorff tinha com pintores típicos.

(Fonte:

(Fonte: http://cultura.estadao.com.br/noticias/geral – GERAL – CULTURA/ Por Marina Vaz, de O Estado de S. Paulo – SÃO PAULO – CCBB – Centro Cultural Banco do Brasil – 19 Fevereiro 2010)

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