Audie Murphy, herói americano da Segunda Guerra Mundial e ator de cinema

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O herói da 2ª Guerra que levou chumbo na nádega e virou astro de Hollywood

Murphy: herói, mocinho, empresário

Audie Murphy (Kingston, Texas, 20 de junho de 1924 – Roanoke, Virgínia, 28 de maio de 1971), herói americano da Segunda Guerra Mundial e ator de cinema. Iniciou sua carreira durante a Segunda Guerra Mundial, quando se tornou o soldado mais condecorado dos Estados Unidos (24 medalhas por atos de bravura, 240 alemães mortos ou capturados).

O que o levou em 1945 ao cinema pelas mãos do ator James Cagney (Audie participou de mais de quarenta filmes, inclusive o autobiográfico “Regresso do Inferno”) e à televisão (série de detetive, em 1961), atividades em que o pouco êxito levou-o a tornar-se homem de negócios, igualmente sem sucesso (faliu em 1968, perdendo 260 000 dólares com petróleo na Argélia). Audie Murphy faleceu dia 28 de maio de 1971, aos 46 anos, quando o avião em que viajava com mais quatro pessoas (todos morreram) bgateu em uma montanha próxima de Roanoke, na Virgínia, encerrando uma carreira que começou durante a Segunda Guerra Mundial.

Filho de uma família humilde cuja vida se complicou ainda mais por conta da Grande Depressão que assolou os Estados Unidos na década de 1930, Audie Murphy cresceu apaixonado pelo cinema – gostava principalmente de westerns – e imaginando que estar na ação do campo de batalha de uma guerra deveria ser muito mais interessante do que aquele dia a dia de pequeno agricultor que levava, colhendo algodão nos campos do Texas. De certa forma, essa predileção e esse pensamento infantil já projetavam o que o futuro lhe aguardava.

Para ter carne para comer, o pequeno Audie caçava. “Ainda criança ele matava um coelho atirando uma pedra. Rapidamente passou de pedras para estilingues e então para um rifle calibre 22, e, com todas as armas, exibia uma excelente pontaria, alvejando coelhos, esquilos e pássaros, muitas vezes enxergando um alvo onde ninguém nada avistava. Sua audição era tão acurada quanto sua visão, e ele era capaz de localizar um esquilo numa árvore apenas pelo estalido das folhas”, escreve David A. Smith em “Audie Murphy”, biografia publicada no Brasil pela Grua.

Essa habilidade com armas aliada à coragem seria fundamental para que Audie se tornasse praticamente uma máquina de guerrear. Alistou-se na marinha em 1942, durante a Segunda Guerra Mundial, mas foi rejeitado por ser excessivamente jovem (tinha 17 anos), pequeno e estar abaixo do peso mínimo exigido. Então, com seu 1,65 metro e 51 quilos, conseguiu um lugar no exército. Após o período de treinamento, rumou para o Norte da África, onde quase mil soldados dos Estados Unidos foram mortos ou ficaram feridos. Em seguida participou da invasão à Sicília, onde começou sua própria carnificina:

 

“Audie Murphy matou seus primeiros soldados inimigos na Sicília. Ele estava na frente de sua companhia com outras poucas sentinelas, procurando minas, armadilhas e atiradores. Dois oficiais italianos de repente emergiram de um esconderijo e montaram em seus cavalos para escapar. Sua reação, ele disse, foi puramente instintiva. Ele se abaixou sob um joelho, mirou e os derrubou com um tiro cada um. ‘Esse é o trabalho, não é’, ele respondeu quando um  tenente lhe perguntou por que ele tinha atirado se obviamente eles estavam fugindo. ‘Eles teriam nos matado se tivessem tido a chance’”.

O pragmatismo de Murphy também pode ser notado na maneira como ele reagiu àquelas primeiras manchas fatais de sangue em suas mãos. “Murphy pensou que, embora fosse difícil para uma pessoa abandonar a convicção de que a vida humana é sagrada, ele mesmo tinha deixado isso de lado no momento decisivo. ‘Agora eu tinha derramado sangue pela primeira vez’, ele disse. ‘Não sinto náusea, nem orgulho, nem remorso. Há apenas uma indiferença fatigante que me acompanhará durante a guerra’”.

 

Audie Murphy (Foto: DIREITOS RESERVADOS)

 

Murphy foi uma potência militar que, estima-se, matou 240 inimigos, ajudou a salvar pelotões inteiros com sei ímpeto quase suicida – ele dizia contar muito com a sorte – e recebeu dezenas de medalhas, tornando-se o soldado mais condecorado da história dos Estados Unidos. Mas também teve momentos de dor. Em outubro de 1944, durante um combate com alemães, viu um companheiro seu ser atingido fatalmente acima do olho esquerdo. Logo na sequência, enquanto  mergulhava para se proteger da saraivada inimiga, uma bala ricocheteou e atingiu seu quadril e sua nádega direita. Um sargento que estava por perto ouviu Murphy dizer: “Estou danado, fui atingido direto na bunda”. Por conta do tiro, passou mais de dois meses no hospital, enquanto a gangrena na nádega era tratada: ao todo 2,2 quilos de partes mortas foram retiradas de sua carne, conta Smith.

 

Já herói, volta aos Estados Unidos em 1945, onde é recebido com entusiasmo por multidões. Posando para uma capa da Life, então a grande revista norte-americana, é alçado à condição de arquétipo perfeito de um estadunidense. “Murphy  se tornou a própria encarnação do americano médio que tinha ido para a guerra, realizado atos de coragem e altruísmo, e então voltado para casa para reassumir a sua vida”. Não bastasse a própria história, o ex-combatente ainda tinha pinta de galã. Com esses predicados, o convite para estrelar filmes não demorou a chegar.

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Estreou como ator em 1948, alcançou o estrelato cinematográfico após “Caminho da Perdição”, de 1949, esteve em 49 filmes e se tornou a celebridade de Hollywood que mais recebia cartas de fãs. Atuou principalmente nos westerns que lhe fascinavam quando era criança. Em sua filmografia se destacam “Glória de um Covarde”, de John Huston, e “Balas que Não Erram”, de Jack Arnold.

 

 

Audie Murphy (Foto: DIREITOS RESERVADOS)

 

 

Era bom no que fazia? Não exatamente – foi um matador muito melhor – mas convencia quando encenava tipos que se aproximavam da sua personalidade, tanto que sua grande atuação foi interpretando a si mesmo em “Terrível Como o Inferno”, adaptação para o cinema de suas memórias do front. “Murphy se orgulhava de quem ele era, e quando era escalado para encenar personagens com virtudes semelhantes, ele conseguia apresentar uma performance razoavelmente convincente. Quando um filme lhe exigia retratar alguém de quem fosse familiar, ele podia recorrer ao seu repertório de experiências e emoções para trazer de volta à vida as situações que ele já tinha vivenciado. Nessas circunstâncias certamente se poderia dizer que ele estava reencenando e não simplesmente encenando”, escreve o Smith.

 

Murphy ganhou muito dinheiro na indústria cinematográfica e teve boa parte do país aos seus pés, mas isso não foi suficiente para que levasse uma boa vida após a guerra. “Apesar do seu rosto atraente e da aparência jovem durante toda a vida, o trauma da guerra lhe deixou marcas. Haveria sempre uma profunda melancolia logo abaixo de sua pele, um fatalismo constante, que era exatamente o contrário da sua imagem exterior”, registra o autor.

Por conta dos traumas do campo de batalha, dormia de luz acesa, acordava gritando pelos companheiros mortos e sentia pavor quando serviam feijão-fradinho, que lhe lembrava os miolos de um soldado alemão. Com o passar dos anos seu caos psicológico se acentuou e os remédios que lhe ajudavam a dormir se transformaram em um vício que, junto com apostas em jogos e cavalos, consumiram sua fortuna.

Audie Murphy atuou em seu último filme, “Gatilhos da Violência”, em 1971. Morreu no mesmo ano, vitimado por um acidente com um pequeno avião. Médicos só conseguiram reconhecer o seu corpo por conta da cicatriz que a bala do soldado alemão deixara em sua nádega direita. Tinha 45 anos.

(Fonte: Veja, 9 de junho, 1971 – Edição 144 – DATAS – Pág; 78)

(Fonte: https://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2018/03/29 – ENTRETÊ- Página Cinco / Por Rodrigo Casarin – 29/03/2018)

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