Antônio Silva Mello, médico, escritor e acadêmico, formou-se em medicina na Alemanha.

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Antônio Silva Mello (1886-1973), médico, escritor e acadêmico, nascido em Juiz de Fora, MG, em 10 de maio de 1886, formou-se em medicina na Alemanha e regressou ao Brasil em 1918, trazendo métodos originais de tratamento, como novos regimes dietéticos e princípios de medicina psicossomática, que suscitaram crítica e desconfiança entre a classe médica nacional, na época em geral adepta da escola francesa; sabedor das teorias de Freud, a quem conheceu pessoalmente, sustentava com ineditismno no país que muitas doenças do aparelho digestivo, como úlceras e colites, tinham origem nervosa e assim desprezava os medicamentos, preferindo conversar longamente com os pacientes, para pesquisar as origens de seus males; apesar de incompreendido pelos colegas, afirmou-se profissionalmente, e nas décadas de 30 e 40 tinha uma das maiores clientelas do país (“Houve época em que era moda ter Silva Mello como médico”, recorda-se o historiador Hélio Silva, um dos seus grandes amigos);

talvez entusiasmado por alguns clientes ligados à literatura, como Agrippino Grieco e José Olumpio, aos 50 anoscomeçou a escrever livros – antes já tinha publicado vários trabalhos científicos, alguns bastante insólitos, como o projeto de um vaso sanitário de proporções mais adequadas à estatura do homem brasileiro, tendo chegado inclusive a mandar produzir algumas peças para o casarão do largo do Boticário no Rio de Janeiro, em que vivia; amante da boa comida e dos vinhos (membro da Confraria dos Gastrônomos), agnóstico, enciclopedista e sobretudo profundamente interessado pela vida, escreveu intensamente sobre assuntos variados, a mão, numa letra que costumava desesperar os editores; em 1944, fundou a Revista Brasileira de Medicina, da qual foi diretor científico até 1973. Seus trabalhos sobre os efeitos biológicos da radioatividade tiveram repercussão no mundo científico internacional. Pesquisou e escreveu também sobre nutrição, metabolismo, imunidade e epidemiologia, nefrologia e gastrenterologia, alimentação, psicologia e psicanálise.

Autor de quase duas dezenas de livros, sempre polêmicos, como “A Superioridade do Homem Tropical”, “Assim Nasceu o Homem” e “Religião, Prós e Contras”, publicou em março de 1973 seu último trabalho, “Eu no Universo”, que classificou como sua “obra terminal”, onde prega mais uma vez a supremacia do instinto sobre a razão humana; deixou catorze livros manuscritos inéditos; membro da Academia Brasileira de Letras desde 1960, há dois anos desistiu de tingir de preto os cabelos e passou a cultivar uma barba alentada, “aceitando finalmente a velhice”, segundo seus amigos; ultimamente, admitia que as pancadas recebidas na cabeça, dadas pelo copeiro efeminado que tentou roubá-lo em dezembro de 1972, tinham causado pequenas esquemias em seu cérebro; quando se preparava para uma viagem a Guarapari com a mulher, sentiu-se mal e não recobrou mais os sentidos. Silva Mello morreu no dia 19 de setembro de 1973, aos 87 anos, no Rio de Janeiro, de trombose cerebral.

(Fonte: Veja, 26 de setembro, 1973 – Edição n.° 264 – DATAS – Pág; 19)

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