Abelardo Pinto (1897-1973), o palhaço Piolin, iniciou sua carreira circense, como contorcionista em 1905, aos oito anos. Todas as quintas-feiras, na provinciana São Paulo da década de 20, o Grande Circo Alcebíades, instalado no largo do Paissandu, tinha cadeira reservada para um espectador ilustre. Washington Luís, então presidente do Estado, gostava de ver a entrada no picadeiro de um palhaço magro e desengonçado, dirigindo um automóvel puxado por um gato que fugia de um cachorro.
Usando um paletó largo, calças justas, enormes sapatos e uma grossa bengala de bambu. Piolin era a maior atração do circo. Nas primeiras cadeiras, era comum ver-se Mário de Andrade e os seus agitados companheiros da Semana de Arte Moderna rirem das dificuldades do palhaço para matar uma pulga que insistia em atrapalhar o desafinado dueto de pistão e bandolim com o parceiro Alcebíades. Foi sua melhor fase, segundo ele, uma das três em que enriqueceu, “antes de empobrecer três mil vezes”. Tinha um avião particular, mais tarde requisitado pela Revolução em 1932, e um carro com chofer e suas iniciais gravadas na porta.
Nascimento ao som da bandinha – Abelardo Pinto ganhou o apelido de Piolin (barbante em espanhol, ou rapaz folgadão no lunfardo argentino) por suas pernas finas, tendo nascido no circo do pai, a 27 de março de 1897, em Ribeirão Preto. “Nasci durante o espetáculo”, contava ele, “sob uma lona amarela e ao som do xote da bandinha.” Aos 8 anos foi apresentado como “o menor contorcionista do mundo”. A carreira teve curta duração. O contorcionista engordou e durante um espetáculo precisou ser tirado a serrote das grades de uma cadeira.
Depois de ter sido acrobata, saltador, equilibrista e trapezista, Piolin descobriu-se palhaço em 1918, ao substituir com sucesso o então famoso Chicharrão. A ligação com os modernistas foi muito importante. Oswald de Andrade gostava de conversar com ele no camarim e sua polêmica peça “O Rei da Vela” foi inspirada em Piolin, que quis encená-la no circo, mas a Censura não permitiu.
Morte longe do picadeiro – Com a saída do largo do Paissandu e após alguns anos de excursões pelo Brasil, o circo começou a dar as primeiras decepções ao palhaço. Em 1941, instalou-se em um terreno do IAPC, na avenida General Olímpio da Silveira, e ali ficou 20 anos.
Resistindo às plateias cada vez menores, negou-se sempre a curvar-se às boas propostas feitas pela televisão, pois para ele as crianças sempre gostaram dos picadeiros, “os pais é que acham mais cômodo distraí-las frente a um aparelho de tevê”.
Em 1961, o maior desgosto, quando preparava um espetáculo para a noite de Natal. Um advogado do Instituto entrou no circo com a ordem de despejo. Sem ter para onde ir, levou seu velho camarim de madeira para um terreno no bairro da Freguesia do Ó, em São Paulo, onde viveu até ser internado no Hospital das Clínicas, sem ter conseguido a sonhada aposentadoria.
Piolin já havia sido internado dia 13 de janeiro de 1973, na Unidade de Terapia Intensiva do Hospital das Clínicas de São Paulo, aos 76 anos, que ultimamente vinha apresentando seu espetáculo de despedida da carreira circense.
No dia 4 de setembro, a insuficiência cardíaca que matou Abelardo Pinto, no hospital aos 76 anos, 68 de circo e 55 como palhaço, foi sua última decepção: “Quero morrer no circo, com as crianças rindo de minha última palhaçada, a morte”. Segundo Menotti del Picchia, um dos poucos remanescentes do Modernismo, “a morte de Piolin no picadeiro era uma enorme tragicidade cômica. Ele morria aos pedaços, desarticulado, após uma agonia convulsiva que lhe paralisava sucessivamente as pernas, os braços e por fim a cabeça, na qual os lábios soltavam o último suspiro”.
(Fonte: Veja, 2 de fevereiro, 1973 Edição n.° 233 DATAS – Pág; 13 – Veja, 12 de setembro, 1973 Edição n.° 262 CIRCO – Pág; 32/34)
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