A primeira verificação das condições que o Brasil oferecia para se tornar um país independente

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A primeira verificação das condições que o Brasil oferecia para se tornar um país independente

Uma estranha História do Brasil foi escrita entre 1810 e 1819, pelo inglês Robert Southey (Bristol, Inglaterra, 12 de agosto de 1774 – 21 de março de 1843), historiador e escritor. Fundamentada numa mescla de conservadorismo e humanitarismo autoritário, a obra de Southey é o primeiro exame sistemático das fontes sobre a história colonial e, sobretudo, a primeira verificação das condições que o Brasil oferecia para se tornar um país independente. Southey nunca visitou o Brasil, nem tinha ligações ponderáveis para conseguir realizar uma obra tão significativa.
(Fonte: Veja, 12 de fevereiro de 1975 – Edição n° 336 – O FARDO DO HOMEM BRANCO (Southey, Historiador do Brasil) – DIAS, Maria Odila da Silva – Literatura/ Por G.G.F – Pág; 90)

Os quarenta e quatro capítulos da História do Brasil, de Robert Southey (1774 – 1843), formando 2.327 páginas em três volumes na edição inicial, em inglês, e 3.011 páginas nos seis volumes da primeira edição brasileira, compõem o que alguns estudiosos consideram como a primeira história geral do Brasil.

Publicada em Londres entre 1810 e 1819, a obra só seria traduzida em português, e no território que lhe serviu de tema, cerca de meio século depois.

Outra história geral, mas com o título sugestivo de Historia da America Portugueza, desde o anno de mil e quinhentos do seu descobrimento, até de mil e setecentos e vinte e quatro de Sebastião da Rocha Pitta, senhor de engenho e letrado na Bahia, aparecera em Lisboa, 1730 – e outras obras do período colonial, como as de Gabriel Soares de Souza e Frei Vicente do Salvador, só seriam impressas ao longo do século XIX. Porém, é mais frequente a comparação do trabalho de Southey, ainda que com risco de anacronismo, à história geral de Francisco Adolfo de Varnhagen, publicada entre 1854 e 1857. Logo, a edição brasileira do historiador britânico é um pouco posterior à do visconde de Porto Seguro (surgindo, em certa medida, como reação ao trabalho deste).

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A narrativa elaborada por Southey se demarca, em vários aspectos, daquela que seria linhagem predominante na historiografia brasileira oitocentista, sobretudo no que se refere à colonização portuguesa. O Descobrimento do Brasil, atribuído ao navegador espanhol Vicente Yañez Pinzon, em 1499, recebe descrição detalhada.

Ainda neste sentido peculiar, é impressionante a massa de informações na obra sobre as populações indígenas, considerando-as, portanto, como agentes históricos equivalentes aos colonizadores. Southey deixa claro seu ponto de vista: índios e portugueses são igualmente bárbaros e cruéis, embora tenha cabido a estes implantar a civilização e construir o Estado. Exemplo desta característica encontra-se no penúltimo capítulo, no qual 14,5 páginas são dedicadas às guerras e contatos com os índios, 10 à Conjuração Mineira (pela primeira vez registrada em livro) e 1,5 às guerras da Revolução Francesa. E a história do Brasil, vista por Southey surgida em “mesquinhos princípios”, merece prognóstico otimista:

“Os agravos do povo fáceis são de remediar: à abolição do tráfico de escravos se seguirá a abolição da escravidão; os selvagens que ainda restam não tardariam a civilizar-se; e Índios, negros e Portugueses irão se fundindo gradualmente num só povo, que terá por herança uma das mais formosas porções da terra.”

A primeira edição brasileira, aqui disponibilizada, foi traduzida por Luiz Joaquim de Oliveira e Castro e anotada pelo cônego Fernandes Pinheiro. E tem servido de base para as edições posteriores, acrescidas, em 1965 (São Paulo: Editora Obelisco), de anotações de Brasil Bandecchi e Leonardo Arroyo. O exemplar da Biblioteca Brasiliana Mindlin possui a chamada encadernação imperial, ou seja, brasão dourado com as marcas imperiais, o que caracteriza, segundo Rubens Borba de Moraes, o primeiro estilo brasileiro de encadernação.

Robert Southey estava certo de que seria considerado o fundador da história pátria brasileira, sendo o primeiro a incluir a vinda da Corte portuguesa, assim concluindo “os anais coloniais do Brasil”. Porém, foi mais reconhecido como poeta e escritor, tirando daí seu sustento. Filho de comerciante inglês de tecidos, com vínculos em Portugal, nunca esteve no país sobre o qual escreveu. Sua prosa buscava ser fluente e descritiva, evitando citações e encadeando personagens e acontecimentos, baseada em rigorosa e ampla documentação, a maior até então reunida por um autor, sobre o passado brasileiro. Se a sua escrita da história foi vigorosa, suas previsões nem sempre se realizariam.
(Fonte: http://www.brasiliana.usp.br – DIAS, Maria Odila da Silva – O fardo do homem branco. Southey, historiador do Brasil – Robert Southey e a pioneira História do Brasil/ Por Marco Morel)

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