JOSÉ LIMEIRA, POETA DO ABSURDO
Zé Limeira (Teixeira, 1886 – Teixeira, 24 de dezembro de 1954), cantador, repentista e violeiro da Paraíba, analfabeto, andarilho e muito famoso no sertão. Ficou conhecido como “Poeta do Absurdo”.
“Eu briguei com um cara macho
Mas não sei o que se deu
Eu entrei pru dentro dele
Ele entrou pru dentro deu
E num zuadão daquele
Não sei se eu que era ele
Nem sei se ele era eu…”
O autor desses versos, sempre foi completamente desconhecido além das fronteiras do interior nordestino.
De estatura avantajada, com sua roupa de mescla, óculos escuros, lenço vermelho no pescoço e os dedos grossos de anéis, Zé Limeira andava sempre apoiado numa bengala de aroeira, acompanhado por uma pequena multidão.
Zé Limeira era irreverente e pornográfico nos lugares mais austeros. Na casa de um agrônomo que o chamara para cantar numa festa, escandalizou a família e os convidados ao celebrar as virtudes da anfitriã: “Cantá pra dona Zefinha/ é só o que me omenta (aumenta)/ Pois conheço mulhé boa pelo buraco da venta/ Eu sô home de fé/ Mas só conheço a muié/ olhando a parte de baixo”.
Indiferente a críticas, Zé Limeira construiu um mundo fantástico que merece ser conhecido.
O livro “Zé Limeira, o Poeta do Absurdo”, de autoria do jornalista e poeta paraibano Orlando Tejo recriou a figura mitológica do cantador nordestino. Para revelá-lo ao resto do país o bacharel há vários anos vinha tentando publicar, em Pernambuco e Rio de Janeiro, o resultado de mais de duas décadas de pesquisa.
Orlando Tejo o viu pela primeira vez em 1950, durante quatro anos, perseguiu-o incansavelmente com um gravador e só assim evitou que se perdessem estrofes como esta: “Getúlio foi home bom/ Fazia carnificínia/ Gostava de comê fava/ misturada com resina/ Sofreu, mas ainda foi/ Delegado de Campina”.
Ou esta espécie de antevisão do “Samba do Crioulo Doido”, de Sérgio Porto: “Quando dom Pedro Segundo/ Governava a Palestina/ E Dona Leopoldina/ Devia a Deus e a todo mundo/ O poeta Zé Raimundo/ Começou a castrar jumento/ Teve um dia um pensamento/ Tudo aquilo era boato/ Oito noves fora quatro/ Diz o Novo Testamento”.
(Fonte: Veja, 28 de novembro de 1973 – Edição 273 – LITERATURA / Por Daura Lúcia Santos – “José Limeira, Poeta do Absurdo”, de Orlando Tejo – Pág: 114)

