Wilhelm Reich, médico e psicanalista austríaco, discípulo de Sigmund Freud.

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O iconoclasta

Reich: sempre contra a corrente

Wilhelm Reich (Dobryzcynica, Áustria, 24 de março de 1897 – Lewisburg, 3 de novembro de 1957), médico e psicanalista austríaco, discípulo de Sigmund Freud. Em março de 1919, durante um rumoroso seminário sobre sexologia promovido pelo círculo psicanalítico de Viena, um jovem acadêmico de medicina rascunhava, às margens de seu caderno de notas, um rápido comentário: “Talvez a minha moralidade pessoal objete a isso. Contudo, pela minha própria experiência, e por observações minhas e de outros, convenci-me de que a sexualidade é o centro em torno do qual gravita toda a vida social, assim como a vida íntima do indivíduo.” Por mais desencontrada, confusa e contraditória que tenha sido a partir daí sua aventura científica, jamais renegaria essa intuição juvenil. Pelo contrário: navegaria contra a correnteza da pudicícia social, das pressões políticas e da hipocrisia de uma certa psicanálise bem comportada, pronta a negociar suas concepções mais incomodamente revolucionárias em troca da indulgência do establishment científico da época. E levaria até as últimas consequências seu vislumbre original e sua batalha pela sexualidade plena e irrestrita.

Batalha que, de resto, não era apenas sua, mas sobretudo do próprio Freud e da própria psicanálise – embora o venerando mestre e seus apóstolos, àquela altura, já se recusassem a combatê-la.

Irreverência e audácia – A solitária ousadia de Reich lhe custaria a cabeça, anos depois – e, a rigor, entre toda a sua generosa bibliografia merece tão decididamente a responsabilidade por esse martírio quando “A Função do Orgasmo”. Ela chegou ao Brasil depois de atravessar 48 anos de história. E apresenta um Reich, aos 30 anos de idade, com toda a sua irreverência e sua audácia, expondo-se temerariamente à perplexidade de seus colegas e à indignação da puritana Viena dos anos 20.

Na verdade, retomando a trilha anunciada por Freud na sua teoria da libido, este empedernido iconoclasta marchou muito além – a ponto de acabar reduzindo quase todo o elenco de perturbações mentais à condição de reflexos das disfunções genitais. “A saúde mental”, argumentava Reich, “não é nada mais do que a capacidade plena de um indivíduo liberar sua energia sexual.” Em última análise, o orgasmo seria a medida entre a doença e a saúde mental – e a neurose, em consequência, apenas o resultado da incompetência sexual. Nada mais escandaloso, evidentemente. Aliás, o próprio Reich se deliciava em lembrar que seu mestre, Freud, acusado em tempos remotos de ser um profeta da anarquia sexual, tratou de esconder o livro na mais alta prateleira de sua biblioteca, “para que não caísse nas mãos das crianças.”

Uma vida de ódios acumulados

Incompreendido, louco, proscrito, Wilhelm Reich parece ter acumulado, em sua trajetória científica, o ódio e a implicância de seus contemporâneos. Aos 26 anos de idade, já era uma das mais originais e brilhantes inteligências da corte psicanalítica de Sigmund Freud, na Viena do pós-guerra. Aos 37, no entanto, foi sumariamente excluído de tais hostes, por decreto da Associação Psicanalítica Internacional. Em 1930, na turbulenta Berlim pré-nazista, irrestrito adepto do Partido Comunista, Reich abriria, com seus minguados recursos, uma dezena de clínicas de assistência sexológica para os operários alemães. Dois anos depois, porém, acusado de “diversionismo ideológico” e escorraçado pelo partido, todas elas foram irremediavelmente fechadas.

Seus livros estiveram entre os primeiros a arder nas figueiras do fascismo, e o próprio Reich, perseguido, precisou refugiar-se na Escandinávia e depois dos Estados Unidos. Seria, entretanto, exatamente numa nação tão liberal como a americana que ele, tachado de “paranóico” e “esquizofrênico”, acabou condenado a dois anos de prisão por charlatanismo. Enclausurado numa prisão federal, pagou, com a vida, aos cortesãos do saber oficial, o preço de seu inconformismo.

Na verdade, Reich jamais conseguiu escapar, antes ou depois de morto, do estigma de renegado. As comodidades de sua infância burguesa, na opulenta Áustria imperial do fim do século 19, logo seriam abaladas por um episódio traumatizante – sua mãe e um amante, surpreendidos pelo menino Wilhelm em plena carícia amorosa. Amadurecido prematuramente pelo incidente e, em seguida, pelos rigores da I Guerra Mundial, para a qual foi mobilizado aos 17 anos, lançou-se avidamente ao estudo da medicina. Por sua saudável inquietude intelectual, privaria da intimidade do próprio Freud. A admiração recíproca, porém, foi drasticamente abalada com a publicação, em 1927, do polêmico “A Função do Orgasmo”, em que o destemido Reich retomava algumas velhas ideias do mestre – convenientemente esquecidas, naquele momento em que a psicanálise começava a negociar a indulgência na ciência tradicional. Em todo caso, Reich não se intimidou e, em 1932, com a Alemanha convulsionada pela agitação nazista, teve mesmo a ousadia de publicar “A Psicologia de Massas do Fascismo”, em que ensaiava uma síntese entre os dois principais caudais ideológicos do século XX – a psicanálise e o marxismo. Nem mesmo depois de sua morte, aliás, a vigilância de seus detratores cedeu. Os livros de Reich continuam sendo peças raras nas bibliotecas de alguns especialistas. No Brasil, antes da edição de “A Função do Orgasmo”, só se conhecia um de seus outros 26 livros – “A Revolução Sexual”.

(Fonte: Veja, 16 de julho de 1975 – Edição n° 358 – A Função do Orgasmo/ Por Wilhelm Reich – LITERATURA/ Por Nirlando Beirão – Pág; 108/109)

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