A heroína de óculos
Com alma operária
Simone Weil (Paris, 3 de fevereiro de 1909 – Ashford, 24 de agosto de 1943), pensadora francesa.
Como toda rebelde, Simone Weil – desaparecia de casa, às vezes: só que a pista para reencontrá-la não eram as confeitarias ou os parques de diversões. Eram as passeatas de grevistas, que ela costumava seguir, compenetrada, até que a babá viesse resgatá-la. Sua rebeldia foi tão precoce e extravagante quanto sua inteligência: aos 12 anos, lia Pascal e conhecia o grego clássico, provocando, de seu professor Alain – o mentor intelectual da mais célebre geração de existencialistas -, um fascinado veredito, alguns anos mais tarde. “Simone Weil é uma rara potência de espírito, que se realizará brilhantemente, se não se engajar em caminhos obscuros; ainda que os siga, será notável.”
Havia certamente uma ponta de intuição neste comentário: aos 25 anos, a jovem – nascida de abastada família judia, em fevereiro de 1909 – abandonava uma carreira auspiciosa, o magistério de filosofia, e o convívio na ensolarada casa dos Weil, para alugar um pequeno quarto e empregar-se como operária nas indústrais Renault. E, em 1936, quando o governo da Frente Popular de Léon Blum recusou auxílio aos republicanos espanhóis, ela atravessou a fronteira e engajou-se nas milícias anarquistas que então combatiam o futuro ditador Francisco Franco.
Os “caminhos obscuros” valeram-lhe a admiração de muitos contemporâneos e, de certa forma, uma desvantagem póstuma: acabou se transformando numa personalidade tão irradiante que ofuscou por certo tempo a própria obra.
O HEROÍSMO DESAJEITADO – Não que sua vida tivesse sido uma sucessão de impecáveis feitos de bravura. Um heróis clássico não permitiria que uma prosaica miopia o tirasse de combate, como aconteceu com Simone durante a Guerra Civil Espanhola. Capaz de empunhar um fuzil, mas não de discernir um tonel de óleo fervente semi-oculto nas trincheiras, Simone sofreu graves queimaduras e foi mandada de volta à França. O heroísmo de Simone, ao contrário, era silencioso, desajeitado, solitário. Quando granjeava cumplicidade, esta era sempre definitiva.
É um pouco desta cumplicidade que transpira de sua obra. Os textos de “A Condição Operária e outros Estudos sobre a Opressão” têm origens, ritmos e objetivos os mais diversos. Mas identificam-se, todos, naquilo que é sua qualidade comum, a qualidade da autora: testemunham uma coerência vivida entre teoria e prática.
Muitos destes escritos são inspirados em sua vivência direta dos acontecimentos, como o relato sobre a Espanha, ou sobre a Alemanha a caminho so nazismo. São sempre mais que reportagens, e equacionados com menos abstração que o comum dos ensaios políticos da época. Os ensaios sobre a condição operária são uma curiosa mescla de diário íntimo e denúncia pública. Simone, acrescenta, à descrição das idênticas segundas ou sextas-feiras que ela viveu na Renault ou na fábrica Alshtom, uma dissecação em detalhe deste sofrimento cotidiano. Alguns estudos sobre o desenraizamento operário e a opressão serviram de roteiro para aulas que ela mnistrou, no início dos anos 30, a mineiros de Saint-Etienne.
Para Simone, conhecimento era sinônimo de pensamento livre. Talvez por isso ela tenha sido intelectualmente herética, desobediente e indisciplinada, tanto em seu socialismo quanto em sua fé cristã: jamais condescendeu em chamar o estalisnismo de “mal necessário” – como tantos contemporâneos seus – assim como recuspu procurar o batismo, até o fim de sua vida.
AVERSÃO PELO PODER – Era extremamente prudente, quanto às verdades teóricas; mas de uma impaciência juvenil, quando se tratava da ação. Participou das grandes e menores causas de seu tempo, desde esforços unitaristas junto à CGT francesa até a resistência antifascista durante a II Guerra Mundial. Escrevia para a Revolution Proletarienne, órgão de dissidentes do PC francês; participava de movimentos pacifistas e anticolonialistas; ensinava marxismo e ortografia para operários, nas horas vagas. Mas jamais chegou a filiar-se a um partido. Foi atacada tanto pela esquerda – que não engolia suas críticas ao regime russo – quanto pela direita que, paradoxalmente, acusava mademoiselle Weil de agente de Moscou.
Seu único princípio, em política, foi uma total aversão pelo poder, onde quer que ele se manifestasse, da brutal coerção física às sutis artimanhas do prestígio. Sensível o suficiente para captar certos vícios empoeirados e renitentes da política, ela escreveu, em “Opressão e Liberdade”, no princípio dos anos 40: “Atualmente, toda tendência política, inclusive os menores grupúsculos, acusa as demais de fascistas, recebendo em troco a mesma acusação – exceto, é claro, os poucos que consideram este epíteto é parcialmente justificável: o animal político do século XX tem um gosto pronunciado pelo fascismo.”
A GRANDE QUESTÃO – Simone Weil tinha uma opção instintiva e incondicional pelos vencidos: fossem eles a classe operária ou os povos coloniais, algum humilde pescador que ela havia ensinado, como Leon Trotsky – que ela elogiou fartamente num artigo publicado em 1932, “As Condições da Revolução na Alemanha”, e com quem teve aceleradas polêmicas, em 1933, na curta estadia do líder exilado em sua casa. Sem o brilho de Trotsky, mas também sem seus compromissos, ela chegou a ser profética quando duvidou que a mera abolição da propriedade privada pudesse conduzir ao fim da exploração. A escravidão, para Simone, originava-se da milenar divisão entre o trabalho manual e intelectual, entre os que controlam o poder e os que dispõem apenas do próprio corpo. Não há verdadeira revolução, para ela, enquanto não houver um nova organização do trabalho nas fábricas. “Que vontade de poder largar a alma no cartão de entreda, e só retomá-la à saída. Mas a alma vai com a gente para a oficina” – escreveu, em “A Condição Operária”. A alma, a essência humana, acaba contaminanda pelos gestos mecânicos e passivos que o corpo executa numa linha de montagem. Seria tolice falar da emancipação do homem enquanto seu corpo ainda estiver subjugado.
SANTOS PARA O MUNDO – A utopia operária de Simone é mais nostálgica que futurista: ela imagina a Codade dos artesãos livres e iguais, e nunca o moderno complexo fabril administrado pelo Estado incisível. Meio anarquista, meio mística, a mulher madura acabou encontrando no cristianismo primitivo – o mesmo dos hereges cátaros do século XII -a doutrina sob medida para a vocação da Weil adolescente à “caritas”. Aquela Simone – que separava metade de seu magro salário para a caixa comum dos grevistas, que recusava uma ração alimentar maior que a oficial durante a guerra, mesmo estando doente – descobriu, no Cristo proscrito, a imagem da humanidade: “Eu nunca pude compreender como um espírito razoável pudesse considerar a Jeová da Bíblia e o Pai invocado no Evangelho como um só e mesmo ser”, disse. Seu Deus não é o ser irascível que pune e vigia, mas o Deus suplicante que sai em busca dos homens. Nada mais natural: o pensamento de Simone, rústico, singelo, contrito, buscava ser um evangelho desordenado, dedicado aos humilhados e ofendidos da era industrial. Ela teria sido Carlitos, se fosse personagem das telas, ou Francisco de Assis, s eos tempos permitissem tal repetição. Pois escreveu, também: “O mundo precisa de santos, como a cidade com a praga precisa de médicos.”
Simone morreu em agosto de 1943, de tuberculose, num hospital inglês. Os mineiros que ela havia ensinado anos atrás, ao saberem de sua morte prematura, aos 34 anos, talvez tenham sido os que melhor enxergaram seu fim: “Ela não podia mesmo viver. Era instruída demais, e não comia nada”. Comentário cheio de uma malícia sábia, que encantaria Simone, uma mulher generodamente inadequada às coisas mesquinhas da vida.
(Fonte: Veja, 26 de setembro, 1979 – Edição 577 – LIVROS/ Por MARÍLIA PACHECO FIORILLO – Pág: 82)

