Rudi Dutschke, involuntário semeador da epidemia terrorista dos anos 70, o outrora temido “Rudi, o Vermelho”

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Revolucionário socialista

Revolucionário socialista

 

O pai involuntário do euroterrorismo

Rudi Dutschke (Alemanha, 7 de março de 1940 -– Aarhus, Dinamarca, 24 de dezembro de 1979), foi o mais influente agitador estudantil dos anos 60 e involuntário semeador da epidemia terrorista dos anos 70, o outrora temido “Rudi, o Vermelho”.

Foi líder das manifestações estudantis na Alemanha Ocidental. Estudante impecável na Alemanha Oriental, de onde imigrou para Berlim Ocidental em 1961, Dutschke era um socialista utópico que rejeitava simultaneamente o comunismo burocrático que conheceu em sua terra natal como a democracia ocidental em seus vários matizes.

Na linha do filósofo Herbert Marcuse, ele bradava formidáveis ameaças “a sociedade de consumo retrógrada”. Para combatê-los, no entanto, postulava uma “longa marcha através das instituições” – marcha a ser empreendida pelos estudantes, então o único grupo não assimilado à sociedade.

A “oposição extraparlamentar”, que integrou ao lado de espeitáveis intelectuais, repudiando o Partido Social-Democrata como “traidor do socialismo”, era uma das estradas para aquela marcha”. Rudi Dutschke jamais aceitou, ou mesmo compreendeu, contudo, o terrorismo como forma de ação – muito embora o terrorismo europeu tenha brotado, por ironia, justamente das fileiras de militantes estudantis que ele despertou e comandou nos anos 60.

TERRORISMO – Os sit-ins e passeatas que Dutschke liderou com invulgar carisma chegaram, num certo momento, a apavorar a conservadora sociedade alemã e contagiaram os estudantes do resto da Europa, em particular França e Itália. Mas, na medida em que o establishment resistiu ao desafio, instalou-se um impasse que desaguaria no terrorismo.

Descobrindo que não estava indo a lugar algum com sua revolta, a maioria dos contestadores desertaria do combate. Pequenas minorias, entretanto, certas de que não havia espaço para si numa sociedade que desprezavam, jogaram-se na aventura do terrorismo e da criminalidade política.

Impulso desordenado com objetivos confusos da juventude de classe média, o euroterrorismo desde o começo permanece atolado num patético e desesperançado anarquismo sem objetivos – combate as instituições menos  por um desejo de substituí-las do que pelo simples fato de existirem.

Na crescente sucessão de assaltos, sequestros e atentados com que sobressaltaram a Europa nos anos 70, os terroristas acabaram provocando, em reação, um enrijecimento ainda maior da sociedade que já consideravam excessivamente autoritária. Um pouco em toda a parte, mas em especial na Itália e Alemanha, a alfaiataria jurídica costurou leis sob medida para combatê-los legalmente – e quem perdeu, aí, foram as liberdades e garantias individuais.

Perseguidos implacavelmente, sofrendo seguidos reveses nos últimos anos, os euroterroristas persistiam em sua insensatez sob condições de crescente isolamento. Menos ainda do que o movimento estudantil de onde emergiram, não contam com a menor simpatia popular.

A apatia política, associada a uma preferência pelos partidos conservadores, é um fenômeno de generalização progressiva nos anos 70. Na Alemanha, atingiu com intensidade mesmo a juventude universitária, a ponto de preocupar as autoridades. Um quadro por certo amargo para que, como Rudi Dutschke, foi o seu grande condutor nos anos 60.

Em abril de 1968, com efeito, numa pausa das manifestações estudantis que liderava na Alemanha Ocidental, levou dois tiros à queima-roupa na cabeça, quando voltava para casa, pedalando uma bicicleta. Escapou por pouco e em algum tempo voltou a levar uma vida quase normal. Não resistiu, contudo, a um banal acidente doméstico dia 24 de dezembro de 1979 – na véspera de Natal, aos 39 anos de idade, em sua casa na cidade dinamarquesa de Aarhus, onde desde 1970 vivia com a mulher Gretchen e um casal de filhos, escorregou no banheiro, bateu a cabeça e morreu.

O projeto pessoal de Rudi era ambicioso. “É perfeitamente possível chegar aos 80 anos de idade como um revolucionário socialista”, jactava-se ele em 1974. “E é exatamente isso o que espero ser algum dia.” Rudi não chegaria nem ao meio deste caminho – embora pudesse imaginar que já superara o obstáculo mais difícil.

 

 

(Fonte: Veja, 2 de janeiro de 1980 – Edição 591 – ALEMANHA – Pág: 38)

 

 

 

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