Arqueóloga paulista, que identificou mais de 700 sítios pré-históricos, pioneira na pesquisa da Serra da Capivara, deixou legado histórico e científico para o Brasil
Arqueóloga brasileira de fama mundial
Niède Guidon recebeu o Prêmio Almirante Álvaro Alberto, concedido em reconhecimento aos brasileiros que contribuíram de forma significativa para a ciência e tecnologia do País. (Foto: Tiago Queiroz/Estadão – 25/08/2016)
Niède Guidon (nasceu em Jaú, no interior de São Paulo, em 12 de março de 1933 – faleceu em 4 de junho de 2025), arqueóloga, professora e pesquisadora franco-brasileira, foi uma das mais respeitadas cientistas do Brasil e referência mundial em arqueologia, pioneira na pesquisa da Serra da Capivara.
Ela revelou ao mundo as pinturas rupestres do parque que mudaram o conhecimento sobre o povoamento das Américas. Niède Guidon é considerada uma das maiores referências da arqueologia no país e no mundo.
A pesquisadora foi responsável por descobertas arqueológicas no Parque Nacional da Serra da Capivara, na cidade de Coronel José Dias, também no Sudoeste Piauiense. A frente das pesquisas no parque, hoje reconhecido como Patrimônio Mundial pela UNESCO, identificou e estudou mais de 700 sítios arqueológicos, segundo a Sociedade de Arqueologia Brasileira.
Grande figura da ciência brasileira, Niède Guidon foi responsável pelo curso de graduação em São Raimundo Nonato e o bacharelado em Arqueologia e Preservação Patrimonial da UNIVASF. Por sua relevância e comprometimento com o entendimento das primeiras ocupações no continente americano, foi membro da Academia Brasileira de Ciências e condecorada com a Ordem Nacional do Mérito Científico.
Mente por trás da Fundação Museu do Homem Americano (FUMDHAM), a arqueóloga dedicou mais de cinco décadas à investigação do passado humano nas Américas e à preservação do patrimônio pré-histórico brasileiro. Suas pesquisas ajudaram a mostrar que a presença humana nas Américas é mais antiga do que se pensava.
Em 2024, a arqueóloga recebeu o Prêmio Almirante Álvaro Alberto 2024. A premiação, concedida anualmente pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e Marinha do Brasil, é um reconhecimento aos cientistas brasileiros que contribuíram de forma significativa para a ciência e tecnologia do país e se deu durante a Reunião Magna da Academia Brasileira de Ciências (ABC).
Esse foi mais um título para a cientista que já foi condecorada com a Ordem do Mérito Científico, Grã-Cruz, do MCTI; além de ter conquistado o Green Prize, da organização pacificista e ecológica Paliber; o Prêmio Príncipe Klaus, do governo holandês; o Prêmio Fundação Conrado Wessel de Cultura; o prêmio Cientista do Ano, da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC); o Prêmio Chevalier de La Légion d’Honneur, do governo francês.
Segundo o CNPq, ao longo de sua carreira, Niède identificou mais de 700 sítios pré-históricos, entre os quais 426 paredes de pinturas antigas e evidências de habitações humanas antigas na área da Serra de Capivara, no Piauí.
Nascida em Jaú, no interior de São Paulo, em 12 de março de 1933, Niède formou-se em História pela Universidade de São Paulo (USP) e concluiu seu doutorado na Universidade de Paris (Sorbonne). Foi na caatinga piauiense, no entanto, que ela construiu seu maior legado. Sob sua liderança, mais de 800 sítios arqueológicos foram identificados, incluindo o famoso sítio de Pedra Furada, com pinturas rupestres que desafiaram teorias tradicionais sobre o povoamento das Américas.
Defensora da preservação ambiental e da valorização cultural, Niède foi a principal responsável pela criação do Parque Nacional da Serra da Capivara e pela fundação da Fumdham (Fundação Museu do Homem Americano), que promove iniciativas educacionais, culturais e científicas na região.
Ao longo de sua carreira, recebeu diversas homenagens, entre elas a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico, o título de Cavaleiro da Legião de Honra pelo governo francês, e a eleição para a Academia Piauiense de Letras. Sua dedicação ao sertão nordestino transformou o conhecimento sobre o passado pré-histórico do continente e a vida de comunidades locais, por meio de projetos de desenvolvimento sustentável.
Formação e prêmios
Niède Guidon formou-se em história natural na Universidade de São Paulo (USP) em 1959. A paixão pela arqueologia surgiu em 1975, durante um doutorado na Sorbonne, em Paris. A partir da “descoberta” das pinturas rupestres no sudeste piauiense, a pesquisadora passou a estudar o tema.
A arqueóloga foi homenageada pela Universidade Federal do Piauí (UFPI) com o título de Doutora Honoris Causa, considerado o título mais importante concedido por uma universidade a personalidades que tenham se destacado por sua contribuição à cultura, à educação ou à humanidade.
Niède Guidon também foi vencedora do Almirante Álvaro Alberto 2024, sendo um dos mais importantes prêmios de pesquisa do Brasil para a Ciência e Tecnologia. O prêmio foi concedido pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), em parceria com a Marinha do Brasil.
Niède Guidon morreu na quarta-feira (4), aos 92 anos.
A morte foi confirmada pela direção do Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, local onde a pesquisadora dedicou mais de quatro décadas de sua vida ao estudo e à preservação do patrimônio arqueológico brasileiro.
Repercussão
A escritora Adriana Abujamra, autora do livro Niéde Guidon — Uma Arqueóloga no Sertão, afirma que a especialista fez uma revolução feminina no interior do Piauí ao chegar no local, na década de 1970.
“Ela proporcionou uma revolução das mulheres. Ela contratou só mulheres para porteiras do parque. A chefe do parque hoje era uma menina quando a Niède chegou. Ela foi inspirada pela Niède. Ela falava em proteção do meio ambiente numa época em que pouca gente falava disso. Se não fosse o trabalho dela, talvez nem tivéssemos as pinturas rupestres e a fauna e a flora preservadas”.
Segundo Adriana, Niède chamou a atenção para a grande resiliência da caatinga e mudou os rumos não só da arqueologia como de toda a região.
“Ela colocou o Brasil no mapa da discussão da arqueologia do mundo na questão da ocupação das Américas por mais controversa que fosse a posição dela naquela época. A importância dela vai muito além da arqueologia. A Niède transformou aquela região. A primeira universidade federal no interior do Nordeste existe em São Raimundo Nonato pelo afinco dela”.
Em nota, o governo do Piauí disse que a arqueóloga transformou milhares de vida na caatinga e seu legado estará sempre na memória e no coração dos piauienses. Segundo o comunicado, desde 1973, quando chegou à região da Serra da Capivara, Niède mudou os rumos da arqueologia brasileira e do primeiro registro do homem americano nas Américas, Ali, ela encontrou a riqueza de mais de mil sítios arqueológicos e pinturas rupestres datadas de até 12 mil anos de idade.
“Tornou sua missão o reconhecimento destas riquezas e transformou a vida de sertanejos com diversos programas sociais. Para ela, desenvolver e prosperar o Parque Nacional da Serra da Capivara era sinônimo de melhorar a vida de cada piauiense que por ali se encontrava”, diz o governo.
O diretor do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Alexandre Kellner, disse que recebeu com enorme consternação a notícia do falecimento de uma das principais arqueólogas do país.
“As contribuições realizadas pela professora Niède Guidon ficarão reverberando por bastante tempo, não apenas no campo da arqueologia, mas também em todos aqueles que atuam para a preservação do patrimônio científico, histórico e cultural do nosso país”.
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